quinta-feira, 30 de julho de 2026

Estreias da semana – Nos cinemas e streamings – Parte 1


Confira resenhas de seis documentários imperdíveis – três deles em exibição nos principais cinemas do Brasil e outros três nos streamings Sesc Digital e Netflix.


Miguel Ángel Blanco: As 48 horas que mudaram a Espanha
 
Documentário investigativo da Netflix, feito na Espanha, sobre o “Caso Miguel Ángel Blanco”, um sequestro seguido de morte que vitimou o jovem político espanhol de 29 anos, cometido pelo grupo separatista basco ETA em 1997. Economista de formação, Blanco era na época vereador do Partido Popular (partido liberal e conservador). Conhecido pela vida simples, era apaixonado por música e esportes. Em julho de 1997, foi sequestrado por membros do ETA, que exigia do governo espanhol a transferência de seus presos para cárceres no País Basco em até 48 horas, sob ameaça de executar Blanco. O ultimato gerou uma onda de protestos pela Espanha inteira, que tomou conta das ruas das principais cidades, com milhões de pessoas que pediam a libertação do político. A mobilização, social e política, era uma tentativa de impedir o assassinato de Blanco. Quando o prazo expirou, o ETA cumpriu a ameaça, baleando o político com um tiro na cabeça. O jovem ficou vários dias no hospital lutando pela vida, gerando nova onda de comoção no país. Na época, o ETA tocava o terror na região – fundado em 1959, o “Euskadi Ta Askatasuna”, que em basco significa "Pátria Basca e Liberdade", assassinou até aquela data 800 indivíduos, como policiais, militares, políticos e funcionários do governo espanhol. O caso de Miguel Blanco tornou-se um divisor de águas na relação da sociedade espanhola com o terrorismo: o país uniu todos os partidos políticos em prol da criação de novas leis para criminalizar o ETA e os atentados terroristas em geral. O que também colaborou para o declínio do grupo separatista, que encerrou a luta armada em 2011 e se dissolveu por completo em 2018. O documentário é composto por vasto arquivo de época, como reportagens de TV e entrevistas, além de depoimentos atuais de pessoas ligadas ao caso. Filme feito com seriedade e ampla pesquisa, tratando como a mídia sensacionalizou o caso, mas também foca no despertar da consciência coletiva em torno de uma tragédia que virou um símbolo de resistência e luta.

 
Amor tóxico
 
Outro documentário investigativo da Netflix na linha de true crime, desta vez um complexo triângulo amoroso com inúmeras reviravoltas. Como são três personagens envolvidos em uma imbricada história de casamento, obsessão e manipulação psicológica, é bom prestar bastante atenção para não perder o fio da meada. O caso em questão ocorreu na cidade de Anaheim, Califórnia, entre 2016 e 2021. A história gira em torno de Ian Diaz, um oficial de justiça recém-casado com a esposa Angela Connell, grávida na época, e a ex-noiva dele, Michelle Hadley, que acabou acusada de perseguição (stalker). Tudo começou quando Angela passou a receber emails ameaçadores de um remetente anônimo que se identificava como “Lilithistruth”. As mensagens, algumas obscenas, outras de ameaça de morte, falavam em vingança, num tom perturbador. Angela acionou a polícia duas ou três vezes (e o filme mostra todas as gravações caseiras da época, de celular e câmeras de vigilância internas da casa), porém a situação escalou para uma invasão à casa de Diaz e a tentativa de estupro da mulher. Michelle, a ex, foi acusada dos crimes e presa após minuciosa investigação de que ela estaria por trás do envio dos emails. A mídia a retratou como vilã em uma narrativa de ciúme e vingança. No entanto, uma nova linha de investigação se abriu, descobrindo que o caso era muito mais complexo: tanto Angela quanto Ian atuavam diretamente numa rede de manipulação digital e falsificação de provas, que confundiu autoridades policiais, juízes e, claro, a opinião pública. O documentário, com plot twists absurdos, que parecem ter saaídos de filmes eletrizantes de ação (só que aqui é a vida real), mostra como esse episódio se transformou em um verdadeiro “circo midiático” acusando pessoas injustamente. Fiquei na frente da TV sem piscar, nesse bom documentário da Netflix que instiga e nos faz pensar como a justiça pode ser falha, jogando para a cadeia pessoas inocentes.


 
Ecos do Teatro Experimental do Negro
 
A Pandora Filmes lançou nos cinemas no final de semana passado esse grande (e praticamente desconhecido) documentário independente que vale o ingresso (e muito mais a reflexão). “Ecos do Teatro Experimental do Negro” tece um olhar cuidadoso, e com muita pesquisa e entrevistas, sobre os atores e atrizes pretos no palco brasileiro. O filme foca no surgimento do Teatro Experimental do Negro (TEN), fundado em 1944 por Abdias do Nascimento, e as históricas encenações mantidas pelo grupo por duas décadas (até 1961). Nascimento foi um artista múltiplo, ator, poeta, escritor, dramaturgo e artista plástico, além de professor universitário, senador e ativista dos direitos humanos. Apesar do temperamento difícil como apontam alguns entrevistados, foi uma das vozes para consolidar a arte negra nos palcos e nas telas, rompendo padrões e estereótipos da época. O TEN virou um marco cultural ao colocar elenco inteiramente negro no centro da cena teatral e transformar o teatro em espaço de afirmação política e estética contra o racismo. O TEN nasceu da indignação de Abdias do Nascimento ao que na época era a naturalização da blackface (um ator branco se pintar de tinta preta para interpretar um personagem negro). A blackface foi um recurso muito utilizado no cinema desde seus primórdios, além da TV e no teatro, levando o TEN a criar um projeto que propiciasse protagonismo a atores negros, bem como sua formação profissional (na época uma das defesas do uso da blackface foi de que haviam poucos atores e atrizes negros, o que de fato existiu mesmo, conforme apontam entrevistados do documentário). O TEN colaborou para a reafirmação da identidade negra e um local para se expandir a conscientização social. Reunia gente comum que queria ser ator: trabalhadores, empregadas domésticas e pessoas sem formação artística, oferecendo cursos de alfabetização e iniciação cultural para que pudessem atuar. Contribuíram para o grupo pensadores e dramaturgos brancos, como Darcy Ribeiro, Lúcio Cardoso e Nelson Rodrigues (que escreveu peças para o TEN, como “Anjo Negro”). A primeira peça do TEN ocorreu em 1945, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, com “O imperador Jones”, uma peça clássica de Eugene O’Neill, tradicionalmente feita por brancos, só que agora por um elenco negro (citado no filme). No documentário vemos nomes ligados ao TEN, como Ruth de Souza e Léa Garcia, que se tornariam grandes atrizes do país. Outros entrevistados contam a influência do TEN em suas carreiras, como os veteranos atores Zezé Motta e Milton Gonçalves, a poetisa Leda Maria Martins, o cineasta Joel Zito Araújo e nomes da TV e do cinema atuais, como Taís Araújo, Lázaro Ramos e Ailton Graça. Daqueles filmes para sair pensando e olhar como as artes evoluíram de meio século para cá na questão racial (mesmo sabendo que ainda há muito a ser construído para se chegar à igualdade social).
 

 
A fabulosa máquina de colher ouro
 
Interessantíssimo documentário independente chileno dirigido por Alfredo Pourailly que está disponível gratuitamente na plataforma do Sesc Digital. Rodado em 2024, traz denúncia social e poesia visual para narrar a vida de Toto, um garimpeiro de 60 anos que vive na Terra do Fogo, no extremo sul da Argentina. Ele trabalhou por mais de 40 anos nas minas de ouro no pé de uma montanha andina em condições duríssimas, sem direito à seguridade social; hoje, debilitado pela idade e pelo esforço físico, percebe que sua sobrevivência está sob ameaça. Seu filho, Jorge, um jovem vaqueiro, planeja a construção de uma máquina artesanal, com sucata, capaz de colher ouro com mais eficiência. O rapaz modela a máquina no computador, faz esboços, recolhe peças antigas e sucatas e cria uma espécie de colheitadeira que escava as pedras e retira o ouro – símbolo de esperança e futuro para uma região perdida. O pai adoece, parece estar em seus dias finais, mas acredita que viverá um tempo trabalhando com o filho na nova máquina de colher ouro. O doc denuncia o trabalho extenuante e a precariedade social enfrentados por trabalhadores em lugares remotos, ao mesmo tempo que celebra a resiliência e a criatividade popular. A máquina criada pelo vaqueiro não é apenas uma solução prática: ela se torna metáfora de dignidade, sobrevivência e reinvenção da vida. Mostra o dia a dia daquela família no meio do gelo, um vínculo terno entre pai e filho, que se torna o motor da narrativa, mostrando como o cuidado familiar pode substituir políticas públicas ausentes – e na visão de Jorge como o empreendedorismo sustentável pode transformar realidades cada vez mais apagadas. O documentário chileno traz ainda ricas paisagens da Terra do Fogo, cercada por geleiras e os Andes, com uma atmosfera melancólica, porém poética. Premiado no Festival de Guadalajara, o filme foi exibido em importantes festivais de cinema documentário, como Hot Docs no Canadá, IDFA na Holanda e Doc NYC nos Estados Unidos.
 

 
Não sei viver sem palavras
 
Estreia hoje nos cinemas pela Bretz Filmes esse documentário sobre um dos nomes de maior destaque da literatura brasileira do século XX, o escritor Ignácio de Loyola Brandão. Nascido no interior de São Paulo, em Araraquara, Ignácio, prestes a completar 90 anos, relembra fatos notáveis de sua longa trajetória no mundo da escrita - de jornalista perseguido na Ditadura Militar a cinéfilo de carteirinha (seu sonho sempre foi ser diretor de filmes e acabou sendo crítico de cinema), marcou gerações de leitores com seus romances e contos que retratavam as complexidades do Brasil e da terra que adotou, São Paulo. Sentado no escritório de trabalho, ele revira a gaveta de fotos e arquivos pessoais para o filho, André Brandão, que é o diretor do filme – são memórias de família, da saudade da cidade natal, do medo da repressão na Ditadura, de quando, por um triz, não morreu quando descobriu um aneurisma cerebral e das inspirações que o levaram a lançar livros reveladores na década de 70, como ‘Zero’ e ‘Cadeiras proibidas’. E também vemos um Ignácio fazer um mea-culpa sobre a ausência como pai na criação dos filhos, já que se entregou inteiramente no ofício de escrever. Exibido no Festival do Rio e na Mostra de Cinema de SP de 2025, o longa é bem narrado, com puro lirismo, em que o público é levado a decifrar os labirintos da mente de um genial escritor.
 
 
A fabulosa máquina do tempo
 
Sensação no Festival de Berlim desse ano, onde concorreu aos prêmios Crystal Bear (na seção Generation Kplus, voltado a filmes infanto-juvenis) e o de melhor documentário, o filme da diretora de “Incompatível com a vida” (2023), Eliza Capai, é uma joia a ser descoberta – e espero que o público o encontre logo. Com uma mistura de fantasia e aventura em uma narrativa marcada pela busca de reconexão com o passado e pela descoberta de futuros possíveis, o doc (que em muitas vezes lembra ficção) acompanha um grupo de meninas na cidadezinha de Guaribas, no sul de Piauí, lugar que ficou conhecido por receber o projeto-piloto “Fome Zero”, em 2003, por ser um município com baixo IDH, sem saneamento básico e de extrema pobreza. Elas têm imaginação fértil, falam o que vem na mente e, numa das brincadeiras diárias, planejam inventar uma máquina do tempo que as transporte para épocas distintas. O filme é uma viagem na mente das meninas, todo composto pela cultura oral, de histórias da carochinha, lendas e folclore, intercaladas pelas crenças religiosas e de perspectivas para um futuro próximo. Nessa jornada de descobertas, as crianças, em meio a um local marcado pela seca, relembram histórias da avó, sobre a fome que assolou a região, bem como do machismo estrutural que ainda permeia a sociedade onde vivem. As imagens são carregadas de forte teor visual/psicológico, principalmente as locações em Guaribas, localizado nas entranhas do sertão. Assisti na Berlinale desse ano, e para mim foi um dos melhores filmes do Festival. Também foi exibido no “É Tudo Verdade” 2026 e estreia hoje nos principais cinemas brasileiros pela Descoloniza Filmes.

terça-feira, 28 de julho de 2026

Estreias da semana – Nos cinemas – Parte 2


Xica da Silva
 
50 anos se passaram do lançamento de “Xica da Silva”, filme de enorme bilheteria na época e uma das maiores obras de Cacá Diegues. Agora, o filme histórico retorna para as principais salas de cinema do país em inédita versão restaurada, na Sessão Vitrine Petrobras (da Vitrine Filmes). Clássico realizado pela Embrafilme em plena ditadura militar, o longa que consagrou Zezé Motta volta com recuperação de imagem e som (lembrando que muitos filmes brasileiros em película perderam qualidade com o tempo, e agora as restaurações digitais recuperam cenas perdidas e limpam trechos com ruídos, riscos e problemas técnicos). “Xica da Silva” foi um marco absoluto da cinematografia brasileira; lançado originalmente em 1976, levou mais de três milhões de espectadores aos cinemas, inserindo uma protagonista preta no centro da história (o que rompia com estereótipos e paradigmas de representação). Sem contar o peso dessa história real, que aborda temas como poder, liberdade, desejo e desigualdade social. Xica da Silva foi uma figura real da História do Brasil Colônia. Nascida Francisca da Silva de Oliveira por volta de 1732 no Arraial do Milho Verde, atual município de Serro, em Minas Gerais, era filha de Antônio Caetano de Sá, um militar português, e de Maria da Costa, uma africana escravizada trazida da Costa da Mina. Durante a juventude, Xica foi propriedade de diferentes senhores, chegando a ter um filho com o médico Manuel Pires Sardinha. Em 1753, foi comprada por João Fernandes de Oliveira, contratador de diamantes representante da Coroa Portuguesa e um dos homens mais ricos da colônia (no filme interpretado por Walmor Chagas). A relação entre os dois transformou sua vida: João Fernandes concedeu-lhe liberdade e manteve com ela uma união estável por cerca de 15 anos, da qual nasceram treze filhos. A partir desse momento, Xica passou a ser chamada de Francisca da Silva de Oliveira e conquistou prestígio e poder em uma sociedade que, em geral, marginalizava pessoas pretas e ex-escravizadas. Sua ascensão social foi notável e controversa: Xica viveu em uma luxuosa residência, frequentou círculos da elite e tornou-se uma figura influente no Arraial do Tijuco (hoje Diamantina). Essa posição incomodava parte da aristocracia branca, que via com resistência a presença de uma mulher negra em espaços de poder e riqueza. Ainda assim, sua história se consolidou como símbolo de mobilidade social e resistência às estruturas raciais e sociais da época. Xica virou parte do imaginário cultural brasileiro, inspirando livros, peças de teatro, música, série e filme, lembrada como “a escrava que virou rainha”. No filme, Cacá Diegues estabelece a historiografia como didática, contando detalhes de sua vida numa interpretação soberba de Zezé Motta. Os figurinos coloridos lembram algo carnavalesco, e a narrativa fluida alternando drama e romance com piadas e humor jocoso se tornam recurso para prender a atenção do espectador. Um filme caro para a época, suntuoso, rodado em lindas locações reais do interior de Minas Gerais, como Diamantina, cuja arquitetura realça o barroco brasileiro (época dos arraias e vilas e a predominância do estilo de casas portuguesas). Jorge Ben compôs a música para o filme, que se tornaria famosa, até hoje cantada. O roteiro de Antonio Callado e de Diegues foi baseado tanto no livro “Xica da Silva”, de João Felício dos Santos, quanto no livro-documento histórico de 1868 de seu tio, o historiador Joaquim Felício dos Santos, “Memórias do Distrito de Diamantina”. No elenco uma série de nomes conhecidos, como Elke Maravilha, Altair Lima, Rodolfo Aren, José Wilker, Stepan Nercessian e Clementino Kelé. Uma preciosidade do cinema brasileiro de volta às telonas.






domingo, 26 de julho de 2026

Estreias da semana – Nos cinemas – Parte 1


Futuro futuro
 
Está em cartaz nos cinemas essa ficção científica distópica brasileira, novo trabalho de Davi Pretto, diretor de “Rifle” (2016) e “Continente” (2024), que foi o vencedor do Troféu Candango de melhor longa no Festival de Brasília, além de ter ganhado lá também os prêmios de roteiro, montagem e menção honrosa para o ator Zé Maria Pescador (uma descoberta incrível esse ator). É um drama scifi desafiador que cria uma Porto Alegre chuvosa, uma metrópole decadente, conflitante e labiríntica, marcada pela presença da Inteligência Artificial e por uma estranha síndrome neurológica. Na trama, acompanhamos K (Zé Maria Pescador), um homem que andarilha pela cidade, sem memória. Ele é acolhido por um senhor solitário (João Carlos Castanha) em seu simples casebre. A relação entre os dois vira um misto de sexo e companheirismo, até K se viciar em um dispositivo tecnológico: sentado à frente da peça, o objeto lança um triângulo infravermelho em sua testa, que o faz conhecer uma outra cidade e situações absurdas. O filme funciona como metáfora para os dilemas contemporâneos: a dependência tecnológica, a fragilidade da memória num mundo tomado pela rapidez das coisas e a luta por sentido em um mundo cada vez mais fragmentado e mediado por máquinas. Filme de atmosfera sombria e pessimista, faz críticas diretas em como a tecnologia nos molda, com dispositivos viciantes, transformando sem volta os humanos. Filme de festival, com pegada diferente e nada fácil de digerir (por isso mesmo interessante, que vale conhecer). Exibido no Festival Olhar de Cinema, está nos principais cinemas do país, com distribuição da Cajuína Filmes.



Toquinho: Encontros e um violão
 
Documentário que celebra os 80 anos do cantor e compositor Toquinho (nascido Antonio Pecci Filho), um músico notável, que percorreu o samba, os afrosambas e a MPB, tendo longa parceria com Vinicius de Moraes. Dirigido por Erica Bernardini, diretora do Festival de Cinema Italiano no Brasil (onde o filme estreou na edição de 2024), o doc acompanha as cinco décadas de carreira do artista, entrelaçando memórias pessoais a entrevistas antigas e imagens de arquivo (muitas da infância e juventude dele, além de turnês no Brasil e na Itália, sua segunda “casa”). É uma obra afetuosa, com Toquinho gravado especialmente para o longa, falando para a câmera e tocando palinhas, enquanto as imagens de outrora dele cobrem o filme. Há depoimentos de amigos que relembram parcerias na música com Toquinho, como Ivan Lins, Jane Duboc, Carlinhos Vergueiro e até a icônica cantora italiana que gravou suas canções Ornella Vanoni (falecida no final do ano passado). O violão surge como protagonista, não apenas como instrumento, mas como extensão da identidade de Toquinho, e revela sua habilidade em unir técnica refinada e sensibilidade popular. No filme viajamos com canções do artista que fizeram sucesso, como “Tarde em Itapuã” e “Regra três”, estas em parceria com Vinicius, e “Aquarela”. É um filme simples na forma, na própria edição sem muitos recursos, mas bem intencionado, que celebra merecidamente a vida e a trajetória desse grande músico brasileiro. Está em cartaz nos principais cinemas do país com distribuição da Pandora Filmes.


Nós acreditamos em você
 
Está na minha lista particular das melhores estreias do ano esse drama belga de forte impacto emocional, dirigido e roteirizado pela dupla estreante Charlotte Devillers e Arnaud Dufeys. Recebeu Menção Especial de Melhor Primeiro Longa-Metragem na Berlinale 2025, e agora está nos principais cinemas brasileiros pela distribuidora Filmes do Estação. É uma história tensa que olhar atento aos detalhes, cuja trama acontece integralmente em poucas horas, em uma sala fechada. Ali está Alice, uma mãe que trava uma batalha judicial pela guarda dos filhos após acusar o ex-companheiro de crimes sexuais contra eles (menores de idade). O que deveria ser um processo centrado na proteção das crianças vira do avesso, em um julgamento da própria conduta da mãe, revelando um sistema que fragiliza a vítima. Na sala estão a juíza do caso, assistentes jurídicos, agentes de segurança, advogados e o pai, acusado do crime. A angústia cresce a cada depoimento, e o filme trabalha muito bem esse ponto, com foco na protagonista, interpretada brilhantemente pela belga Myriem Akheddiou, atriz de “O garoto da bicicleta” (2011) e “Titane” (2021). O longa aborda um tema discutido amplamente na sociedade hoje, a violência sexual contra crianças dentro do ambiente doméstico, e trabalha a coragem, a dor e a urgência dessa mãe na tentativa de provar os crimes sobre seus filhos - mas descredibilizada a todo instante pelo olhar da justiça, que duvida de suas palavras. Gravado no formato 4:3 (ou 1.33:1, conhecido por “tela cheia”), tem predominância de primeiros planos, que tornam o filme angustiante e claustrofóbico, aproximando o espectador das expressões e silêncios dos personagens. Conciso em seus 78 minutos de duração, é uma obra séria e competente, que merece ser vista e debatida.


Marsupilami – Confusões a bordo

Comédia de aventura infantil feita na França, o filme estreou nos cinemas no último fim de semana, pela Paris Filmes. É um passatempo (bem passatempo mesmo), tipo uma Sessão da Tarde, para crianças, que mistura atores reais e animação digital. E que resgata um personagem famoso na França, criado em quadrinhos nos anos 50 por André Franquin, o Marsupilami. No passado, Marsupilami ganhou seriado animado, telefilme, e agora é a maior produção sobre ele, dirigido e estrelado pelo comediante Philippe Lacheau. A história acompanha um funcionário de um zoológico que, para salvar seu emprego, aceita transportar secretamente um pacote vindo de um país chamado Palômbia. Ele viaja de cruzeiro ao lado da ex-esposa, do filho e de um colega atrapalhado, e descobrem que estão carregando um filhote de Marsupilami, criatura rara e travessa (uma espécie de marsupial, amarelo, com traços de onça pintada). Só que atrás deles estará uma gangue que quer capturar o animalzinho, dando início a uma sucessão de confusões. É uma história cheia de corre-corre, para crianças pequenas, que conhecerão um novo formato do famoso personagem, agora em computação gráfica (isso o atualiza e dá novos rumos para as antigas histórias de Franquin). Atores franceses conhecidos aparecem no longa, como Jamel Debbouze e Jean Reno. Achei engraçadinho, mas nada além do trivial em filmes desse naipe.

terça-feira, 21 de julho de 2026

Estreias da semana – Nos cinemas e streamings – Parte 2

A noite de Alaíde
 
A cantora e compositora carioca Alaíde Costa é homenageada em um documentário no ano em que comemora 90 de idade. Uma das maiores vozes da música brasileira, Alaíde sempre selecionou para o repertório de seus shows e discos canções melancólicas da MPB e da Bossa Nova, o que virou uma marca da artista. Filha de um forneiro de padaria e de uma lavadeira, desde pequena demonstrou talento para o canto, participando de concursos de calouros em rádios e circos, onde se destacou ainda adolescente. Em 1955 iniciou a carreira profissional como crooner em bailes no Rio de aneiro até lançar, no ano seguinte, o primeiro álbum, o que abriu caminho para uma trajetória de seis décadas na música. Foi uma das primeiras mulheres negras a entrar no movimento da Bossa Nova, gravando com Vinicius de Moraes, Tom Jobim, Baden Powell, Johnny Alf e João Gilberto. Sua voz delicada e afinada lhe garantiu reconhecimento como uma intérprete singular. No documentário em primeira pessoa, Alaíde relembra infância, juventude e fase adulta, tratando de temas como preconceito racial e as dificuldades para se consolidar no mercado da música (em um ambiente dominado por homens). Com sua voz suave, por vezes demonstrando timidez, ela conta boas histórias nesse filme que mistura linguagens: é documentário com dramatização (Alaíde é interpretada por atrizes mirins e adolescentes de acordo com as fases da vida), e uso de estéticas variadas, como rotoscopia (animação por cima das gravações reais) e animação em 2D, além de entrevistas e apresentações antigas da cantora e arquivo de fotos das décadas de 40 a 70. Essa estética diferenciada vem da mente da diretora especializada em linguagem híbrida, Liliane Mutti, que havia trabalhado algo nessa perspectiva em “Miúcha – A voz da Bossa Nova” (2022). O filme estreou no último fim de semana simultaneamente nos cinemas do Brasil e de Portugal, pela Bretz Filmes, após percorrer festivais nacionais e internacionais, como Telluride, TIFF, IDFA, CPH:DOX, o In-edit Brasil 2026 e o Marché du Film, em Cannes. Haverá amanhã, dia 22/07, sessão especial no Reserva Cultural em São Paulo, às 20h10, seguido de debate com integrantes da equipe do filme. O longa tem licenciamento no Globoplay e em breve entrará no catálogo do Canal Curta!



Três lançamentos da A2 Filmes nos streamings
 
A distribuidora brasileira A2 Filmes lança nos streamings nacionais três novos títulos, de gêneros variados, realizados entre 2025 e 2026. Os filmes estão disponíveis para aluguel na Apple TV, Prime Video, Google Play, Claro TV+ e Vivo Play. Confira abaixo drops sobre eles:
 
O menino e o panda
 
Coprodução França/Bélgica, o filme de aventura infantil de 2025 segue a jornada de um garotinho chamado Tian, de 12 anos, que vai morar com a avó nas montanhas chinesas de Sichuan, o habitat dos pandas-gigantes.  Na temporada longe da vida urbana, ele passa a explorar as áreas verdes do local, as matas e riachos, até se deparar com um filhote de panda solitário, a quem dá o nome de Moon. Entre os dois nasce uma amizade que mudará para sempre a vida do garoto e a de sua família. É daqueles filmes leves, próprios para crianças, bem “Sessão da tarde”. Tudo muito sutil e nada demais, tratando sobre amizade com animais e jornada de autodescoberta. Talvez o diferencial esteja nas bonitas paisagens das montanhas da China, locações reais do berço dos pandas (e o animal do filme, Moon, é bem fofo). O diretor Gilles de Maistre é casado com a roteirista, Prune de Maistre – ele é sobrinho-neto do renomado diretor do Realismo Poético Francês René Clément, e junto da esposa fizeram outros filmes infantis com animais, como “A menina e o leão” (2018).
 
 
A canção que me salvou
 
Filme de drama musical gospel com o veterano ator Nick Nolte, numa história sobre redenção por meio da música. Depois de perder o pai, vítima de câncer, o jovem KJ (Dharon Jones, em sua estreia no cinema) foge de casa, passando boa parte do tempo nas ruas da Filadélfia. Pelos becos dominados pelo tráfico, ele perambula sem rumo aparente. Num dos parques da cidade, ele se encontra com Barry (Nick Nolte), um sem-teto desiludido. Com seu violão em mãos, KJ toca uma canção para Barry, que conhece muito sobre música. Um acolhe o outro, surge ali uma relação de afeto inesperada, e os dois recorrerão às canções para suavizar os tormentos que enfrentam. Curto, simplório, direto, é um filminho delicado sobre relações improváveis, empatia e o poder transformador da arte, produzido por estúdios ligados ao gospel norte-americano (como a história faz supor, em que os personagens utilizam da música religiosa para curar a alma). Não é filme do meu agrado, porém pode agradar a algum público que esteja procurando por algo nessa linha.
 
 
O velho fusca
 
Depois de ficar em cartaz por um mês nos cinemas, chega para aluguel no streaming a comédia brasileira “O velho fusca”, o novo trabalho do diretor e ator gaúcho Emiliano Ruschel (que vem desenvolvendo também carreira nos Estados Unidos). Esperava mais dessa comédia passatempo com bastante gente conhecida da TV e do cinema, como Cleo Pires, Caio Manhente, Tonico Pereira, Christian Malheiros e Danton Mello - mas infelizmente as participações são mal aproveitadas (o que demonstra a fragilidade na direção). O roteiro daria um filme mais legal e menos exaustivo, mas do jeito que ficou cairá no esquecimento. Junior (Caio Manhente) é um rapaz que descobre um fusca abandonado na garagem do avô ranzinza (Tonico Pereira). Ele negocia ficar com o veículo, dá um trato nele e aos poucos se estabiliza na relação com o idoso, que se afastou da família há muito tempo. Ao mesmo tempo Junior tem de lidar com suas amizades e com os compromissos da vida. A narração em primeira pessoa pelo protagonista é um lenga-lenga sem fim, sem contar que o longa é um desfile por points elegantes do Rio de Janeiro, como as praias de Copa e Ipanema, que soam bastante vazios. Para fechar, os diálogos carregam preconceitos e homofobia que não estão no gibi... Detestei tanto esse quanto o filme anterior de Ruschel, o pavoroso suspense “Segredos” (2024), que tem no elenco o próprio Ruschel fazendo par com Danni Suzuki.



Estreias da semana – Nos cinemas e streamings – Parte 1


Naufrágio: O pesadelo do Costa Concordia
 
Mais um dos tantos documentários da Netflix sobre reconstituição de tragédias reais, desta vez envolvendo o naufrágio do Costa Concordia, um imponente navio de cruzeiro. O caso aconteceu em 13 de janeiro de 2012, quando, numa viagem com 4.200 pessoas, a embarcação se chocou contra as rochas próximas à Ilha de Giglio, na Itália. O navio passou por uma manobra arriscada do capitão, que o levou muito próximo da costa. O impacto com as pedras destruiu parte do casco, que fez com que o navio inclinasse e houvesse perda de energia elétrica. A demora da tripulação em ordenar a evacuação agravou o cenário, gerando pânico e desorganização entre os passageiros. Foram horas de desespero para colocar todos em botes, enquanto a embarcação submergia nas águas. O resultado: 32 pessoas mortas, dezenas de feridos e a fuga do capitão Francesco Schettino, que abandonou o navio antes do término do resgate (sua justificativa foi de que teria “escorregado” para dentro de um bote salva-vidas, mas em 2015 ele foi condenado por homicídio culposo, naufrágio e abandono, recebendo pena de 16 anos de prisão). Devido à dimensão do desastre e ao porte da embarcação, o resgate do Costa Concordia tornou-se a operação marítima mais complexa e cara já realizada – e a tragédia em si entrou para a História como um dos maiores desastres marítimos dos últimos anos. O filme da Netflix relembra o caso, com entrevistas dolorosas de passageiros que perderam familiares, de sobreviventes e de parte da tripulação do Costa Concordia. Há muito material de arquivo, como reportagens da época, muitas delas italianas, e imagens inéditas, somente agora liberadas para uso, do resgate das vítimas. Um bom filme, que nos deixa apreensivos diante do impacto daquela noite interminável - após o naufrágio do Costa Concordia, a indústria de cruzeiros implementou mais de 30 novas políticas de segurança, como mudanças nas leis e práticas marítimas globais que incluem a obrigatoriedade de treinamento de emergência antes do navio zarpar, restrições severas de acesso à ponte de comando e a exigência de planejamento de rotas com antecedência.
 

 
A divina Sarah Bernhardt
 
A Imovision lançou nos cinemas no último fim de semana dois filmes de títulos parecidos que relembram a trajetória de mulheres no cinema: “A divina Sarah Bernhardt” e “Diva futura”, ambos de 2024 e somente agora chegando nas salas brasileiras. “A divina Sarah Bernhardt” é uma regular biografia da atriz francesa Sarah Bernhardt (1844-1923), com enfoque nos anos finais de sua vida, quando debilitada após a amputação da perna direita, em 1915. Nesse período passava boa parte do tempo ou deitada em uma cama ou sentada numa cadeira, devido à pouca mobilidade provocada pelas dores intensas no quadril. Enfermeiros a transportavam para lá e para cá, em apresentações, gravações e afazeres domésticos. Aclamada como a “Divina Sarah”, tornou-se uma das atrizes mais importantes de sua época, referência nos palcos franceses, e que no cinema (sua carreira na tela foi curta) esteve numa das primeiras versões de “A dama das camélias”, em 1912, no papel central, da cortesã Marguerite Gauthier. Egocêntrica, temperamental, recusava-se a abandonar a cena, atuando em filmes mudos, peças teatrais, deitada ou apoiada em cadeiras. Essa obstinação em permanecer ativa até os últimos instantes reforçava a imagem de uma artista indomável, ainda que o corpo já não acompanhasse sua energia criativa. Quem a interpreta Sarah é uma atriz francesa que gosto muito, versátil em comédias e dramas, Sandrine Kiberlain, premiada com o César, de “Mademoiselle Chambon” (2009) e “A garota radiante” (2021 – escrito e dirigido por ela). Ela faz uma Sarah cercada por antíteses: ora enérgica para atuar, ora agressiva com as pessoas que a cercavam (sua biografia conta que era uma mulher intempestiva, que gritava com qualquer um que a contrariasse). Vestia roupas chiques, tinha bom gosto e mantinha relações intensas com escritores e atores, como Lucien Guitry (no filme interpretado pelo sempre condizente Laurent Lafitte), membro da Comédie-Française e diretor do teatro Renaissance. Tinha amizades com intelectuais célebres, como os dramaturgos e escritores Victor Hugo, Émile Zola, Alexandre Dumas (alguns aparecem no filme), que a viam como musa inspiradora. O trato do filme é na personalidade forte e independente de Sarah, que desafiava convenções e não hesitava em confrontar colegas ou diretores se tivesse razão. A postura incisiva, de mulher geniosa, refletia nas relações afetivas (raramente ela mantinha algo duradouro com os homens de sua vida), e isto atingia também seu trabalho no cinema (Sarah não compreendia bem a Sétima Arte, por isso fez menos de 5 filmes, a maioria curtas, e chegou a ordenar a destruição de filmes que participou que não lhe agradavam). Ela morreu em 1923, em Paris, de complicações renais, tendo um dos funerais mais impressionantes da história: o caixão cruzou as principais vias de Paris, sua morte comoveu multidões, reunindo mais de 35 mil pessoas até o cemitério Père-Lachaise, onde estão sepultadas diversas personalidades do universo das artes. Mais um bom trabalho do diretor Guillaume Nicloux (de “O vale do amor”, “Os confins do mundo” e “A religiosa”).
 

 
Diva Futura
 
Junto de “A divina Sarah Bernhardt” (2024), a Imovision lançou nas salas brasileiras no último fim de semana outro cult movie que retrata figuras femininas no cinema. Aqui temos a história real da agência publicitária italiana Diva Futura, criada no início dos anos 1980, em Roma, pelo fotógrafo e cineasta Riccardo Schicchi (1953-2012). O empreendimento cultural descobriu modelos e logo ficaria famoso por realizar filmes pornôs europeus, distribuídos depois no mundo todo. A agência tinha a proposta de profissionalizar e dar visibilidade aos artistas do setor, principalmente atrizes que não tinham reconhecimento, apesar de certo talento. Schicchi cunhou o termo “porn-star” para valorizar seus agenciados, colocando-os em pé de igualdade com ícones italianos da Sétima Arte e da TV. No filme ele é interpretado por Pietro Castellitto, filho do veterano astro Sergio Castellitto. Ele está bem no protagonismo da fita – um ator de boas expressões, que já atuou em vários filmes e até dirigiu, apesar da pouca idade (34 anos). Na história ele abre a agência, relativamente pequena, que viraria um estúdio de gravação também; revelou principalmente três mulheres que do dia para a noite viraram estrelas do cinema adulto: Ilona Staller, a Cicciolina, que depois seria deputada; Moana Pozzi, atriz que chegou a se candidatar à prefeitura de Roma (e faleceu nova, aos 33 anos, de câncer); e Eva Henger, que também ganhou notoriedade como modelo. E agenciou ainda Rocco Siffredi, o ‘Rocco’ da produtora de cinema pornô que fez sucesso nos anos 90. As três mulheres ganham vida na tela, interpretadas respectivamente por Lidija Kordic, Denise Capezza e Tesa Litvan, cada uma com seu estilo de atuação, misturando delicadeza, sensualidade e energia. Elas trazem vigor para a história sobre o universo do cinema erótico/pornô da época, com seu glamour e cores radiantes. A Diva Futura escandalizou setores conservadores da sociedade italiana, chegou a ser impedida de trabalhar pela polícia e quase fechou no auge de seu funcionamento (ela perdeu força no final dos anos 1990, acompanhando mudanças no mercado e o desgaste da imagem pública de suas estrelas). O filme vai entremeando a trajetória dessas mulheres e do diretor da agência, mostrando tanto o glamour delas quanto o preconceito enfrentado. O impacto da Diva Futura foi cultural e político não só na Itália, mas na Europa toda, um fenômeno que consolidou a pornografia como indústria cultural. Cicciolina (conhecida pelos peitos avantajados), depois levou a discussão sobre sexualidade para dentro do parlamento, enquanto Moana Pozzi legitimou sua imagem pública na política, em campanhas para prevenir doenças sexuais. O filme é um trabalho peculiar da cineasta, atriz e produtora Giulia Louise Steigerwalt – ela fez o roteiro adaptando as páginas do livro “Oltraggio al pudore”, da jornalista Debora Attanasio (com colaboração de Ricardo Schicchi e Eva Henger). Indicado ao Leão de Ouro no Festival de Veneza de 2024, está em exibição nos cinemas do Reserva Cultural, com distribuição exclusiva da Imovision.

terça-feira, 14 de julho de 2026

Estreias da semana – Nos cinemas e streamings – Parte 4


A mulher mais rica do mundo
 
Com 50 anos de carreira nas costas, Isabelle Huppert é uma atriz completa, que já trabalhou com grandes nomes do cinema. Tem uma centena de filmes no currículo, de gêneros variados, e uma coleção de prêmios. Aos 72 anos, ela estrela com maestria esse drama sobre disputa e poder no mundo corporativo, que acaba de chegar na plataforma de streaming Filmelier+. Tem uma figura real por trás da história fictícia: é livremente inspirado na vida da bilionária Liliane Bettencourt, herdeira dos cosméticos L’Oréal, por muito tempo apelidada de “a mulher mais rica do mundo”. Sua trajetória foi marcada por intensa disputa familiar e judicial sobre o controle da fortuna, envolvendo acusações de manipulação por parte de um fotógrafo e escândalos de corrupção que atingiram o alto escalão do governo francês (ela faleceu em 2017 aos 94 anos). Na trama, acompanhamos Marianne Farrère, interpretada por Isabelle Huppert, magnata da indústria de cosméticos. Ela é influente no mundo empresarial, apesar de ser difícil de lidar. Sua vida aparentemente sólida começa a ruir quando conhece Pierre-Alain Fantin (Laurent Lafitte), um escritor e fotógrafo ambicioso, cuja aproximação desperta sentimentos intensos entre ambos. A amizade dos dois desencadeará uma série de eventos que colocarão em risco o dinheiro e a estabilidade de sua família. O envolvimento de Marianne e Fantin abriu espaço para doações milionárias, suspeitas de corrupção e segredos sombrios ligados ao passado da fortuna construída, revelando como o luxo pode esconder dramas de proporções quase trágicas. O filme é um denso retrato psicológico sobre a controversa personalidade em cheque, explorando o contraste entre o poder absoluto e a fragilidade emocional de Marianne, ao mesmo tempo em que expõe a luta de sua filha desconfiada, Frédérique Spielman (Marina Foïs), pelo controle do império. Tem uma boa mistura de romance, drama e thriller, com diálogos afiados e atmosfera elegante. Com direção e roteio de Thierry Klifa, de “Tudo o que nos separa” (2017), o filme esteve em Cannes onde concorreu ao Queer Palm no ano passado.



Salvação
 
Vencedor do Grande Prêmio do Júri no Festival de Berlim de 2026 e filme de encerramento do Festival Olhar de Cinema, “Salvação” (“Kurtulus”) é um dos filmes mais poderosos do ano, uma obra de mestre que mistura drama e thriller (a gradação da violência me lembrou a estrutura de outro filme semelhante, “Dheepan – O refúgio”, ganhador da Palma de Ouro em 2015). O filme, uma coprodução de seis países (Turquia, França, Países Baixos, Grécia, Suécia e Arábia Saudita), é inspirado em uma trágica história de disputa por terras e vingança entre famílias. Em uma aldeia remota no alto das montanhas, na fronteira da Turquia com a Síria, membros de um clã exilado retornam para a região. Eles reivindicam parte do território, o que reacende uma antiga crise entre duas famílias. O irmão do líder local é assombrado por estranhos presságios, que tiram seu sono. Ele acredita que aquilo seja um aviso sagrado, o que o coloca em atrito com o irmão. Paralelamente, as duas famílias rivais se organizam para negociar a divisão das terras, gerando um mal-estar na comunidade. O filme funciona como uma parábola sobre extremismo religioso e político – na história uma população devota será instrumentalizada por um mentor fanático a cometer um massacre, usando as palavras de Deus para o ato, como costuma ocorrer em ataques terroristas. A obra faz alusão a um crime de proporções devastadoras ocorrido em 4 de maio de 2009, no vilarejo de Bilge, província de Mardin, sudeste da Turquia, quando homens armados e mascarados, membros de uma mesma família de milicianos, invadiram uma festa de noivado com granadas e fuzis, matando 44 pessoas, incluindo os noivos, mulheres e crianças. Os atiradores pertenciam ao clã curdo Çelebi, e foram motivados por uma antiga disputa de terras e contra a união das duas famílias. O caso chocou o mundo, tomou conta dos noticiários, e agora o filme procura fazer um retrato do sórdido fato. Em seu quinto longa-metragem, o diretor e roteirista turco Emin Alper faz um estudo sobre os crimes de ódio motivados por política e religião, atrelados também a outras questões (a disputa por território). Ele rodou no verdadeiro local onde ocorreu o caso do massacre, em Mardin, na Turquia, o que deixa a história ainda mais assustadora. Um grande filme, com uma fotografia de muitas tonalidades (com destaque para as cenas noturnas nas grutas, com os clarões das chamas – algo quase sobrenatural, de terror). Nos cinemas brasileiros pela Pandora Filmes.


domingo, 12 de julho de 2026

Resenhas especiais

 
Especial “Invasores de corpos”
 
Vampiros de almas
 
Médico em viagem a uma cidadezinha da California estuda um caso bizarro: os habitantes estão sendo trocados por formas similares vindas de outro mundo.
 
Obra cult do cinema B norte-americano, o filme de Don Siegel (que se tornaria um mestre do western, gravando muitos filmes com Clint Eastwood) tornou-se um marco do cinema de ficção científica. Baseado no livro de Jack Finney, que compilou suas histórias de invasores alienígenas publicadas no Collier's Magazine, uma revista conhecida da época (o livro foi publicado há alguns anos no Brasil pela Darkside), o filme traz a história do médico Miles Bennell (Kevin McCarthy), que após um congresso médico, viaja a uma cidadezinha da California, Santa Mira, para acompanhar o estranho caso de pessoas que acreditam que seus familiares não são quem são: segundo eles, mudaram de comportamento, estão frios e distantes. Cético, o médico resolve investigar o caso, e aos poucos descobre que as pessoas estão sendo substituídas por réplicas alienígenas sem emoções, geradas em estranhos casulos em estufas. É uma estranha forma de vida que caiu na Terra sem explicação, e faz um duplo da pessoa, criando um novo ser, sem sentimento, para que o mundo seja recriado. O médico tenta alertar a população, mas é tarde demais, pois muitos já se transformaram. Produzido com orçamento modesto (U$ 415 mil), na febre dos filmes scifi B dos anos 50, destacou-se por sua atmosfera claustrofóbica e final sombrio, que reforça a sensação de impotência diante de uma invasão alienígena. A ideia do longa vai além: tem embutida uma crítica social sobre o perigo de se perder a individualidade em meio às pressões políticas e culturais da época – há aqui uma série de alegorias sobre a paranoia da Guerra Fria, de agentes russos infiltrados (seriam eles os alienígenas?) e o Macarthismo; vale lembrar que EUA e URSS, na época, estremeciam o mundo com seus embates ideológicos, e na terra do Tio Sam o Congresso ameaçava cineastas e produtores acusados de serem comunistas, perseguindo radicalmente a classe e os colocando no ostracismo. Um grande filme do cinema, para ser visto e revisto. Saiu em edições avulsas por diversas distribuidoras ao longo dos anos áureos do DVD, e recentemente num box da trilogia principal pela Classicline. Ganhará em breve versão restaurada em bluray pela Versátil Home Vídeo, em uma caixa com os quatro filmes da série - versões de 1956, 1978, 1993 e 2007 (está em pré-venda no site da distribuidora).
 
Vampiros de almas (Invasion of the body snatchers). EUA, 1956, 80 min. Ficção científica/Terror. Preto-e-branco. Dirigido por Don Siegel. Distribuição: Classicline
 
 
Invasores de corpos
 
Agente de vigilância sanitária investiga uma estranha forma de vida que veio do espaço; pessoas estão sendo trocadas por réplicas idênticas, e aparentemente o governo norte-americano está por trás do caso.
 
Excelente remake da fita B que se tornou cult “Vampiros de almas”, agora colorido, que conta com grande elenco e atualiza com perspicácia a história de paranoia e alegoria política (além de ser uma fita de terror assustadora). Dirigido por Philip Kaufman (que depois faria “Os eleitos” e “A insustentável leveza do ser”), o filme transpõe a história para São Francisco, ampliando a escala urbana e intensificando o clima de angústia e estranhezas. Elizabeth Driscoll (Brooke Adams) percebe mudanças estranhas no comportamento de seu namorado após levar para casa uma planta incomum. Um inspetor de vigilância sanitária é chamado, Matthew Bennell (Donald Sutherland, ótimo no papel central), e passa a estudar com precisão o caso ao lado de Elizabeth. Eles descobrem que alienígenas estão duplicando humanos enquanto dormem, gerando-os em casulos gigantes. O filme se destaca por uma nova atmosfera sombria, trilha inquietante e efeitos visuais eficientes, como os corpos se desfazendo, misturados a uma gosma orgânica. Ao contrário da versão de 1956, o pessimismo é ainda maior: não há salvação, apenas a inevitável assimilação dos corpos humanos pelos alienígenas. A obra traz novas simbologias, já que o contexto histórico e político mudou em 20 anos: sai da Guerra Fria e do Macartismo para a paranoia do caso Watergate, ocorrido quatro anos antes. Reflete assim o desencanto dos anos 1970, marcado por crises políticas e sociais, e sugere que a alienação urbana e a desconfiança entre indivíduos já eram sintomas de uma sociedade em colapso. A abertura do filme mostra a contaminação vinda de outro planeta, com uma estranha substância se espalhando com uma fina nuvem caindo na terra. Tem cenas de perseguição, jumpscares e escatologia, e participações especiais de Leonard Nimoy (o Dr. Spock de “Star Trek”), Kevin Mccarthy (o astro do anterior) e uma ponta não-creditada de Robert Duvall bem no início, como um padre no balanço. Saiu em DVD há muitos anos pela MGM/20th Century Fox e recentemente num box da trilogia principal pela Classicline. Ganhará em breve versão restaurada em bluray pela Versátil Home Vídeo, em uma caixa com os quatro filmes da série - versões de 1956, 1978, 1993 e 2007 (está em pré-venda no site da distribuidora).
 
Invasores de corpos (Invasion of the body snatchers) EUA, 1978, 115 min. Ficção científica/Terror. Colorido. Dirigido por Philip Kaufman. Distribuição: Classicline e MGM/20th Century Fox


Invasores de corpos – A invasão continua
 
No Alabama, uma adolescente e seu pai descobrem um plano sinistro do Exército de substituição de humanos por réplicas idênticas vindas de outro planeta.
 
Indicado à Palma de Ouro em Cannes, a terceira parte da trilogia “Invasores de corpos” é assinada de Abel Ferrara, diretor de filmes sujos e marginais que mostravam o submundo nu e cru de Nova York dos anos 80 e 90 (como “Sedução e vingança” e “O rei de Nova York”). Na versão de Ferrara, a trama se desloca para uma base militar no sul dos EUA, onde a adolescente Marti Malone (Gabrielle Anwar) percebe que pessoas ao seu redor estão sendo substituídas por um duplo. São alienígenas ocultados pelo governo numa base militar, para fins de experiência genética. O ambiente rígido e disciplinado do exército intensifica a metáfora: em um espaço já marcado pela obediência, a invasão torna-se imperceptível. Menos celebrado que os antecessores, o filme traz momentos memoráveis, como a atuação de Meg Tilly e seu monólogo arrepiante sobre a inevitabilidade da incorporação alienígena. A adaptação foca na experiência íntima e psicológica da protagonista, ao lado do pai, tentando alertar a população a fugir do Alabama onde ocorre a expansão dos casos de assimilação alienígena. Novamente se explora o horror da perda de identidade e da fragilidade humana frente ao desconhecido – e reforça teorias de conspiração envolvendo o governo norte-americano, de que as Forças Armadas acobertariam casos de alienígenas capturados, como o Caso Roswell e o Majestic12. Há no filme participações especiais de R. Lee Ermey e Forest Whitaker. Saiu em DVD há muito tempo atrás pela Warner Bros. e recentemente num box da trilogia pela Classicline. Ganhará em breve versão restaurada em bluray pela Versátil Home Vídeo, em uma caixa com os quatro filmes da série - versões de 1956, 1978, 1993 e 2007 (está em pré-venda no site da distribuidora).
 
Invasores de corpos – A invasão continua (Body snatchers). EUA, 1993, 87 min. Ficção científica/Terror. Colorido. Dirigido por Abel Ferrara. Distribuição: Classicline e Warner Bros.

sexta-feira, 10 de julho de 2026

Estreias da semana – Nos cinemas – Parte 3


Três vezes adeus
 
Renomada diretora, roteirista e produtora de cinema espanhola, que faz filmes também na França, EUA e Itália, Isabel Coixet já realizou mais de 40 longas, dentre eles "Minha vida sem mim" e "A vida secreta das palavras", e seu último trabalho estreou no Brasil no 8½ Festa do Cinema Italiano. O festival, que ocorreu de 25/06 a 01/07, continua em repescagem em itinerância por várias cidades do país, e “Três vezes adeus” também conta com novas exibições (no dia 11 será em Búzios, no RJ, e dias 11 e 14 em Fortaleza, Ceará). Filme autoral da diretora, como boa parte de suas obras, a coprodução Itália/Espanha tem roteiro assinado por ela junto a Enrico Audenino, adaptado do livro semi-autobiográfico “O sentido da náusea”, da escritora e ativista italiana Michela Murgia (1972-2023). É a vida de um casal que está a ponto de se separar, Marta (Alba Rohrwacher, de “As maravilhas”, irmã da diretora Alice Rohrwacher) e Antônio (Elio Germano, de “A vida solitária de Antonio Ligabue”). De um tempo para cá as discussões entre eles foram banais, relativamente pequenas, mas colaboraram para o cansaço da relação e o consequente término. Após a separação, Marta, uma professora de educação física, isola-se do mundo, sente-se para baixo, com falta de apetite, enquanto ele, um chefe de cozinha, segue com tudo no trabalho. Antônio começa a sentir falta de Marta. Ela então tem fortes dores de estômago, parece que sua saúde não anda bem – e logo descobre uma gravíssima doença. Coixet, como em “Minha vida sem mim”, retorna ao tema da morte e do isolamento feminino, explorando aqui dois assuntos pessoais para ela: gastronomia e música. Tudo é trabalhado como oposições/antíteses na figura do casal: ela perde a fome, enquanto o marido ganha dinheiro com comida; ela se isola, enquanto ele vive intensamente – o que demonstra a dor maior da mulher na separação. Melancólico, faz uma meditação sobre o fim do casamento e da brevidade da vida, sem cair em melodramas. Coixet é uma diretora talentosa, veterana, que faz filmes variados, e mais uma vez coloca no currículo um bom trabalho de atores. Exibido nos festivais de Toronto e do Rio, já tem data para estrear no circuito de cinemas do Brasil: 1º de outubro (com distribuição da Autoral Filmes).
 

 
Franz
 
Outro filme de uma cineasta importante de nosso tempo, a polonesa Agnieszka Holland, veterana no cinema, que ajudou a fundar o Cinema da Inquietação Moral (Kino Moralnego Niepokoju) nos anos 70 – movimento que, por meio de filmes, criticava a corrupção do governo, a censura e a falta de ética na sociedade. Hoje, aos 77 anos, continua firme em seus ideais e fazendo um filme a cada três anos – de 2019 para cá realizou quatro, um melhor que outro, com destaque para “O charlatão” e “Zona de exclusão”. Em “Franz” se volta a uma simples e didática cinebiografia do escritor tcheco Franz Kafka (1883-1924), grande nome do realismo fantástico. O filme é um mosaico com passagens fundamentais de sua infância e juventude, entre Praga e Viena – Kafka viveu pouco, morrendo aos 40 anos de tuberculose. Nascido em 1883, em Praga, então parte do Império Austro-Húngaro, em uma família judaica de classe média, desde cedo viveu sob as regras rígidas de seu pai, Hermann Kafka, cuja personalidade autoritária marcou sua vida e sua obra. Estudou em escolas alemãs e, mais tarde, ingressou na Universidade Alemã de Praga, onde se formou em Direito. Apesar de seguir carreira como funcionário em companhias de seguros, sua verdadeira paixão era a escrita, que desenvolvia nas horas livres, muitas vezes em conflito com a rotina exaustiva do trabalho. Durante sua vida, Kafka publicou poucas obras, entre elas o célebre conto “A metamorfose” em 1915, que lhe trouxe reconhecimento literário. Seus livros refletiam temas como alienação, burocracia opressiva e o absurdo da existência, influenciados tanto por sua relação difícil com o pai quanto pelo contexto político e cultural da Europa daquele período (durante a Primeira Guerra). O filme mostra um pouco disso e muito do campo pessoal, com Kafka em suas relações marcadas por instabilidade, incluindo o noivado com Felice Bauer e um relacionamento intenso com a jornalista Milena Jesenská. Em 1917, foi diagnosticado com tuberculose, doença que agravou sua fragilidade física e o levou a períodos de internação em sanatórios. Vivia fraco pelas ruas, escarrando sangue, por longos dias acamado. Após anos de luta contra a enfermidade, faleceu em 3 de junho de 1924, em um sanatório próximo a Viena, vítima da tuberculose laríngea. O filme, que se chamaria “Franz antes de Kafka”, foi o representante da Polônia no último Oscar, mas ficou de fora da lista final. É uma boa biografia (não excelente), tem no elenco atores corretos de várias nacionalidades, como tchecos, poloneses, austríacos e alemães, com destaque para Idan Weiss, que faz o Kafka, em um de seus primeiros papeis no cinema. Exibido nos Festivais de Toronto, San Sebastián e Rio, estreia nos cinemas nesse fim de semana, pela A2 Filmes.

terça-feira, 7 de julho de 2026

Estreias da semana – Nos streamings – Parte 2


As ovelhas detetives
 
Deixou de ir para as salas cinemas e entrou direto no Prime Video essa comédia policial que só tem aparência infantil. Mas não é. É um filme de mistério com pitadas de humor sarcástico sobre um rebanho de ovelhas que decide investigar o assassinato do pastor que cuida delas. Ele é George (Hugh Jackman), um homem solitário que vive num trailer no alto de uma montanha na Irlanda. Cuida das ovelhas como filhas, e todas têm um nome conforme seus comportamentos (Mimosa, Valente etc). Ele as tosa, brinca e quando cai a noite lê romances policiais no descampado para dormirem. Quando George vira as costas, as ovelhas conversam entre elas, como humanos. George, apesar de recluso, é amigável com as pessoas, vai sempre para a cidade onde conversa com qualquer um. Até que ele é encontrado morto, causando um choque na cidadezinha. As ovelhas, assustadas, resolvem desvendar o crime procurando pistas pelo caminho. Elas se unem num grupo chamado Ovelhas Detetives. O filme é apresentado em primeira pessoa, Jackman narrando, falando das ovelhas e da comunidade onde mora. E quando o caso policial começa, a trama cai no colo dos animais, virando um filme de aventura policial caprichado, engraçado e dinâmico. As ovelhas, uma mais cômica que outra, investigam com atenção o crime a partir da resolução dos casos policiais das histórias que George contava para elas antes de dormir (ou seja, George mal sabia que estava formando legistas e peritas). Os animais seguem pistas, desconfiam de vizinhos e enfrentam situações inusitadas, revelando segredos da comunidade e conduzindo o público por uma narrativa cheia de reviravoltas. Com direção de Kyle Balda (criador de “Meu malvado favorito”) e roteiro de Craig Mazin (das séries “Chernobyl” e “The last of us”), a produção se destaca pelo elenco de nomes de peso e efeitos visuais convincentes em CG que dão vida e movimento realista aos animais, criando uma experiência surpreendente. O elenco humano conta com Emma Thompson, Nicholas Braun e Nicholas Galitzine, e as vozes das ovelhas são interpretadas por Julia Louis-Dreyfus e Patrick Stewart, por exemplo, trazendo personalidade, leveza e carisma. A combinação de atuações sólidas com dublagens expressivas e uma história ágil garantem que o filme funcione tanto como sátira quanto como uma história de investigação envolvente. O filme é uma adaptação do livro alemão “Three bags full”, de Leonie Swann, escrito 20 anos atrás, e tem na trilha sonora músicas pop dançantes dos aos anos, como "I'm gonna be (500 miles)", de The Proclaimers. Achei um barato e recomendo.




O assassinato de Rachel Nickell
 
Novo documentário de true crime (que a Netflix é expert em fazer), que reconstrói um caso policial marcante da década de 1990 no Reino Unido. Em julho de 1992, Rachel Nickell, jovem mãe de 23 anos, foi assassinada a facadas em Wimbledon Common, Londres, enquanto passeava com o filho de dois anos e o cachorro da família. O crime ocorreu pela manhã, na rua, num dia comum. O menino presenciou o crime, e apesar de pequeno, sem entender direito o que ocorria ali, tentou ajudar a mãe, sem sucesso. Ele se tornou a única testemunha direta, o que ampliou o choque público daquele crime. O filme reúne trechos de reportagens, depoimentos antigos e atuais de policiais e familiares de Rachel, para montar um mosaico investigativo ao público. A polícia fez uma operação desastrosa, envolvendo uma agente infiltrada que buscava induzir um frequentador do parque, suspeito do crime, a confessar. Vendo que a estratégia era ilegal e sem provas concretas, aquilo fracassou, deixando o indivíduo marcado pelo estigma de suspeito durante anos. O documentário mostra como a pressão midiática e os erros policiais transformaram o caso em um verdadeiro circo, atrasando a justiça e expondo falhas graves no sistema investigativo. Somente em 2008 novas análises de DNA identificaram o verdadeiro culpado, cujos detalhes são colocados no filme. A produção da Netflix combina ainda entrevistas com jornalistas, além de imagens de arquivo, para mostrar não apenas o fato trágico, mas também o impacto duradouro sobre o filho de Rachel, Alex Hanscombe, e sobre seu pai, André Hanscombe, também discutindo seriamente como erros policiais e julgamentos precipitados podem destruir vidas e fragilizar o sistema judiciário pelos olhos da opinião pública. Um bom doc da Netflix, que estreou em 04 de junho.


Nota do blogueiro

 
Cine Debate realiza neste sábado sessão gratuita de filme brasileiro, no Sesc
 
O Cine Debate de julho, projeto de extensão do Imes Catanduva, em parceria com o Sesc, antecipa sua sessão mensal de cinema para o próximo sábado, dia 11/07. A partir das 14 horas, será exibido o filme brasileiro “Malês” (2024), dirigido e protagonizado por uma lenda viva do cinema nacional, Antônio Pitanga. Sessão e debate são gratuitos e abertos ao público, no Sesc Catanduva, conduzidos pelo idealizador do Cine Debate, o jornalista, crítico de cinema e professor do Imes Felipe Brida, com mediação da equipe do Sesc.


 
Sinopse: Drama que faz uma reconstituição história da Revolta dos Malês, considerada a maior rebelião urbana de escravizados da História do Brasil. Ocorreu na madrugada de 24 para 25 de janeiro de 1835, em Salvador, Bahia, e foi organizada por negros islamizados (chamados de "malês", que significa muçulmano). A revolta teve como principais objetivos o fim da escravidão, a conquista da liberdade religiosa e o controle da cidade.
 
Cine Debate
 
O Cine Debate é um projeto de extensão do curso de Psicologia do Imes Catanduva em parceria com o Sesc Catanduva. Completa 14 anos em 2026 trazendo filmes cult de maneira gratuita a toda a população. Conheça mais sobre o projeto em https://www.facebook.com/cinedebateimes

sábado, 4 de julho de 2026

Nota do blogueiro

Caros e caras, há 10 dias abri (finalmente) meu cadastro no Letterboxd. Estou registrando lá, dia a dia, os filmes que já assisti ao longo da vida, bem como repostando no 'reviews' da página as resenhas que escrevo no blog  e em outros canais. Já transferi quase metade dos registros que estavam no Filmow (página que eu fazia avaliações de filmes desde janeiro de 2013) - no Filmow os números são de 17.095 filmes e séries vistos, sendo 15.700 filmes, 435 séries e de 830 curtas-metragens, e 1920 críticas escritas; já no Letterboxd, até este momento, marquei cerca de 7.870 filmes/minisséries assistidos.
Gostei do Letterboxd, o site é funcional e viciante. Para me seguir: https://letterboxd.com/felipebrida



E continuo fazendo as pontuações e publicando críticas e resenhas no Filmow, uma rede colaborativa 100% brasileira. Meu cadastro lá é https://filmow.com/@felipebosobrida.
Até lá, pessoal!

terça-feira, 30 de junho de 2026

Estreias da semana – Nos cinemas e streamings - Parte 1


Criaturas extraordinariamente brilhantes

Preparem-se para um dos filmes mais encantadores da temporada e traz uma interpretação deslumbrante, como sempre, da veterana Sally Field, num trabalho digno de indicação ao Oscar. A nova produção da Netflix, inspirada no best-seller de Shelby Van Pelt, é um drama sensível de uma amizade improvável, que se torna uma metáfora sobre perseverança. A trama acompanha Tova (Sally Field), viúva que trabalha como zeladora noturna em um aquário de uma pequena cidade costeira. Ela por muito tempo buscou respostas acerca do desaparecimento do filho, ocorrido há muito tempo. Tova, certo dia, percebe algo enigmático com um dos polvos do aquário central que ela limpa todos os dias, chamado Marcellus; ele é um polvo-gigante-do-Pacífico, uma espécie rara de ser encontrada, dotado de inteligência e memória extraordinárias. Aparentemente ele se comunica com aquela senhora por meio de movimentos. Tova passa a observar o animal, conversa com ele, e do outro lado do vidro, Marcellus ouve a voz e a sente, respondendo com gestos sutis. Até que na história surge Cameron (Lewis Pullman), um jovem em busca de pistas sobre o pai biológico. O encontro dos três abre caminho para revelações que unirão suas trajetórias, expondo segredos guardados pelas águas e pelo silêncio. O lance do roteiro de John Whittington e Olivia Newman (que também é a diretora, e antes fez outro filme com uma protagonista solitária, “Um lugar bem longe daqui”) é tornar o aquário um espaço simbólico de dores humanas e a possibilidades de recomeço. A relação entre Tova e Marcellus comprova isto, um vínculo fora do comum que mexe com todos os sentidos. O polvo, observador e guardião de memórias, representa o inconsciente coletivo e a necessidade de enfrentar o passado, enquanto Tova é a resiliência diante da perda (mas que nunca desmorona, procurando até o fim encontrar o filho sumido). Sally Field brilha em todos os minutos que aparece, trazendo humanidade para aquele papel delicado, comovente, que há tempos não mexia comigo no cinema. Filho de Bill Pullman e ator de “Top gun: Maverick”, Lewis Pullman também entrega um bom papel, ao lado do ator veterano que está super afiado, num de seus melhores trabalhos, o irlandês Colm Meaney (que faz o dono do mercadinho local, apaixonado por Tova). Um filme para mexer com nosso íntimo.
 

 
Uma infância alemã
 
Não me pegou o novo filme de Fatih Akin, cineasta alemão de origem turca, que estreou na última semana nos cinemas pela Imovision. Prefiro o diretor com sua mão firme para contar histórias amargas e violentas do que em dramas superficiais e arrastados, como é caso dessa obra biográfica, que mais parece uma fac-símile simplória dos cult movies iranianos dos anos 90. A narrativa enxuta trata dos últimos dias da Segunda Guerra Mundial na vida de uma família adepta ao nazismo. Tudo é pelos olhos de um garoto daquela casa, Nanning, vivido por Jasper Billerbeck. Ele é filho de um oficial nazista, que se refugia com a mãe e o irmão na ilha de Amrum, após a destruição da casa em Hamburgo. O contexto é a morte de Hitler, em abril de 1945, que colocaria dias contados para o desmoronamento da guerra. O tempo inteiro é uma jornada de lá para cá desse menino tentando conseguir ingredientes para fazer um pão para a mãe doente (daí a ideia de um filme iraniano, muitos deles com jornadas infantis pela cidade, e esse aqui também lembra, mas feito com menos paixão, o recente “O bolo do presidente”). O filme nasceu das memórias de infância de Hark Bohm (1939-2025), roteirista e colaborador de Akin, que cresceu em Amrum, ilha reclusa no Mar do Norte, no extremo norte da Alemanha, cuja maré traiçoeira inunda as praias em minutos. Bohm planejava dirigir a obra, mas após sua morte, Akin assumiu o projeto como homenagem póstuma, mantendo o roteiro original – Bohm aparece numa pontinha, segundos antes dos créditos. Essa ligação pessoal dá ao longa um tom íntimo, mesmo dentro de um contexto histórico amplo e pouco aprofundado. Exibido no Festival de Cannes, não é de todo ruim, poderá agradar uma parcela do público, mas quem conhece o cinema de Akin, sente que ele não está do jeito que costuma: visceral, tenso, sombrio, como nos impactantes “The cut” (2014), “Em pedaços” (017) e “O bar da luva dourada” (2019), filmes autorais que o levaram a um patamar acima de sua carreira.
 

 
Um triste e belo mundo
 
Rodada em Beirute, a coprodução Líbano, Alemanha, Estados Unidos, Arábia Saudita e Catar é um singelo drama, para todos os públicos (de classificação indicativa de 14 anos), sobre o encontro e depois a separação que marcam a vida de dois personagens em 30 anos na capital e maior cidade libanesa. Nino é um rapaz sonhador, completamente oposto de Yasmina, uma garota de visão realista do mundo. Eles nasceram com diferença de minutos no mesmo hospital de Beirute, em meio às tensões político-religiosas que atravessavam o país. O Líbano vivenciava uma mistura de divisões religiosas, guerras civis e externas e corrupção desde os anos 1950, que criou um sistema fragilizado, com forte crise econômica e a presença de milhões de refugiados que deixaram metade da população na pobreza. Nesse triste mundo, Nino e Yasmina se encontram depois de anos e podem ali se apaixonar, mas algo irá os separar, até um possível reencontro no futuro. O roteiro sobre chegadas e partidas marcada pela memória coletiva de um país em constante transformação é o mote do delicado filme de drama/romance com doses tênues de humor e nítida crítica social, que evita melodramas e exageros nas performances.  A fotografia é um encanto, com paletas multicromáticas que alternam entre tons frios, que evocam a dor, e cores quentes, que iluminam momentos de esperança dos protagonistas. Cada enquadramento é pensado como uma pintura, revelando poesia nos espaços urbanos e nas paisagens naturais. Primeiro longa de ficção do libanês Cyril Aris, que assina o roteiro ao lado de Bane Fakih, a obra é narrada com energia visual vibrante, percorrendo o Líbano em diferentes épocas. O diretor traz muito de si e do lugar onde mora, falando de memória, dor, distância e possíveis reencontros da vida. No Festival de Veneza de 2025 conquistou o prêmio do público na Jornada dos Autores e foi o título do Libano selecionado como a indicação oficial do país ao Oscar desse ano. Agora é hora de vê-lo na tela grande: o filme estreou na última semana em cinemas selecionados, com distribuição da Pandora Filmes.

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