Queda livre: A tragédia do Caso Boeing
sexta-feira, 18 de setembro de 2026
Resenha especial
Queda livre: A tragédia do Caso Boeing
quinta-feira, 17 de setembro de 2026
Estreias da semana – Nos cinemas e streamings – Parte 2
Os trapaceiros de Garibaldi
Renomada diretora, roteirista e produtora de cinema espanhola, que faz filmes também na França, EUA e Itália, Isabel Coixet já realizou mais de 40 longas, dentre eles "Minha vida sem mim" e "A vida secreta das palavras". Este seu último trabalho, “Três vezes adeus”, estreou no Brasil no 8½ Festa do Cinema Italiano, em julho, e hoje entra no circuito brasileiro de cinema, distribuído pela Autoral Filmes. Longa autoral da diretora, como boa parte de suas obras, a coprodução Itália/Espanha tem roteiro assinado por ela junto a Enrico Audenino, adaptado do livro semi-autobiográfico “O sentido da náusea”, da escritora e ativista italiana Michela Murgia (1972-2023). É a vida de um casal que está a ponto de se separar, Marta (Alba Rohrwacher, de “As maravilhas”, irmã da diretora Alice Rohrwacher) e Antônio (Elio Germano, de “A vida solitária de Antonio Ligabue”). De um tempo para cá as discussões entre eles foram banais, relativamente pequenas, mas colaboraram para o cansaço da relação e o consequente término. Após a separação, Marta, uma professora de educação física, isola-se do mundo, sente-se para baixo, com falta de apetite, enquanto ele, um chefe de cozinha, segue com tudo no trabalho. Antônio começa a sentir falta de Marta. Ela então tem fortes dores de estômago, parece que sua saúde não anda bem – e logo descobre uma gravíssima doença. Coixet, como em “Minha vida sem mim” (2003), retorna ao tema da morte e do isolamento feminino, explorando aqui dois assuntos pessoais para ela: gastronomia e música. Tudo é trabalhado como oposições/antíteses na figura do casal: ela perde a fome, enquanto o marido ganha dinheiro com comida; ela se isola, enquanto ele vive intensamente – o que demonstra a dor maior da mulher na separação. Melancólico, faz uma meditação sobre o fim do casamento e da brevidade da vida, sem cair em melodramas. Coixet é uma diretora talentosa, veterana, que faz filmes variados, e mais uma vez coloca no currículo um bom trabalho de atores. O filme teve exibições nos festivais de Toronto e do Rio.
A Rebelião dos Jangadeiros
terça-feira, 15 de setembro de 2026
Estreias da semana - Nos cinemas - Parte 1
A quinta portuguesa
quarta-feira, 9 de setembro de 2026
Resenhas especiais
Heróis de barro
* Textos publicados na coluna Middia Cinema, na revista Middia (de Catanduva-SP), edição de Agosto/Setembro de 2026
terça-feira, 8 de setembro de 2026
Especial de Cinema
Festival ‘In-Edit Brasil’ retorna em duas edições itinerantes
Na edição de 2026 estiveram na programação 64 filmes nacionais e internacionais, como longas e curtas-metragens, além de shows, exposições, feira de vinil e livros, encontros e bate-papos com convidados especiais. E uma parte desses filmes voltarão agora nos eventos acima mencionados.
O In-Edit Brasil é uma
realização da In Brasil Cultural, do Ministério da Cultura (via Lei Rouanet),
do Governo do Estado de São Paulo, através da Secretaria da Cultura, Economia e
Indústria Criativas, e do Sesc São Paulo, e conta com patrocínio do Itaú Unibanco
e da Spcine, além da parceria com a Cinemateca Brasileira. O festival foi
criado em Barcelona, na Espanha, em 2003, e é realizado no Brasil desde 2009.
Paralelamente ocorrem edições do In-Edit em cinco países: Espanha, Chile,
Países Baixos, Grécia e México, além de, no Brasil, contar com mostras
itinerantes em cidades do interior de São Paulo, como Piracicaba e São Luiz do
Paraitinga. Conheça mais sobre o Festival In-Edit Brasil no instagram https://www.instagram.com/ineditbrasil/ e no site oficial https://br.in-edit.org
Confira três documentários brasileiros que retornam para a itinerância, que assisti na edição de 2026 do festival e indico:
Nem tudo é paz e amor
Documentário
brasileiro que retorna para a itinerância do festival ao mesmo tempo em que
estreia nos principais cinemas pela Pandora Filmes. O filme é uma conversa com
os filhos dos músicos da Contracultura no Brasil, reunindo entrevistas inéditas
com os primogênitos
de oito deles: Caetano Veloso (Moreno Veloso), Rita Lee (Beto Lee), Baby
Consuelo (Sarah Sheeva), Paulinho Boca de Cantor (Maria "Buchinha"),
Itamar Assumpção (Anelis), Moraes Moreira (Cecília), Gilberto Gil (Nara Gil) e
Rogério Duarte (Areia Duarte). Com momentos de descontração, mas também de
lembranças pesadas e de sofrimento, o doc é um recorte da contracultura na
música e no cinema no Brasil, em que os entrevistados recordam dos traumas e das
delícias de viverem aquele tumultuado período. Ainda crianças na virada dos
anos 60 para 70, os entrevistados cresceram e se formaram sob a influência
direta dos movimentos de contestação comportamental, artística e política do
período, uma geração de homens e mulheres criados em comunas, acampamentos e
núcleos alternativos e hippies que questionavam as estruturas tradicionais da
família e o autoritarismo da época (o Brasil viva sob os desmandos da Ditadura
Militar). Há cenas antigas de filmes caseiros em super-8, cenas de shows e
bastidores, trechos de filmes que marcaram aqueles anos, como “A mulher de todos”,
“Deus e o diabo na Terra do Sol” e “A idade da Terra”, e muitas fotos pessoais
dos acervos dos referidos cantores, cantoras e compositores, reunindo ainda
depoimentos de Helena Ignez, Baby do Brasil, Marilia de Aguiar e Paulinho Boca de
Cantor (estes dois pais do diretor do filme, Betão Aguiar). O filme foi
dedicado à memória da produtora Jasmin Pinho, também filha da contracultura,
que iniciou o projeto do documentário, mas faleceu em 2020 - ela era amiga pessoal
de Betão, o diretor, então o filme ficou para ele dar continuidade. Um grande
documentário em exibição no In-edit e nas salas de cinema.
Confira três documentários brasileiros que retornam para a itinerância, que assisti na edição de 2026 do festival e indico:
sábado, 5 de setembro de 2026
Estreias da semana – Nos cinemas e streamings – Parte 2
O delator
Gonzaguinha
– Da maior liberdade
Vencedor do prêmio de melhor documentário no Festival de Gramado (que acabou no mês passado, em agosto), o doc é uma homenagem ao compositor e cantor Gonzaguinha, no ano em que se lembra os 35 anos de seu falecimento (ocorrido em 1991). É um filme grandioso em todos os aspectos, a começar pela figura retratada, do formato da obra – composto por múltiplas linguagens, e do teor crítico de seu tema. Um ator (André Dale) interpreta Gonzaguinha numa mesa, como se estivesse em uma entrevista, citando trechos de depoimentos dele concedidos em revistas e jornais nos anos 70 e 80; junto dessa interpretação/simulação, cenas de shows de Gonzaguinha, com entrevistas reais dele, são costuradas, trazendo o cantor no palco, no estúdio, além dele se posicionando contra a ditadura e dentro dos movimentos das Diretas Já. Títulos de suas músicas são os capítulos do filme, como “Galope”, “Explode coração” e “Eu apenas queria que você soubesse”, que tratam das fases do genial artista que foi – uma fase mais romântica, outra de bolero, outra de críticas sociais batendo de frente com a ditadura militar e sendo censurado por isso. Nos trechos mais impactantes do longa, Gonzaguinha (que no início da carreira lançou os primeiros LPs como Luiz Gonzaga Jr.) relembra também o frisson da abertura política e o atentado a bomba no Riocentro (durante um show dele, e depois revelado um ato frustrado dos próprios militares, matando um sargento do Exército e ferindo um capitão). Gonzaguinha fala da família, da influência do pai, o Gonzagão, e das diferenças que ambos tinham (depois, no final de carreira, a reaproximação dos dois incluindo turnês juntos), fala de seu engajamento político, do brilho de viver intensamente cada minuto. Acusado de subversivo, teve letras cortadas e proibidas no regime militar, apontado como uma ameaçada à sociedade (assim como tantos músicos da época, como Chico Buarque, burlou a censura com metáforas e ironias nas composições). Também foi alvo dos militares por defender a democracia e o fim da fome, conscientizando seu público em prol dos direitos humanos e lutando contra a desigualdade social. Muitas de suas músicas trataram de dois temas em especial: a dor do amor, na primeira fase, e na segunda fase a valorização dos trabalhadores, das lutas sociais contra a opressão e em defesa dos marginalizados. Gonzaguinha foi um artista completo, sonhador, que buscava um mundo mais justo, e como tantos de sua geração partiu cedo (de acidente de carro, aos 45 anos). O título do documentário faz referência à música “Da maior liberdade (Do meu jeito)”, que está num dos discos essenciais dele, “De volta ao começo” (1980). Um filmaço que trata de memória e resistência, especial para quem curte Gonzaguinha e MPB (como eu) e que busca entender mais o Brasil da ditadura. Dirigido pela cineasta e documentarista Susanna Lira, que já biografou para o cinema artistas célebres, de documentários como “Mussum, um filme do Cacildis” (2017), “Clara Estrela” (2017 – sobre Clara Nunes), “Torre das donzelas” (2018 – sobre mulheres presas na ditadura) e “Fernanda Young: Foge-me ao controle” (2024). Nos principais cinema com distribuição da Synapse Distribution.
sexta-feira, 4 de setembro de 2026
Estreias da semana – Nos cinemas e streamings – Parte 1
Queda livre: As consequências do Caso Boeing
Song
Sung Blue – Um sonho a dois
Drama
musical que mistura realidade e ficção para retratar a vida do casal de músicos
de Milwaukee, Wisconsin (EUA), Mike Sardina (1951-2006) e Claire Sardina
(1961-), que percorreram os Estados Unidos com turnês de tributo a Neil Diamond
e utilizavam o nome artístico de “Lightning & Thunder”. A dupla começou no
fim dos anos 80, em palcos pequenos da região de Milwaukee, e com o passar do
tempo gravaram música em estúdio, participaram de festivais grandes e até
abriram um show de Pearl Jam, a convite do próprio Eddie Vedder – tudo isso
retratado nessa formidável cinebiografia. O longa é baseado no documentário
homônimo de Greg Kohs, “Song Sung Blue” (2008), e traz como destaque o bom trabalho
dos atores centrais, Hugh Jackman e Kate Hudson (indicada, pelo papel, aos
principais prêmios da temporada, como Bafta, Oscar e Globo de Ouro). A história
segue os altos e baixos da formação musical desses dois artistas, mostrando a
dificuldade em trilhar o caminho na carreira independente, além de trazer os
dramas pessoais do casal (ele dependente do álcool e atormentado pela Guerra do
Vietnã, onde lutou, e ela o apoiando como esposa, companheira e artista).
Enquanto Lightning tinha a voz potente interpretando canções de Diamond,
Thunder fazia back vocal dele e também alternava os shows com música country de
Patsy Cline. O diretor Craig Brewer, de “Ritmo de um sonho” (2005), condensa
anos de acontecimentos da carreira da dupla em uma linha temporal curta, mas
precisa, intensificando os conflitos e emoções. Com uma fotografia de cores
vivas e vibrantes, "Song Sung Blue" é uma celebração à música de Neil
Diamond, tratando de superação, resistência e desprendimento, ao mesmo tempo em
que expõe a vulnerabilidade humana diante das adversidades. Na trilha sonora,
um passeio musical em obras máximas de Diamond, como “Sweet Caroline”, “I am...
I said” e “Holly Holy”. Estreou recentemente no Prime Video (com distribuição
no Brasil pela Universal Pictures).
Anistia 79
Alusivo documentário brasileiro aos 47 anos da Lei da Anistia, decretado em 1979, em um período crítico da Ditadura Militar no Brasil. O longa traz os primeiros movimentos no exterior para a anistia (que ficou ampla, geral e irrestrita), quando no Parlamento Italiano, em Roma, entre junho e julho de 1979, foi realizada a Conferência Internacional pela Anistia e pelas Liberdades Democráticas no Brasil. O encontro, de três dias, juntou cerca de 500 pessoas, incluindo exilados políticos, intelectuais, ativistas de direitos humanos e figuras da resistência à ditadura militar (como Apolônio de Carvalho, Gregório Bezerra e Francisco Julião). A Conferência foi a maior reunião da diáspora brasileira fora do país durante a Ditadura (que continuava aqui exilando, perseguindo e matando). O trunfo ideativo do filme é reunir gravações inéditas, todas com imagem restaurada, que foram feitas no Congresso por um militante de esquerda exilado na França, Hamilton Lopes dos Santos. Praticamente o filme todo é um compilado dessas imagens poderosas, em preto-e-branco, encontradas pela diretora do filme, Anita Leandro, no acervo da Universidade de Nanterre, nos arredores de Paris, e analisadas por pessoas que sentiram na pele a Ditadura, como familiares, e amigos íntimos dos retratados naquela reunião. Aparecem nas gravações Francisco Julião (das Ligas Camponesas), Apolonio de Carvalho, Carmela Pezzuti, Manuel da Conceição, Rolando Frati, Luís Travassos e Márcio Moreira Alves, parte desses exilados. Quase meio século depois, as gravações ressurgem para reacender o debate sobre as tristes páginas da História do país, do Estado repressivo da ditadura e da impunidade dos torturadores, trazendo paralelos com o Brasil atual (já que o golpismo e os afãs ditatoriais ainda rondam por aqui). No filme, 11 pessoas assistem pela primeira vez, depois de tanto tempo, àquelas imagens, e emocionadas relembram a História e seus personagens. A Conferência ocorreu às vésperas da sanção da Lei da Anistia no Brasil (Lei nº 6.683, de agosto de 1979), planejada para debater pontos limitantes dela – e serviu para denunciar os crimes e as torturas da ditadura militar brasileira perante a opinião pública mundial e o parlamento europeu. Acabou sancionada pelo presidente João Figueiredo em 28 de agosto daquele ano, sendo um marco no processo de redemocratização do Brasil. Deu perdão tanto aos opositores do regime quanto aos agentes do Estado (torturadores e militares) - por isso ampla, geral e irrestrita. As consequências diretas da Lei foram o retorno dos exilados (como líderes políticos, intelectuais e artistas), a libertação de presos políticos detidos nos presídios brasileiros e a reorganização política, permitindo a partir de 1980 a volta do pluripartidarismo, a restituição dos direitos políticos a cidadãos que haviam sido cassados pelo regime e as eleições diretas. É um filme-estudo de História, didático, importante para os dias de hoje. Foi premiado na Mostra de Cinema de Tiradentes, onde recebeu os prêmios de Melhor Filme da competição Olhos Livres e do Júri Popular. Nos cinemas pela Embaúba Filmes.
quarta-feira, 2 de setembro de 2026
Nota de cinema
Saiu hoje entrevista que concedi essa semana na TV Câmara (da Câmara Municipal de Catanduva) no quadro "Aqui nasci, aqui cheguei", onde falo sobre minha carreira no jornalismo e na crítica de cinema. São 30 minutos de conversa com a querida amiga Bida Paulatti.
Link para quem quiser assistir:
https://youtu.be/GtYr1PD2nuM?is=Qz1UaEdq9RfnI7O_
terça-feira, 1 de setembro de 2026
Especial de cinema
37º Kinoforum continua até o dia 06 em formato online
Os vencedores da premiação oficial foram anunciados na última semana na Cinemateca Brasileira, consagrando produções como o curta paraibano “Imagem imaginada” (vencedor do inédito Prêmio Zita Carvalhosa) e o drama “Theo” (adquirido pela TV Cultura).
Alguns destaques internacionais votados pelo público como melhores filmes da edição desse ano: “Para os Oponentes” (México, Chile, França e Reino Unido, premiado em Cannes), de Federico Luis; “Meu Irmão Lyosha e Eu” (Cazaquistão), de Lena Tronina; “Nascida Soldado” (França), de Sahara Moeini”; “O Último Jogo” (Cuba), de Daniel Chile; “Por Favor” (Suécia), de Anna Mantzaris; “Ruído das Ondas” (Polônia), de Tomasz Wrobel”; e “Vida que Segue” (Reino Unido), de Daniel Audritt e Kathryn Butterfield. Já os destaques brasileiros incluem “Adrenalina”, de Pedro Goifman; “Miguer”, Rodrigo Ribeiro; “A Ascensão da Cigarra”, de Ana Clara Ribeiro Lages; “A Cúpula dos Prazeres”, de Valter Pereira; e “A Menina que Queria Ser Pedra”, de Jackson Abacatu.
O Kinoforum é uma realização da Associação Cultural Kinoforum (entidade sem fins lucrativos responsável direta pela organização e produção geral do evento), liderado pela diretora executiva Vânia Silva e pelo diretor de programas Marcio Miranda Perez. Conta com as seguintes instituições parceiras: Cinemateca Brasileira, Museu da Imagem e do Som (MIS-SP) e Sesc São Paulo, e é viabilizado por meio de investimentos públicos e privados, destacando-se Itaú Unibanco, Spcine e Prefeitura de São Paulo, com apoio institucional e fomento do Governo do Estado de São Paulo, através do Programa de Ação Cultural (ProAC) da Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas, e do Governo Federal, através do Ministério da Cultura, por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura (Lei Rouanet). Site oficial do evento: https://2026.kinoforum.org
domingo, 30 de agosto de 2026
Resenha especial
Também estrelado por Costner, o épico drama de faroeste ultrapassou os limites da narrativa convencional se consolidando como um marco cultural dentro do cinema. A história está dentro do contexto real da Guerra Civil americana, travada entre 1861 e 1865, período em que os Estados Unidos se dividiram entre norte e sul, com guerras de território e exploração das terras indígenas. O longa acompanha o tenente John Dunbar (Kevin Costner), um oficial da União, representante dos estados do Norte que buscava manter o país unido e impedir a separação dos estados do sul. Após um ato de bravura em combate, ele é enviado para um posto na fronteira oeste dos Estados Unidos. Dunbar se afasta da guerra entre “brancos” para mergulhar em um universo desconhecido, as inóspitas terras dos indígenas Sioux, que transformará sua visão de mundo. Sozinho no posto que fica ao lado de uma casa antiga que será sua residência, fica próximo de um lobo selvagem, que o visita todas as manhãs, e será observado por um grupo de Sioux. Até que ele os encontra frente a frente, desenvolvendo um forte laço com os indígenas, que passarão a ser alvo do Exército. O enredo se desenvolve na relação de Dunbar com os Sioux, uma das maiores nações indígenas das Grandes Planícies. Inicialmente, há desconfiança e distância entre ele e o grupo, mas o oficial conquista gradualmente a confiança da tribo, aprendendo sua língua, seus costumes e sua espiritualidade. Por causa da aproximação de Dunbar com aquele lobo selvagem que o visita, os Sioux o apelidam de “Dança com lobos”, como símbolo da metamorfose espiritual do homem branco com o animal.
O filme retrata os Sioux com dignidade, de um povo guardião de uma tradição oral rica, de uma espiritualidade profunda e de uma organização comunitária que valorizava o coletivo acima do individual. Costner mostra a organização social deles, dos ritos, da lealdade ao grupo, da importância dos búfalos naquela cultura e na ligação íntima com a natureza. Historicamente, os Sioux habitavam vastas regiões que hoje correspondem a estados como Minnesota, Montana, Dakota do Norte, Dakota do Sul e Nebraska (estes dois estados, com riachos e descampados abertos, serviram de locações para a gravação do filme). Eram povos nômades, adaptados ao ambiente das planícies, e sua sobrevivência estava diretamente ligada ao equilíbrio ecológico da região. Entretanto, a história dos Sioux é marcada pela tragédia da colonização: com o avanço da fronteira e a política expansionista dos EUA, foram dizimados, vítimas de massacres, deslocamentos forçados e da destruição de seu modo de vida. Ao trazer essa realidade para a tela, “Dança com lobos” não apenas narra a amizade improvável entre um soldado branco e uma tribo indígena, mas também denuncia a devastação cultural e humana provocada pela conquista do Oeste.
O impacto do filme foi extraordinário: em uma época em que Hollywood deixava de retratar os indígenas como vilões ou figuras secundárias, Costner oferecia uma visão humanizada e crítica da relação de colonizador e colonizado. O longa se tornou um fenômeno cultural, abrindo espaço para debates sobre memória histórica e representação. Vencedor de um prêmio especial na Berlinale, onde concorreu ao Urso de Ouro, o filme foi indicado a 12 Oscars, recebendo sete: melhor filme, direção, trilha sonora, roteiro adaptado, edição, som e fotografia – e parte do elenco foi indicado, no caso Costner, Graham Greene (no papel do líder Sioux que se torna amigo do oficial) e Mary McDonnell (interpretando uma mulher branca criada por indígenas desde pequena e que se apaixona por Dunbar). A parte técnica é impecável, realçada agora na cópia restaurada em 4K: fotografia grandiosa (que captura a vastidão das planícies americanas), trilha sonora emotiva e lindos figurinos de época, que elevam a história que equilibra ação, romance e drama.
Foi o primeiro trabalho de Costner na direção, que na época, aos 35 anos, já era um galã, com filmes importantes no currículo como ator. Também foi a primeira investida dele no universo western, desconstruindo o mito americano do Velho Oeste. É um filme revisionista, feito sob uma ótica crítica em torno do choque entre civilização e natureza, entre progresso e tradição. O Oeste, para Costner, não é apenas cenário, mas metáfora de transformação e conflito cultural - e que mais tarde ele voltaria ao tema como diretor, em filmes como “Pacto de justiça” (2003) e na recente trilogia “Horizon: Uma saga americana” (2024-2026). Sem contar o interesse em protagonizar filmes que se passavam no oeste, como “Silverado”, “Wyatt Earp” e no seriado “Yellowstone”.
“Dança com lobos” sai agora em edição estendida em bluray, pela primeira vez no Brasil, com distribuição da Obras-primas do Cinema – a versão de cinema tinha 181 minutos, e esta apresenta 53 minutos a mais, totalizando 234 minutos. Vem junto na caixa um pôster do filme, quatro cards e um livreto de 16 páginas. O box traz o filme em bluray, em 4K, e um DVD com mais de duas horas de extras, como making of, trailers e entrevistas.
quarta-feira, 26 de agosto de 2026
Nota de cinema
Cine Debate exibe sábado animação premiada francesa
31/10 – 14h – “Nosferatu” (2024)
28/11 – 14h – “A cor púrpura” (2023)
05/12 – 14h – “Sete oportunidades” (1925)
https://www.facebook.com/cinedebateimes
quinta-feira, 20 de agosto de 2026
Estreias da semana – Nos cinemas – Parte 1
Amelia Toledo – Lembrar de não esquecer
Documentário brasileiro de Hélio Goldsztejn que, pra mim, foi um dos melhores lançados em festivais de cinema em 2025 (o assisti na Mostra de SP). A obra joga luzes sobre a carreira da artista plástica e escultora Amelia Toledo (1926-2017), uma artista inquieta, que esteve à frente de seu tempo com seu ousado trabalho, considerado por alguns controverso, que reunia elementos da land art e do ready made com ecologia e sustentabilidade, recorrendo a linguagens e estilos variados, como instalações, intervenções, arte interativa e arquitetura moderna. Amélia inovou o ‘fazer artístico’ com materiais como pedras, metal e conchas; foi professora no Mackenzie, na FAAP e na UnB, formando um grupo de alunos pensadores em torno da nova arte que se ergueria no Brasil a partir dos anos 60. O doc reúne entrevistas antigas e recentes dela para emissoras de TV, de depoimentos dos filhos, dentre eles o pintor Moacyr Toledo, e de amigos artistas. É um compilado de histórias fabulosas em que conhecemos a fundo a alma dessa mulher sonhadora e autêntica, que transformou sua casa em ponto de encontro de intelectuais e bateu de frente, como muitos de sua geração, com a Ditadura Militar. O longa estreia hoje nos principais cinemas brasileiros, com distribuição da Bretz Filmes.
Coração partido
Produção russa, com equipe praticamente toda de lá (como direção e elenco), o filme romântico é uma adaptação do best-seller “Your heart will be broken”, de Anna Jane. É um drama juvenil morno, piegas, sobre uma adolescente, Polina, que se muda para outra cidade após a mãe iniciar um novo relacionamento. No colégio (o filme quase todo se passa nesse mesmo ambiente), ela se torna alvo de bullying - até que o jovem misterioso Bars, aluno temido, decide protegê-la fingindo ser seu namorado. O que começa como um namoro de fachada evolui aos poucos para um amor genuíno, porém de altos e baixos, marcado por vulnerabilidade e amadurecimento. No livro e no filme exploram-se dilemas da juventude, conflitos, ciúmes, questões afetivas e desarranjos no romance, para manter o público envolvido na evolução daquela relação. Para mim não funcionou, não me envolveu e achei tudo forçado, sem harmonia. O elenco é liderado pela russa Veronika Zhuravleva (Polina) e pelo inglês Daniel Vegas (Bars), um casal sem química, que faz das tripas coração para agradar os jovens românticos que estão na poltrona dos cinemas. Estreou nas salas brasileiras com distribuição da Paris Filmes.
quinta-feira, 13 de agosto de 2026
Estreias da semana – Nos cinemas – Parte 2
Honestino
Conhecido
por tratar da questão indígena em seus dois trabalhos anteriores, “O cineasta
da selva” (1997) e “Segredos do Putumayo” (2020), o diretor amazonense Aurélio
Michiles se volta agora à Ditadura Militar no Brasil, trazendo para a tela a
biografia do líder estudantil Honestino Guimarães, o Gui, um dos tantos
desaparecidos políticos no cruel período dos Anos de Chumbo. Fundindo documentário
e ficção, o longa reúne imagens inéditas de Gui, aluno da Universidade de
Brasília – UnB e presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE) no final dos
anos 60. Preso diversas ocasiões por criticar e enfrentar os militares,
desapareceu em 1973, aos 26 anos. Nunca mais se ouviu falar no estudante. O
filme vasculha vestígios da época, de arquivos de fotos da família e de pessoas
que conviveram com ele; entrevista a filha e o neto de Gui, colegas de turma da
faculdade e da luta contra a Ditadura. O filme vai exibindo pouco a pouco a
personalidade forte e sempre carismática de Honestino e sua visão de um mundo
mais justo. Cartas, poemas, fotos dele são abundantes no filme, bem como
depoimentos de dezenas de pessoas próximas – Aurélio Michiles, o diretor, foi
colega de luta dele, da chamada Geração de 68. As encenações de Gui são de
Bruno Gagliasso, em poucas aparições, já que o tom do filme é mais documental.
Uma obra densa, que reflete a luta de tantos por um país livre da repressão.
Assisti ao filme numa sessão no Festival do Rio com a presença da equipe e
familiares, e em seguido o longa foi para a Mostra Internacional de Cinema de
SP. Agora estreia nos cinemas brasileiros, com distribuição da Pandora Filmes.
Aquele que viu o abismo
Dirigido por uma dupla de artistas visuais brasileiros (Gregorio Gananian e Negro Leo) o filme experimental que estreou recentemente nas salas é uma obra que mistura linguagens e desafia os limites do cinema brasileiro contemporâneo. Vencedor do prêmio de Melhor Filme na Mostra Olhos Livres da 27ª Mostra de Cinema de Tiradentes (edição de 2024), é um experimento audiovisual que rompe com as convenções e narrativas da Sétima Arte, fundindo música, performance, fotografia, animação e imagens aleatórias, tornando o longa uma obra ousada, diferenciada no formato. O roteiro acompanha X (interpretado por Negro Leo), um homem que se envolve em uma série de assassinatos. Ele tem visões deturpadas, que servem como forma de sobrevivência em um sistema opressor. A empresa multinacional ProLife, que promete vida eterna em troca da submissão dos civis, surge em sua vida, colocando-o em choque com suas crenças. O filme se passa em um futuro incerto, distópico obviamente, repleto de metáforas sobre estado policial, vigilância, mecanismos de controle e exploração do trabalhador. É um personagem só envolto em seu mundo próprio. A narrativa não é linear, as cenas são cortadas de um lugar a outro (fornecendo uma experiência desafiadora ao público), e não há respostas fáceis. O mosaico de imagens e sons refletem a sociedade fragmentada em que vivemos hoje, com um personagem vagando numa linha tênue entre realidade e ficção – o filme explora bem os ambientes urbanos, com a arquitetura dos arranha-céus e luzes neon noturnas, como uma cidade futurista. Realizado pela Zaum Produtora em parceria com a Katásia Filmes, está nos principais cinemas do país com distribuição da Embaúba Filmes.
terça-feira, 11 de agosto de 2026
Estreias da semana – Nos cinemas e streamings – Parte 1
Insaciável
Ágon
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