sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Resenha especial

 
Queda livre: A tragédia do Caso Boeing
 
Documentário sobre a investigação do Caso Boeing, que envolveu dois acidentes aéreos da empresa ocorridos num curto espaço de tempo, de cinco meses, entre 2018 e 2019 - o primeiro na Indonésia e o segundo, na Etiópia, e juntos resultaram na morte de 346 pessoas.
 
Doc da Netflix na linha de investigação, realizado em 2022, que procura destrinchar o caso de dois acidentes aéreos da Boeing, com o mesmo modelo de avião, o 737 MAX. O primeiro desastre aéreo ocorreu em 29 de outubro de 2018, cuja aeronave caiu no mar de Java logo após decolar de Jacarta, na Indonésia, resultando na morte de 189 pessoas (entre passageiros e tripulantes); o segundo veio num curto espaço de tempo, menos de cinco meses depois, algo nunca visto na aviação mundial: na Etiópia, 157 pessoas morreram na queda de um Ethiopian Airlines (voo ET302), registrado em 10 de março de 2019, minutos após decolar da capital, Adis Abeba, com destino a Nairóbi, no Quênia. Cruzando os dados, investigadores contratados pela aviação observaram documentos que levaram a conclusões assustadoras, como reutilização de peças antigas em aviões modernos, além da falta de vistoria regular regida em lei. A partir de entrevistas com aviadores, jornalistas que cobriram o caso e familiares das vítimas (que viram seus entes queridos horas antes de morrer), o filme demonstra como a ganância transformou-se numa crise corporativa sem precedentes dentro de uma das marcas de aviões mais respeitadas do mundo, a Boeing, fundada nos EUA em 1916. O filme acompanha a investigação por trás do caso, o julgamento dos responsáveis e os protestos das famílias em busca de justiça, na frente do tribunal. Exibido no Festival de Sundance, o doc é assinado pela diretora Rory Kennedy, indicada ao Oscar pelo doc “Last days in Vietnam” (2014), com roteiro de Keven McAlester (também indicado pelo filme de Rory, “Vietnam”). Nesse ano Rory realizou a continuação, também para a Netflix, o filme, chamado “Queda livre: As consequências do Caso Boeing” (2026) – que se aprofunda no caso, agora partindo das denúncias de um chefe de operações da Boeing, John Barnett, sobre falhas técnicas de aeronaves que colocaram voos em risco, ocorridos entre 2000 e 2010. Assista a dobradinha dos doism recomendo!
 
Queda livre: A tragédia do Caso Boeing (Downfall: The case against Boeing). EUA, 2022, 89 minutos. Documentário. Colorido. Dirigido por Rory Kennedy. Distribuição: Netflix

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Estreias da semana – Nos cinemas e streamings – Parte 2


Os trapaceiros de Garibaldi
 
Drama histórico exibido no Festival de Rotterdam, escrito e dirigido pelo diretor Roberto Andó, um veterano cineasta que faz obras de arte ao mesmo tempo cult e moderno. Novamente trabalha com o nome mais importante da Itália do momento, premiado ano passado em Veneza, Toni Servillo – eles fizeram juntos pelo menos três longas que gosto muito, ‘Viva a liberdade’ (2013), ‘As confissões’ (2016) e ‘A estranha comédia da vida’ (2022). Nesta intrigante história real ocorrida nos anos finais do Risorgimento, a Unificação Italiana, Servillo interpreta o coronel siciliano Vincenzo Orsini, que liderou tropas para enfrentar o exército Bourbon, na campanha de 1860, de Giuseppe Garibaldi (papel aqui de Tommaso Ragno). Orsini e Garibaldi criam a Expedição dos Mil, na tentativa de conquistar Palermo; para tanto, organizam um mirabolante plano, de simular a retirada dos soldados para enganar os inimigos. Um filme de estratégias militares, que lembra uma partida de xadrez, onde cada movimento é decisivo. Apesar de poucos recursos, Andó realizou um filme diferenciado, de uma história esquecida e que se tornou emblemática para a Unificação da Itália na metade do século XIX. Bom figurino de época e diálogos auspiciosos impulsionam a trama de disputa de território e heroísmo. Exibido no 20º Festival de Cinema Italiano no Brasil, em 2025, com o título provisório e “A ilusão”, estreia hoje nas principais salas de cinema, com distribuição da Pandora Filmes.


 
Três vezes adeus
 
Renomada diretora, roteirista e produtora de cinema espanhola, que faz filmes também na França, EUA e Itália, Isabel Coixet já realizou mais de 40 longas, dentre eles "Minha vida sem mim" e "A vida secreta das palavras". Este seu último trabalho, “Três vezes adeus”, estreou no Brasil no 8½ Festa do Cinema Italiano, em julho, e hoje entra no circuito brasileiro de cinema, distribuído pela Autoral Filmes. Longa autoral da diretora, como boa parte de suas obras, a coprodução Itália/Espanha tem roteiro assinado por ela junto a Enrico Audenino, adaptado do livro semi-autobiográfico “O sentido da náusea”, da escritora e ativista italiana Michela Murgia (1972-2023). É a vida de um casal que está a ponto de se separar, Marta (Alba Rohrwacher, de “As maravilhas”, irmã da diretora Alice Rohrwacher) e Antônio (Elio Germano, de “A vida solitária de Antonio Ligabue”). De um tempo para cá as discussões entre eles foram banais, relativamente pequenas, mas colaboraram para o cansaço da relação e o consequente término. Após a separação, Marta, uma professora de educação física, isola-se do mundo, sente-se para baixo, com falta de apetite, enquanto ele, um chefe de cozinha, segue com tudo no trabalho. Antônio começa a sentir falta de Marta. Ela então tem fortes dores de estômago, parece que sua saúde não anda bem – e logo descobre uma gravíssima doença. Coixet, como em “Minha vida sem mim” (2003), retorna ao tema da morte e do isolamento feminino, explorando aqui dois assuntos pessoais para ela: gastronomia e música. Tudo é trabalhado como oposições/antíteses na figura do casal: ela perde a fome, enquanto o marido ganha dinheiro com comida; ela se isola, enquanto ele vive intensamente – o que demonstra a dor maior da mulher na separação. Melancólico, faz uma meditação sobre o fim do casamento e da brevidade da vida, sem cair em melodramas. Coixet é uma diretora talentosa, veterana, que faz filmes variados, e mais uma vez coloca no currículo um bom trabalho de atores. O filme teve exibições nos festivais de Toronto e do Rio.



A Rebelião dos Jangadeiros
 
Documentário independente produzido em 2025, com direção de Cinthia Medeiros e Demitri Túlio, e produção executiva de Íris Sodré (Gavulino Filmes), o filme é uma aula didática viva sobre a Rebelião dos Jangadeiros, conhecida historicamente como a Greve dos Jangadeiros, ocorrida em 1881 no Porto de Fortaleza, Ceará. O que se viu ali tornou-se um marco fundamental do movimento abolicionista no Brasil e uma preparação para a Abolição dos escravos, que viria anos depois. Liderada por Francisco José do Nascimento, o Chico da Matilde (apelidado de Dragão do Mar), a revolta ocorreu em janeiro de 1881 no Porto de Fortaleza, consistindo na recusa coletiva dos jangadeiros em transportar pessoas escravizadas para os navios negreiros que as transportaria para os mercados de café nas regiões Sul e Sudeste. Com o famoso lema de que "no porto do Ceará não se embarcam mais escravos", a rebelião paralisou o tráfico interprovincial na região, abrindo uma ampla discussão na sociedade brasileira daquele período. A mobilização popular foi decisiva para acelerar o fim da escravidão no Nordeste, fazendo com que o Ceará se tornasse o primeiro estado brasileiro a abolir a escravidão, em 27 de março de 1884, quatro anos antes da promulgação da Lei Áurea. O filme é repleto de depoimentos de historiadores, museólogos, antropólogos e ativistas sociais, sentados em uma sala olhando para a câmera, em que lembram curiosidades, dados históricos e fatos relevantes daquele movimento pioneiro, que rompia não só com trabalho forçado, mas de ideais racistas e de um sistema todo de controle dos corpos negros. O longa, de apenas 79 minutos, mistura aos depoimentos imagens (como desenhos da época e ilustrações de livros de História) e animações modernas. O filme está em exibição gratuita no streaming Sesc Digital até o dia 11/10 – em https://sesc.digital/home

terça-feira, 15 de setembro de 2026

Estreias da semana - Nos cinemas - Parte 1

 
A quinta portuguesa
 
Coprodução Portugal e Espanha, o drama protagonizado pela atriz portuguesa Maria de Medeiros (de “Pulp fiction”) foi rodado inteiramente em Madri, no ambiente metropolitano, e também em uma verdadeira quinta portuguesa (antiga propriedade rural que possui casa de habitação cercada por terras para a agricultura, jardins ou vinhedos). O filme de arte foi um dos últimos trabalhos do ator espanhol Manolo Solo, protagonista da trama ao lado de Maria (ele começou a carreira como músico no rock sevilhano, atuou em longas como “O labirinto do fauno” e faleceu há pouco mais de um mês, após longa batalha contra o câncer). Solo interpreta Fernando, um professor de Geografia em busca da esposa, que desapareceu. Ele não encontra mais forças na procura, está sem rumo, até que assume outra identidade: ele se muda de Madri para o interior de Portugal, para trabalhar como jardineiro em uma quinta. Lá conhece Amalia (Maria de Medeiros), uma dona de casa, e inicia com ela forte amizade, marcada por situações dramáticas e por um desafio, que é o de manter em sigilo a verdadeira identidade. Um filme de drama com romance sobre escolhas e identidade, que gira em torno de um personagem pacato que, após um baque, muda de vida radicalmente, a ponto de se transformar em outro cidadão. Paira no ar uma sensação de estranhamento a todo instante (já que Fernando “vira” uma nova pessoa), e a alteração de ambientes (a mudança dele da Madri atual para uma fazenda portuguesa arcaica, no interior do país) serve como metáfora dessa transformação. Os atores estão muito bem, e o filme tem fotografia bonita e adequada dos lugares. O longa passou em festivais internacionais como Festival de Málaga e Bafici, exibido no Festival do Rio e agora está nos cinemas, distribuído pela Kajá Filmes. Quem dirige é a cineasta Avelina Prat, também roteirista, que fez anteriormente “Vasil” (2022).
 

 
Não existe almoço grátis
 
Chega aos cinemas brasileiros, distribuído pela Descoloniza Filmes, o bom documentário independente que trata do trabalho de mulheres à frente do projeto “Cozinha Solidária”, criado pelo Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) e instituído por lei em 2023 no Brasil. Ele surgiu na pandemia da Covid-19 como uma resposta direta à fome que atingiu milhões de brasileiros, fornecendo alimentação gratuita e de qualidade a pessoas em situação de vulnerabilidade e risco social. A iniciativa consistiu em montar cozinhas comunitárias em diferentes regiões do país, oferecendo refeições gratuitas e de qualidade para esse grupo de pessoas. Além das refeições, o projeto, que ainda existe e virou símbolo da solidariedade em tempos de crise, busca fortalecer laços comunitários para garantir dignidade, funcionando com voluntários e doações. Um dos lugares de atuação foi a favela Sol Nascente, em Ceilândia, no Distrito Federal – e é nesse espaço que o filme busca a composição das imagens. Os cinegrafistas acompanharam a rotina de três mulheres negras, voluntárias e organizadoras da Cozinha Solidária, Bizza, Jurailde e Socorro, durante semanas, para mostrar os bastidores e o trabalho delas. O recorte da história é a posse do presidente Lula, e elas estão encarregadas de cozinhar para centenas de militantes do movimento que chegarão a Brasília para assistir à cerimônia de posse do presidente, no dia 1º de janeiro de 2023. Conhecemos a trajetória e os sonhos dessas três lideranças, além de questões essenciais para elas, como a luta política, o trabalho voluntário de igual para igual, a religião, a ancestralidade e a família. Sol Nascente é considerada a maior favela do Brasil em número de habitantes (70 mil ao todo), localizada a menos de 30 quilômetros da capital; durante a pandemia, verificou-se ali graves condições de saúde, fome, desemprego e falta de acesso a serviços básicos. Dirigido por Marcos Nepomuceno e Pedro Charbel, o filme esteve na programação de festivais como ForumdocBH, Festival de Brasília do Cinema Brasileiro (onde foi consagrado com o prêmio de Melhor Filme pelo Júri Popular e recebeu a Menção Honrosa do Júri Oficial), a Mostra Ecofalante (onde venceu o prêmio de Melhor Filme pelo Júri Popular), o Olhar de Cinema e o Festival de Cinema de Vitória.



Viva Marília
 
Fantástico documentário e uma das melhores estreias do cinema independente brasileiro desse ano, o filme é um merecido e honroso tributo à memória da atriz que foi a cara de uma geração e até hoje inspiradora para a classe artística, Marília Pêra (1943-2015). Atriz versátil (para o humor e o drama, seja nos palcos ou na TV), também diretora de peças teatrais e admirada pelos fãs, Marília teve uma trajetória que atravessou cinco décadas. Carioca, filha de atores (Manuel Pêra e Dinorah Marzullo), esteve ligada ao palco desde a infância, estreando aos quatro anos em uma companhia teatral. Nos anos 1960 e 1970, consolidou-se como uma das grandes atrizes do teatro brasileiro, destacando-se em peças como “O teu cabelo não nega” em que interpretou Carmen Miranda, e que ao longo da carreira voltaria a interpretar Carmen em teatro, TV e filmes. Além de atuar, dedicou-se à direção de espetáculos, especialmente musicais, como “Irma Vap” fazendo dessa peça um estrondo de bilheteria. Na TV, estreou em 1965 na novela “Rosinha do Sobrado” e logo se tornou presença marcante em produções da Rede Globo. Atuou em novelas como “O cafona”, “Brega & chique” e “Top model”, brilhou em minisséries como “O Primo Basílio”, onde deu vida à vilã Juliana, e no cinema participou de mais de 20 filmes, entre eles o impactante “Pixote – A lei do mais fraco” (1981), de Hector Babenco, que lhe trouxe reconhecimento internacional e reafirmou sua força dramática. A vida pessoal de Marília foi marcada por vários casamentos, entre eles com Nelson Motta e, mais tarde, com Bruno Faria, com quem permaneceu até o fim da vida. Teve três filhos, conciliando maternidade com uma carreira intensa e premiada – e o doc explora essa sua condição, de atrelar a dura vida de mãe à ebulição de ensaios e gravações. O doc mostra a partir de gravações de peças, entrevistas e cenas de filmes e novelas a formação dessa atriz ímpar, que virou ícone da cultura brasileira, abriu caminhos para as atrizes no mundo das artes cênicas e deixou um legado de amor ao palco. O veterano diretor Zelito Viana (irmão de Chico Anysio), de “Avaeté – Semente da vingança”, dirige a obra, que tem codireção de Esperança Motta, filha de Marilia com Nelson Motta – ela é a narradora também, e o roteiro é assinado pelo próprio Nelson. Está nos principais cinemas brasileiros, com distribuição da Mapa Filmes e codistribuição da Bretz Filmes.

quarta-feira, 9 de setembro de 2026

Resenhas especiais



Heróis de barro
 
Durante uma expedição ao México para capturar o líder revolucionário Pancho Villa, em 1916, o major do Exército Thomas Thorn (Gary Cooper) é incumbido de resgatar cinco soldados para serem condecorados com a maior honraria do Congresso americano. Ele terá de trazer o grupo a salvo até a base militar de Cordura. No caminho haverá conflitos e ataques na divisa dos dois países.
 
“Heróis de barro” é um dos tantos filmes adaptados da literatura do romancista Glendon Swarthout (que dedicou a carreira a livros de faroeste). Insere-se na linha do “western psicológico”, que foca na mente dos personagens deixando os tradicionais tiroteios em segundo plano - essas obras exploram a solidão e os medos dos pistoleiros e soldados em cenários áridos e arriscados. O pano de fundo do longa é a Expedição Punitiva (ou “Expedição Pancho Villa”), operação militar do Exército dos Estados Unidos no México entre 1916 e 1917 que levou para lá 10 mil soldados para capturar o líder revolucionário Pancho Villa, que tinha iniciado ao lado de Emiliano Zapata a Revolução Mexicana. O major vai com um pequeno grupo de pessoas a um lugar desconhecido, de terreno irregular, sob o sol escaldante. Entra em crise ao se ver cercado num ambiente hostil, e a missão começa a desmoronar. O filme prioriza o lado psicológico, mas tem cenas de bangue-bangue, duelos e pitadas de romance (a figura feminina é de Rita Hayworth, femme fatale do cinema, de filmes noir como “Gilda”). Gary Cooper, lenda do gênero western (de “Matar ou morrer”), entrega uma atuação madura, marcada pela introspecção, num de seus últimos trabalhos (seria seu penúltimo filme, já que morreria dois anos depois, em 1961). O filme questiona mitos do Oeste americano, mostrando que a glória militar pode ser tão frágil quanto a areia que cobre o deserto (por isso os heróis de barro). Quem dirige é Robert Rossen, cineasta e roteirista que durante o Macarthismo (o "caça às bruxas" anticomunista nos EUA) foi incluído na lista negra, impedido de trabalhar e convocado a depor no comitê do Congresso – depois de recusar a devassa contra colegas, cedeu à pressão em 1953 e entregou o nome de 57 pessoas. Acabou tendo dificuldades de voltar ao cinema, sendo “Heróis de barro” um dos poucos que ele fez depois do interrogatório – um de seus últimos trabalhos seria o mais famoso e simbólico a tudo o que enfrentou no “caça às bruxas”, “Desafio à corrupção” (1961), indicado a nove Oscars (incluindo ator para Paul Newman) e ganhador de dois. Em DVD pela Classicline.
 
Heróis de barro (They came to Cordura). EUA, 1959, 123 minutos. Faroeste. Colorido. Dirigido por Robert Rossen. Distribuição: Classicline
 
 
Sangue por sangue
 
Entre 1835 e 1836, na Guerra pela independência do Texas, um homem deixa o Forte Álamo para ajudar outras pessoas no conflito separatista entre EUA e México.
 
Diretor de 12 filmes faroeste, sendo sete com Randolph Scott, Budd Boetticher realizou aqui um de seus notórios trabalhos. Glenn Ford, lenda do cinema western, protagoniza, travando uma luta cruel no Texas, como um homem em uma missão quase impossível. Ação, honra e vingança envolvem o filme em torno da lenda do Álamo, antiga missão espanhola transformada em forte militar, situada na cidade de San Antonio, no estado do Texas (o local ficou famoso por causa da Batalha do Álamo, ocorrida em 1836, que se tornou um símbolo de resistência e sacrifício na luta pela independência do Texas em relação ao México). Ford interpreta John Stroud, um homem que abandona o famoso cerco para proteger sua família, e por isso acaba marcado como traidor. Ao retornar para as terras, descobre que seus entes foram mortos, e sua jornada passa a ser de busca por justiça. O filme traz todos os elementos típicos do faroeste: vastas paisagens texanas, emboscadas, cavalgadas e o embate entre colonos e forças mexicanas. E ainda trata de um fato real: na Revolução do Texas, os colonos americanos e tejanos (mexicanos que apoiavam o Texas) se rebelaram contra o governo centralizador de Santa Anna, pois queriam formar um governo próprio, sendo duramente reprimidos pelo general mexicano Antonio López de Santa Anna. “Sangue por sangue” é um faroeste de excelência, cheio de vigor e com personagens cercados por dilemas morais (que marcariam os filmes do diretor Budd Boetticher). Em DVD pela Classicline.
 
Sangue por sangue (The man from the Alamo). EUA, 1953, 79 minutos. Faroeste. Colorido. Dirigido por Budd Boetticher. Distribuição: Classicline

* Textos publicados na coluna Middia Cinema, na revista Middia (de Catanduva-SP), edição de Agosto/Setembro de 2026

terça-feira, 8 de setembro de 2026

Especial de Cinema


Festival ‘In-Edit Brasil’ retorna em duas edições itinerantes
 
O 18º “In-Edit Brasil – Festival Internacional do Documentário Musical”, realizado este ano de 17 a 28/06 na cidade de São Paulo e com programação online, retorna agora em duas edições itinerantes: na cidade de São Luiz do Paraitinga (localizado na região de Taubaté), entre os dias 04 e 07/09, e na Mostra “Música para os olhos”, em Salvador, entre os dias 01/09 e 08/10. As sessões são gratuitas.
Na edição de 2026 estiveram na programação 64 filmes nacionais e internacionais, como longas e curtas-metragens, além de shows, exposições, feira de vinil e livros, encontros e bate-papos com convidados especiais. E uma parte desses filmes voltarão agora nos eventos acima mencionados.


O In-Edit Brasil é uma realização da In Brasil Cultural, do Ministério da Cultura (via Lei Rouanet), do Governo do Estado de São Paulo, através da Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas, e do Sesc São Paulo, e conta com patrocínio do Itaú Unibanco e da Spcine, além da parceria com a Cinemateca Brasileira. O festival foi criado em Barcelona, na Espanha, em 2003, e é realizado no Brasil desde 2009. Paralelamente ocorrem edições do In-Edit em cinco países: Espanha, Chile, Países Baixos, Grécia e México, além de, no Brasil, contar com mostras itinerantes em cidades do interior de São Paulo, como Piracicaba e São Luiz do Paraitinga. Conheça mais sobre o Festival In-Edit Brasil no instagram https://www.instagram.com/ineditbrasil/ e no site oficial https://br.in-edit.org
Confira três documentários brasileiros que retornam para a itinerância, que assisti na edição de 2026 do festival e indico:
 
Nem tudo é paz e amor
 
Documentário brasileiro que retorna para a itinerância do festival ao mesmo tempo em que estreia nos principais cinemas pela Pandora Filmes. O filme é uma conversa com os filhos dos músicos da Contracultura no Brasil, reunindo entrevistas inéditas com os primogênitos de oito deles: Caetano Veloso (Moreno Veloso), Rita Lee (Beto Lee), Baby Consuelo (Sarah Sheeva), Paulinho Boca de Cantor (Maria "Buchinha"), Itamar Assumpção (Anelis), Moraes Moreira (Cecília), Gilberto Gil (Nara Gil) e Rogério Duarte (Areia Duarte). Com momentos de descontração, mas também de lembranças pesadas e de sofrimento, o doc é um recorte da contracultura na música e no cinema no Brasil, em que os entrevistados recordam dos traumas e das delícias de viverem aquele tumultuado período. Ainda crianças na virada dos anos 60 para 70, os entrevistados cresceram e se formaram sob a influência direta dos movimentos de contestação comportamental, artística e política do período, uma geração de homens e mulheres criados em comunas, acampamentos e núcleos alternativos e hippies que questionavam as estruturas tradicionais da família e o autoritarismo da época (o Brasil viva sob os desmandos da Ditadura Militar). Há cenas antigas de filmes caseiros em super-8, cenas de shows e bastidores, trechos de filmes que marcaram aqueles anos, como “A mulher de todos”, “Deus e o diabo na Terra do Sol” e “A idade da Terra”, e muitas fotos pessoais dos acervos dos referidos cantores, cantoras e compositores, reunindo ainda depoimentos de Helena Ignez, Baby do Brasil, Marilia de Aguiar e Paulinho Boca de Cantor (estes dois pais do diretor do filme, Betão Aguiar). O filme foi dedicado à memória da produtora Jasmin Pinho, também filha da contracultura, que iniciou o projeto do documentário, mas faleceu em 2020 - ela era amiga pessoal de Betão, o diretor, então o filme ficou para ele dar continuidade. Um grande documentário em exibição no In-edit e nas salas de cinema.

 
 
Universo circular – Jocy de Oliveira
 
Coprodução Brasil e Alemanha, o documentário de 2026 se concentra nos trabalhos de vanguarda da musicista Jocy de Oliveira, uma compositora e pianista paranaense de primeira qualidade - e, mesmo com bastante idade, permanece na ativa, aos 90 anos. Em sua casa, Jocy revisita sua história lembrando a carreira, da introdução da música eletrônica no país nos anos 60, aos estudos de piano com mestres mundiais, como José Kliass e Marguerite Long, além do trabalho e amizade com Igor Stravinsky e John Cage (com ele desenvolveu performances misturando corpo, música e piano). Artista inquieta e revolucionária, ela rompeu padrões abrindo caminhos para estéticas ousadas na música brasileira, em um período em que o Brasil era atravessado por diversas transformações no campo da política, do social e da cultura. Escrito e dirigido por Dácio Pinheiro, de “Lenita” (2023), o documentário foi exibido no IndieLisboa e depois entrou na programação do In-edit 2026.


 
Entre o sucesso e a lama
 
Documentário brasileiro de 2026 dirigido pelo premiado cineasta Cristiano Burlan, que acompanha 16 artistas reunidos para criar um álbum de rap inédito com a mentoria de nomes consagrados como Edi Rock (dos Racionais MC's) e Gaspar Z'África. O filme fica entre as gravações no estúdio e a realidade dos artistas na periferia onde moram (o diretor Cristiano Burlan,a pesar de gaúcho, cresceu na periferia da zona sul de SP, em Capão Redondo, e seus filmes retratam a violência policial e as memórias dolorosas da família naquele bairro). A concepção visual do filme (incluindo os ensaios dos rappers) aconteceram no Teatro do Contêiner Mungunzá, localizado em uma região central sensível de São Paulo próxima à Cracolândia e à Favela do Moinho, que traz à tona os sentimentos de marginalização daqueles grupos, que o longa busca discutir. Foram seis meses de filmagem, e o título é alusivo ao verso da música dos Racionais “Negro drama”. Um bom documentário musical, que nos faz refletir e repensar as formas de ver a periferia e os indivíduos que lá produzem arte.

sábado, 5 de setembro de 2026

Estreias da semana – Nos cinemas e streamings – Parte 2


O delator
 
Fita porrada de ação sul-coreana com bastante dose de humor, “O delator” (2025) é um lançamento exclusivo nos principais streamings brasileiros com distribuição da A2 Filmes. Como todo bom entretenimento policial feito na Coreia do Sul, carrega uma trama ágil, cheia de peripécias e reviravoltas, envolvendo aqui o submundo do crime, com corrupção policial e delações usadas por bandidos para a redução da pena na cadeia. Em um bairro tomado pelo tráfico de drogas, dois “yadang” (informantes) atuam como intermediários entre criminosos e autoridades, manipulando provas e dados para benefício próprio. A dupla se infiltra em um grupo de bandidos perigosos, e a cada passo dado são encurralados por policiais corrompidos e organizações escusas. O filme, original e com críticas sociais, trabalha bem o tema das questões legais em torno do tráfico de drogas na Coreia do Sul, lá considerado um crime gravíssimo - o país possui uma das legislações antidrogas mais rígidas do mundo, e o governo adota há muito tempo uma política de "tolerância zero" tanto para o comércio quanto para o consumo de substâncias ilícitas. Nesse ambiente, surgem personagens que se desviam, corrompem corporações e tentam se proteger nas delações premiadas (algo agora em vigor no país). Preste atenção já que há muitos detalhes nas subtramas das figuras centrais do longa – ao todo há pelo menos três histórias que correm paralelas, aos poucos se afunilando até o movimentado desfecho (com lutas marciais, tiros e mortes violentas). No elenco, destacam-se os atores Yoo Hai Jin, de “O motorista de taxi” (2017), e Park Hae-joon, de “12.12: O dia” (2023). Engatei no filme, é uma boa pedida e poderá agradar fãs do cinema policial oriental. Pode ser encontrado para aluguel em plataformas digitais de streaming e VOD, como Claro TV+, Vivo Play, Apple TV, Prime Video e Google Play.




Gonzaguinha – Da maior liberdade

Vencedor do prêmio de melhor documentário no Festival de Gramado (que acabou no mês passado, em agosto), o doc é uma homenagem ao compositor e cantor Gonzaguinha, no ano em que se lembra os 35 anos de seu falecimento (ocorrido em 1991). É um filme grandioso em todos os aspectos, a começar pela figura retratada, do formato da obra – composto por múltiplas linguagens, e do teor crítico de seu tema. Um ator (André Dale) interpreta Gonzaguinha numa mesa, como se estivesse em uma entrevista, citando trechos de depoimentos dele concedidos em revistas e jornais nos anos 70 e 80; junto dessa interpretação/simulação, cenas de shows de Gonzaguinha, com entrevistas reais dele, são costuradas, trazendo o cantor no palco, no estúdio, além dele se posicionando contra a ditadura e dentro dos movimentos das Diretas Já. Títulos de suas músicas são os capítulos do filme, como “Galope”, “Explode coração” e “Eu apenas queria que você soubesse”, que tratam das fases do genial artista que foi – uma fase mais romântica, outra de bolero, outra de críticas sociais batendo de frente com a ditadura militar e sendo censurado por isso. Nos trechos mais impactantes do longa, Gonzaguinha (que no início da carreira lançou os primeiros LPs como Luiz Gonzaga Jr.) relembra também o frisson da abertura política e o atentado a bomba no Riocentro (durante um show dele, e depois revelado um ato frustrado dos próprios militares, matando um sargento do Exército e ferindo um capitão). Gonzaguinha fala da família, da influência do pai, o Gonzagão, e das diferenças que ambos tinham (depois, no final de carreira, a reaproximação dos dois incluindo turnês juntos), fala de seu engajamento político, do brilho de viver intensamente cada minuto. Acusado de subversivo, teve letras cortadas e proibidas no regime militar, apontado como uma ameaçada à sociedade (assim como tantos músicos da época, como Chico Buarque, burlou a censura com metáforas e ironias nas composições). Também foi alvo dos militares por defender a democracia e o fim da fome, conscientizando seu público em prol dos direitos humanos e lutando contra a desigualdade social. Muitas de suas músicas trataram de dois temas em especial: a dor do amor, na primeira fase, e na segunda fase a valorização dos trabalhadores, das lutas sociais contra a opressão e em defesa dos marginalizados. Gonzaguinha foi um artista completo, sonhador, que buscava um mundo mais justo, e como tantos de sua geração partiu cedo (de acidente de carro, aos 45 anos). O título do documentário faz referência à música “Da maior liberdade (Do meu jeito)”, que está num dos discos essenciais dele, “De volta ao começo” (1980). Um filmaço que trata de memória e resistência, especial para quem curte Gonzaguinha e MPB (como eu) e que busca entender mais o Brasil da ditadura. Dirigido pela cineasta e documentarista Susanna Lira, que já biografou para o cinema artistas célebres, de documentários como “Mussum, um filme do Cacildis” (2017), “Clara Estrela” (2017 – sobre Clara Nunes), “Torre das donzelas” (2018 – sobre mulheres presas na ditadura) e “Fernanda Young: Foge-me ao controle” (2024). Nos principais cinema com distribuição da Synapse Distribution.


sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Estreias da semana – Nos cinemas e streamings – Parte 1

 
Queda livre: As consequências do Caso Boeing
 
Novo documentário investigativo da Netflix, que dá continuidade ao doc “Queda livre: A tragédia do Caso Boeing” (2022), um estarrecedor caso de negligência e ganância que abalou os setores da aviação mundial. O filme parte de uma série de denúncias de um chefe de operações da empresa de aviação sobre falhas técnicas de aviões que colocaram voos em risco, ocorridos entre 2000 e 2010. Ele era John Barnett, engenheiro de qualidade que atuou na referida empresa de aviação por mais de 30 anos. A crise corporativa devido às falhas sistêmicas de segurança na Boeing veio à tona quando Barnett levou o caso para autoridades superiores e se tornou peça-chave para desvendar os obscuros segredos da empresa. Ele virou um denunciante (whistleblower), fazendo alertas públicos sobre os riscos dos aviões da Boeing. Barnett expôs documentos sobre situações críticas de aeronaves: portas se romperam nas alturas, tetos se abriram, fuselagem com problemas e até desastres aéreos (como os dois acidentes do modelo 737 MAX, que resultaram na morte de 346 pessoas e na suspensão mundial dos voos da frota entre 2018 e 2019 - o primeiro ocorrido na Indonésia e o segundo, na Etiópia). Na investigação que o filme faz, descobre-se que a empresa reutilizava peças de outros aviões e não promovia vistorias regulares neles. Barnett foi ameaçado de morte, até que morreu em 2024, um dia depois de depor no tribunal – ele foi encontrado morto com um tiro na cabeça na camionete onde estava, o que levantou suspeitas sobre a causa mortis (e o filme também explora isso, na parte final). Com a morte do engenheiro, outros funcionários resolveram denunciar a Boeing – abrindo espaço para denúncias contra outras empresas de aviação. O documentário é um estudo de caso sobre desmandos e negligência de uma multinacional importante do mercado, cuja trama nos prende, reunindo reportagens antigas contundentes e depoimentos novos, muitos de autoridades, juízes, investigadores e engenheiros. É dirigido pela cineasta Rory Kennedy, indicada ao Oscar pelo doc “Last days in Vietnam” (2014) e que havia realizado o filme anterior.


Song Sung Blue – Um sonho a dois
 
Drama musical que mistura realidade e ficção para retratar a vida do casal de músicos de Milwaukee, Wisconsin (EUA), Mike Sardina (1951-2006) e Claire Sardina (1961-), que percorreram os Estados Unidos com turnês de tributo a Neil Diamond e utilizavam o nome artístico de “Lightning & Thunder”. A dupla começou no fim dos anos 80, em palcos pequenos da região de Milwaukee, e com o passar do tempo gravaram música em estúdio, participaram de festivais grandes e até abriram um show de Pearl Jam, a convite do próprio Eddie Vedder – tudo isso retratado nessa formidável cinebiografia. O longa é baseado no documentário homônimo de Greg Kohs, “Song Sung Blue” (2008), e traz como destaque o bom trabalho dos atores centrais, Hugh Jackman e Kate Hudson (indicada, pelo papel, aos principais prêmios da temporada, como Bafta, Oscar e Globo de Ouro). A história segue os altos e baixos da formação musical desses dois artistas, mostrando a dificuldade em trilhar o caminho na carreira independente, além de trazer os dramas pessoais do casal (ele dependente do álcool e atormentado pela Guerra do Vietnã, onde lutou, e ela o apoiando como esposa, companheira e artista). Enquanto Lightning tinha a voz potente interpretando canções de Diamond, Thunder fazia back vocal dele e também alternava os shows com música country de Patsy Cline. O diretor Craig Brewer, de “Ritmo de um sonho” (2005), condensa anos de acontecimentos da carreira da dupla em uma linha temporal curta, mas precisa, intensificando os conflitos e emoções. Com uma fotografia de cores vivas e vibrantes, "Song Sung Blue" é uma celebração à música de Neil Diamond, tratando de superação, resistência e desprendimento, ao mesmo tempo em que expõe a vulnerabilidade humana diante das adversidades. Na trilha sonora, um passeio musical em obras máximas de Diamond, como “Sweet Caroline”, “I am... I said” e “Holly Holy”. Estreou recentemente no Prime Video (com distribuição no Brasil pela Universal Pictures).



Anistia 79
 
Alusivo documentário brasileiro aos 47 anos da Lei da Anistia, decretado em 1979, em um período crítico da Ditadura Militar no Brasil. O longa traz os primeiros movimentos no exterior para a anistia (que ficou ampla, geral e irrestrita), quando no Parlamento Italiano, em Roma, entre junho e julho de 1979, foi realizada a Conferência Internacional pela Anistia e pelas Liberdades Democráticas no Brasil. O encontro, de três dias, juntou cerca de 500 pessoas, incluindo exilados políticos, intelectuais, ativistas de direitos humanos e figuras da resistência à ditadura militar (como Apolônio de Carvalho, Gregório Bezerra e Francisco Julião). A Conferência foi a maior reunião da diáspora brasileira fora do país durante a Ditadura (que continuava aqui exilando, perseguindo e matando). O trunfo ideativo do filme é reunir gravações inéditas, todas com imagem restaurada, que foram feitas no Congresso por um militante de esquerda exilado na França, Hamilton Lopes dos Santos. Praticamente o filme todo é um compilado dessas imagens poderosas, em preto-e-branco, encontradas pela diretora do filme, Anita Leandro, no acervo da Universidade de Nanterre, nos arredores de Paris, e analisadas por pessoas que sentiram na pele a Ditadura, como familiares, e amigos íntimos dos retratados naquela reunião. Aparecem nas gravações Francisco Julião (das Ligas Camponesas), Apolonio de Carvalho, Carmela Pezzuti, Manuel da Conceição, Rolando Frati, Luís Travassos e Márcio Moreira Alves, parte desses exilados. Quase meio século depois, as gravações ressurgem para reacender o debate sobre as tristes páginas da História do país, do Estado repressivo da ditadura e da impunidade dos torturadores, trazendo paralelos com o Brasil atual (já que o golpismo e os afãs ditatoriais ainda rondam por aqui). No filme, 11 pessoas assistem pela primeira vez, depois de tanto tempo, àquelas imagens, e emocionadas relembram a História e seus personagens. A Conferência ocorreu às vésperas da sanção da Lei da Anistia no Brasil (Lei nº 6.683, de agosto de 1979), planejada para debater pontos limitantes dela – e serviu para denunciar os crimes e as torturas da ditadura militar brasileira perante a opinião pública mundial e o parlamento europeu. Acabou sancionada pelo presidente João Figueiredo em 28 de agosto daquele ano, sendo um marco no processo de redemocratização do Brasil. Deu perdão tanto aos opositores do regime quanto aos agentes do Estado (torturadores e militares) - por isso ampla, geral e irrestrita. As consequências diretas da Lei foram o retorno dos exilados (como líderes políticos, intelectuais e artistas), a libertação de presos políticos detidos nos presídios brasileiros e a reorganização política, permitindo a partir de 1980 a volta do pluripartidarismo, a restituição dos direitos políticos a cidadãos que haviam sido cassados pelo regime e as eleições diretas. É um filme-estudo de História, didático, importante para os dias de hoje. Foi premiado na Mostra de Cinema de Tiradentes, onde recebeu os prêmios de Melhor Filme da competição Olhos Livres e do Júri Popular. Nos cinemas pela Embaúba Filmes.

quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Nota de cinema


Saiu hoje entrevista que concedi essa semana na TV Câmara (da Câmara Municipal de Catanduva) no quadro "Aqui nasci, aqui cheguei", onde falo sobre minha carreira no jornalismo e na crítica de cinema. São 30 minutos de conversa com a querida amiga Bida Paulatti.
Link para quem quiser assistir:
https://youtu.be/GtYr1PD2nuM?is=Qz1UaEdq9RfnI7O_

terça-feira, 1 de setembro de 2026

Especial de cinema

 
37º Kinoforum continua até o dia 06 em formato online
 
A edição presencial do 37º Kinoforum – Festival Internacional de Curtas de São Paulo terminou, mas parte da programação segue online e gratuita ao público até o dia 06 de setembro. Um dos festivais de curtas mais antigos e importantes do Brasil, ele foi realizado em 2026 entre os dias 20 e 30 de agosto, ocupando diversos espaços culturais da capital paulista, como Cinesesc, Cinemateca Brasileira, Centro Cultural São Paulo (CCSP), Museu da Imagem e do Som (MIS) e Espaço Petrobras de Cinema. Com seleção ampla e diversa, o Kinoforum exibiu 260 curtas-metragens, sendo 127 produções brasileiras e 133 internacionais (de 58 países). A programação, totalmente gratuita, trouxe filmes exibidos em festivais como Cannes, Locarno e Sundance. Quem perdeu as sessões presenciais pode agora conferir no digital, nos streamings Itaú Cultural, Sesc Digital e Spcine Play.



Os vencedores da premiação oficial foram anunciados na última semana na Cinemateca Brasileira, consagrando produções como o curta paraibano “Imagem imaginada” (vencedor do inédito Prêmio Zita Carvalhosa) e o drama “Theo” (adquirido pela TV Cultura).
Alguns destaques internacionais votados pelo público como melhores filmes da edição desse ano: “Para os Oponentes” (México, Chile, França e Reino Unido, premiado em Cannes), de Federico Luis; “Meu Irmão Lyosha e Eu” (Cazaquistão), de Lena Tronina; “Nascida Soldado” (França), de Sahara Moeini”;  “O Último Jogo” (Cuba), de Daniel Chile; “Por Favor” (Suécia), de Anna Mantzaris; “Ruído das Ondas” (Polônia), de Tomasz Wrobel”; e “Vida que Segue” (Reino Unido), de Daniel Audritt e Kathryn Butterfield. Já os destaques brasileiros incluem “Adrenalina”, de Pedro Goifman; “Miguer”, Rodrigo Ribeiro; “A Ascensão da Cigarra”, de Ana Clara Ribeiro Lages; “A Cúpula dos Prazeres”, de Valter Pereira; e “A Menina que Queria Ser Pedra”, de Jackson Abacatu.
O Kinoforum é uma realização da Associação Cultural Kinoforum (entidade sem fins lucrativos responsável direta pela organização e produção geral do evento), liderado pela diretora executiva Vânia Silva e pelo diretor de programas Marcio Miranda Perez. Conta com as seguintes instituições parceiras: Cinemateca Brasileira, Museu da Imagem e do Som (MIS-SP) e Sesc São Paulo, e é viabilizado por meio de investimentos públicos e privados, destacando-se Itaú Unibanco, Spcine e Prefeitura de São Paulo, com apoio institucional e fomento do Governo do Estado de São Paulo, através do Programa de Ação Cultural (ProAC) da Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas, e do Governo Federal, através do Ministério da Cultura, por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura (Lei Rouanet). Site oficial do evento: https://2026.kinoforum.org
 

domingo, 30 de agosto de 2026

Resenha especial


Dança com lobos
 
Oficial do Exército (Kevin Costner), durante a Guerra Civil Americana, é enviado para um posto na fronteira dos Estados Unidos com o México. Lá, ficará próximo de um grupo de indígenas Sioux, e os ajudará a sobreviver a um massacre coordenado pelo Exército.
 
Um dos maiores clássicos modernos do cinema retorna ao público em uma edição histórica em bluray para colecionadores, em inédita versão estendida com quase uma hora a mais de filme. A distribuidora Obras-primas do Cinema lançou no mercado de mídia física, neste mês, “Dança com lobos” (1990), um western psicológico ganhador de sete Oscars, incluindo melhor filme, roteiro adaptado e direção para Kevin Costner.
Também estrelado por Costner, o épico drama de faroeste ultrapassou os limites da narrativa convencional se consolidando como um marco cultural dentro do cinema. A história está dentro do contexto real da Guerra Civil americana, travada entre 1861 e 1865, período em que os Estados Unidos se dividiram entre norte e sul, com guerras de território e exploração das terras indígenas. O longa acompanha o tenente John Dunbar (Kevin Costner), um oficial da União, representante dos estados do Norte que buscava manter o país unido e impedir a separação dos estados do sul. Após um ato de bravura em combate, ele é enviado para um posto na fronteira oeste dos Estados Unidos. Dunbar se afasta da guerra entre “brancos” para mergulhar em um universo desconhecido, as inóspitas terras dos indígenas Sioux, que transformará sua visão de mundo. Sozinho no posto que fica ao lado de uma casa antiga que será sua residência, fica próximo de um lobo selvagem, que o visita todas as manhãs, e será observado por um grupo de Sioux. Até que ele os encontra frente a frente, desenvolvendo um forte laço com os indígenas, que passarão a ser alvo do Exército. O enredo se desenvolve na relação de Dunbar com os Sioux, uma das maiores nações indígenas das Grandes Planícies. Inicialmente, há desconfiança e distância entre ele e o grupo, mas o oficial conquista gradualmente a confiança da tribo, aprendendo sua língua, seus costumes e sua espiritualidade. Por causa da aproximação de Dunbar com aquele lobo selvagem que o visita, os Sioux o apelidam de “Dança com lobos”, como símbolo da metamorfose espiritual do homem branco com o animal.
O filme retrata os Sioux com dignidade, de um povo guardião de uma tradição oral rica, de uma espiritualidade profunda e de uma organização comunitária que valorizava o coletivo acima do individual. Costner mostra a organização social deles, dos ritos, da lealdade ao grupo, da importância dos búfalos naquela cultura e na ligação íntima com a natureza. Historicamente, os Sioux habitavam vastas regiões que hoje correspondem a estados como Minnesota, Montana, Dakota do Norte, Dakota do Sul e Nebraska (estes dois estados, com riachos e descampados abertos, serviram de locações para a gravação do filme). Eram povos nômades, adaptados ao ambiente das planícies, e sua sobrevivência estava diretamente ligada ao equilíbrio ecológico da região. Entretanto, a história dos Sioux é marcada pela tragédia da colonização: com o avanço da fronteira e a política expansionista dos EUA, foram dizimados, vítimas de massacres, deslocamentos forçados e da destruição de seu modo de vida. Ao trazer essa realidade para a tela, “Dança com lobos” não apenas narra a amizade improvável entre um soldado branco e uma tribo indígena, mas também denuncia a devastação cultural e humana provocada pela conquista do Oeste.



O impacto do filme foi extraordinário: em uma época em que Hollywood deixava de retratar os indígenas como vilões ou figuras secundárias, Costner oferecia uma visão humanizada e crítica da relação de colonizador e colonizado. O longa se tornou um fenômeno cultural, abrindo espaço para debates sobre memória histórica e representação. Vencedor de um prêmio especial na Berlinale, onde concorreu ao Urso de Ouro, o filme foi indicado a 12 Oscars, recebendo sete: melhor filme, direção, trilha sonora, roteiro adaptado, edição, som e fotografia – e parte do elenco foi indicado, no caso Costner, Graham Greene (no papel do líder Sioux que se torna amigo do oficial) e Mary McDonnell (interpretando uma mulher branca criada por indígenas desde pequena e que se apaixona por Dunbar). A parte técnica é impecável, realçada agora na cópia restaurada em 4K: fotografia grandiosa (que captura a vastidão das planícies americanas), trilha sonora emotiva e lindos figurinos de época, que elevam a história que equilibra ação, romance e drama.
Foi o primeiro trabalho de Costner na direção, que na época, aos 35 anos, já era um galã, com filmes importantes no currículo como ator. Também foi a primeira investida dele no universo western, desconstruindo o mito americano do Velho Oeste. É um filme revisionista, feito sob uma ótica crítica em torno do choque entre civilização e natureza, entre progresso e tradição. O Oeste, para Costner, não é apenas cenário, mas metáfora de transformação e conflito cultural - e que mais tarde ele voltaria ao tema como diretor, em filmes como “Pacto de justiça” (2003) e na recente trilogia “Horizon: Uma saga americana” (2024-2026). Sem contar o interesse em protagonizar filmes que se passavam no oeste, como “Silverado”, “Wyatt Earp” e no seriado “Yellowstone”.
“Dança com lobos” sai agora em edição estendida em bluray, pela primeira vez no Brasil, com distribuição da Obras-primas do Cinema – a versão de cinema tinha 181 minutos, e esta apresenta 53 minutos a mais, totalizando 234 minutos. Vem junto na caixa um pôster do filme, quatro cards e um livreto de 16 páginas. O box traz o filme em bluray, em 4K, e um DVD com mais de duas horas de extras, como making of, trailers e entrevistas.
 
Dança com lobos (Dances with wolves). EUA/Reino Unido, 1990, 234 minutos. Drama/ Faroeste. Colorido. Dirigido por Kevin Costner. Distribuição: Obras-primas do Cinema

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Nota de cinema

 
Cine Debate exibe sábado animação premiada francesa
 
O Cine Debate de agosto, projeto de extensão do Imes Catanduva, em parceria com o Sesc, promove no próximo sábado, dia 29/08, mais uma sessão de filme aberto ao público. A partir das 14 horas, será exibida a animação francesa, coproduzida na Bélgica, “Zarafa” (2012), dirigida pela dupla Rémi Bezançon e Jean-Christophe Lie. Sessão e debate são gratuitos e abertos ao público, no Sesc Catanduva, conduzidos pelo idealizador do Cine Debate, o jornalista, crítico de cinema e professor do Imes Felipe Brida, com mediação da equipe do Sesc.
 
Sinopse: No século XIX, o garoto Maki, de 10 anos, escapa das garras de um mercador de escravos. Em sua fuga pelo deserto, ele se apega a um filhote de girafa que acabou de ficar órfão. O menino dá ao animal o nome de Zarafa, e ambos ficam sob a proteção do bondoso beduíno Hassan, encarregado pelo Paxá do Egito de levar Zarafa como um presente diplomático ao rei Carlos X da França. Determinados a seguir juntos, Maki e Hassan cruzam lugares longínquos e enfrentam perigos para transportar a girafa até Paris.
 


Cine Debate
 
O Cine Debate é um projeto de extensão do curso de Psicologia do Imes Catanduva em parceria com o Sesc Catanduva. Completou 14 anos em 2026 trazendo filmes cult de maneira gratuita a toda a população. As próximas sessões são:
 
26/09 – 14h – “Saudade fez morada aqui dentro” (2022)
31/10 – 14h – “Nosferatu” (2024)
28/11 – 14h – “A cor púrpura” (2023)
05/12 – 14h – “Sete oportunidades” (1925)
 
Conheça mais sobre o projeto em
https://www.facebook.com/cinedebateimes

quinta-feira, 20 de agosto de 2026

Estreias da semana – Nos cinemas – Parte 1

 
Amelia Toledo – Lembrar de não esquecer

Documentário brasileiro de Hélio Goldsztejn que, pra mim, foi um dos melhores lançados em festivais de cinema em 2025 (o assisti na Mostra de SP). A obra joga luzes sobre a carreira da artista plástica e escultora Amelia Toledo (1926-2017), uma artista inquieta, que esteve à frente de seu tempo com seu ousado trabalho, considerado por alguns controverso, que reunia elementos da land art e do ready made com ecologia e sustentabilidade, recorrendo a linguagens e estilos variados, como instalações, intervenções, arte interativa e arquitetura moderna. Amélia inovou o ‘fazer artístico’ com materiais como pedras, metal e conchas; foi professora no Mackenzie, na FAAP e na UnB, formando um grupo de alunos pensadores em torno da nova arte que se ergueria no Brasil a partir dos anos 60. O doc reúne entrevistas antigas e recentes dela para emissoras de TV, de depoimentos dos filhos, dentre eles o pintor Moacyr Toledo, e de amigos artistas. É um compilado de histórias fabulosas em que conhecemos a fundo a alma dessa mulher sonhadora e autêntica, que transformou sua casa em ponto de encontro de intelectuais e bateu de frente, como muitos de sua geração, com a Ditadura Militar. O longa estreia hoje nos principais cinemas brasileiros, com distribuição da Bretz Filmes.



 
Champagne - Uma viagem de pai e filho
 
Simpático road movie holandês sobre reconexões familiares, que parece ter saído das antigas sessões da tarde de semana da Globo. Espirituoso, apoia-se em um roteiro simples, de narrativa delicada sobre a relação entre pai e filho, marcada por diálogos bem humorados, além de reflexões existenciais. Na história, um homem maduro chamado Maarten (Leo Alkemade) descobre que o pai, Hans (Huub Stapel), está com câncer em estágio avançado. Aconselhado por um amigo, Maarten convida o idoso para uma última viagem: levá-lo para a região francesa da Champanhe, lugar que Hans sempre quis visitar. Os dois partem para lá de carro, cruzando a Holanda e a França, rumo à famosa província mundialmente famosa pelos vinhos espumantes (bebida preferida do idoso). A viagem, inicialmente estranha, já que nunca ficaram tanto tempo juntos, torna-se uma jornada de celebração à vida e de profundas conexões humanas. A comédia dramática tornou-se uma das maiores bilheterias na Holanda desse ano, marcando um novo rumo na trajetória do astro comediante de lá Leo Alkemade, interpretando um dos poucos papeis dramáticos. Tanto ele quanto o veterano ator Huub Stapel estão muito bem, cada um com seu peculiar papel. Alkemade também é o roteirista do filme, cuja história é baseada na própria relação que teve com o pai, e em uma viagem que faria com ele para a França (mas que não deu certo, pois o pai morreu). Agora, na ficção, a viagem entre os dois existiu, viagem esta que funciona como metáfora para o percurso interno dos dois personagens, envolvendo reconhecimento mútuo, acertos e confrontos que revelam fragilidades e afetos. Um filme bonito, fácil de se emocionar e ser conquistado por ele, que está nos principais cinemas brasileiros pela Autoral Filmes.


Coração partido

Produção russa, com equipe praticamente toda de lá (como direção e elenco), o filme romântico é uma adaptação do best-seller “Your heart will be broken”, de Anna Jane. É um drama juvenil morno, piegas, sobre uma adolescente, Polina, que se muda para outra cidade após a mãe iniciar um novo relacionamento. No colégio (o filme quase todo se passa nesse mesmo ambiente), ela se torna alvo de bullying - até que o jovem misterioso Bars, aluno temido, decide protegê-la fingindo ser seu namorado. O que começa como um namoro de fachada evolui aos poucos para um amor genuíno, porém de altos e baixos, marcado por vulnerabilidade e amadurecimento. No livro e no filme exploram-se dilemas da juventude, conflitos, ciúmes, questões afetivas e desarranjos no romance, para manter o público envolvido na evolução daquela relação. Para mim não funcionou, não me envolveu e achei tudo forçado, sem harmonia. O elenco é liderado pela russa Veronika Zhuravleva (Polina) e pelo inglês Daniel Vegas (Bars), um casal sem química, que faz das tripas coração para agradar os jovens românticos que estão na poltrona dos cinemas. Estreou nas salas brasileiras com distribuição da Paris Filmes.

quinta-feira, 13 de agosto de 2026

Estreias da semana – Nos cinemas – Parte 2

Honestino
 
Conhecido por tratar da questão indígena em seus dois trabalhos anteriores, “O cineasta da selva” (1997) e “Segredos do Putumayo” (2020), o diretor amazonense Aurélio Michiles se volta agora à Ditadura Militar no Brasil, trazendo para a tela a biografia do líder estudantil Honestino Guimarães, o Gui, um dos tantos desaparecidos políticos no cruel período dos Anos de Chumbo. Fundindo documentário e ficção, o longa reúne imagens inéditas de Gui, aluno da Universidade de Brasília – UnB e presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE) no final dos anos 60. Preso diversas ocasiões por criticar e enfrentar os militares, desapareceu em 1973, aos 26 anos. Nunca mais se ouviu falar no estudante. O filme vasculha vestígios da época, de arquivos de fotos da família e de pessoas que conviveram com ele; entrevista a filha e o neto de Gui, colegas de turma da faculdade e da luta contra a Ditadura. O filme vai exibindo pouco a pouco a personalidade forte e sempre carismática de Honestino e sua visão de um mundo mais justo. Cartas, poemas, fotos dele são abundantes no filme, bem como depoimentos de dezenas de pessoas próximas – Aurélio Michiles, o diretor, foi colega de luta dele, da chamada Geração de 68. As encenações de Gui são de Bruno Gagliasso, em poucas aparições, já que o tom do filme é mais documental. Uma obra densa, que reflete a luta de tantos por um país livre da repressão. Assisti ao filme numa sessão no Festival do Rio com a presença da equipe e familiares, e em seguido o longa foi para a Mostra Internacional de Cinema de SP. Agora estreia nos cinemas brasileiros, com distribuição da Pandora Filmes.


Aquele que viu o abismo

Dirigido por uma dupla de artistas visuais brasileiros (Gregorio Gananian e Negro Leo) o filme experimental que estreou recentemente nas salas é uma obra que mistura linguagens e desafia os limites do cinema brasileiro contemporâneo. Vencedor do prêmio de Melhor Filme na Mostra Olhos Livres da 27ª Mostra de Cinema de Tiradentes (edição de 2024), é um experimento audiovisual que rompe com as convenções e narrativas da Sétima Arte, fundindo música, performance, fotografia, animação e imagens aleatórias, tornando o longa uma obra ousada, diferenciada no formato. O roteiro acompanha X (interpretado por Negro Leo), um homem que se envolve em uma série de assassinatos. Ele tem visões deturpadas, que servem como forma de sobrevivência em um sistema opressor. A empresa multinacional ProLife, que promete vida eterna em troca da submissão dos civis, surge em sua vida, colocando-o em choque com suas crenças. O filme se passa em um futuro incerto, distópico obviamente, repleto de metáforas sobre estado policial, vigilância, mecanismos de controle e exploração do trabalhador. É um personagem só envolto em seu mundo próprio. A narrativa não é linear, as cenas são cortadas de um lugar a outro (fornecendo uma experiência desafiadora ao público), e não há respostas fáceis. O mosaico de imagens e sons refletem a sociedade fragmentada em que vivemos hoje, com um personagem vagando numa linha tênue entre realidade e ficção – o filme explora bem os ambientes urbanos, com a arquitetura dos arranha-céus e luzes neon noturnas, como uma cidade futurista. Realizado pela Zaum Produtora em parceria com a Katásia Filmes, está nos principais cinemas do país com distribuição da Embaúba Filmes.

terça-feira, 11 de agosto de 2026

Estreias da semana – Nos cinemas e streamings – Parte 1


Insaciável
 
O cinema de terror australiano vem ganhando forma nos últimos anos, redesenhado do movimento Ozploitation dos anos 70 e 80 que ativou o gênero no país. “Insaciável” é um bom exemplo de como se fazer filmes assustadores com dimensão crítica. Eu o vi na première europeia na Berlinale desse ano, na sessão Berlinale Special Midnight, ainda com o título original, “Saccharine”, e gostei muito. E agora o filme acaba de estrear nos cinemas do Brasil, pela Diamond Films. É uma produção independente escrita e dirigida por Natalie Erika James, de outro bom filme cult de terror de anos atrás, “Relíquia macabra” (2020). É um terror psicológico com forte comentário à cultura fitness, com ecos de body horror. O inquietante longa acompanha Hana (Midori Francis, de “Bons meninos”), uma estudante de Medicina que descobre uma fórmula mágica para emagrecer: comprimidos manipulados em laboratório com cinzas de pessoas que foram cremadas (é isto mesmo, bizarríssimo). Ela gosta de comer doces e percebe que seu peso estagnou mesmo frequentando academia - e quando experimenta a pílula, vê o resultado em poucos dias. Hana não conta para ninguém sobre o remédio. Paralelamente a isto, nas aulas de anatomia, estuda a dissecação de um cadáver de aparência chocante, a de uma mulher com mais de 200 quilos, toda inchada. Hana sente algo estranho naquele corpo estirado na mesa e passa a ter alucinações. O pesadelo na vida da universitária atinge o ápice quando o fantasma da morta aparece para ela em reflexos nos talheres de cozinha, nos cantos da casa, perto da geladeira. O filme trabalha a ambientação do medo e da paranoia, de uma mulher disposta a qualquer coisa para perder peso. Ao ingerir cápsulas com restos de corpo humano demostra-se a loucura das dietas emagrecedoras milagrosas, tema que o longa procura tecer críticas. Tem um clima opressivo, jumpscares que realmente provocam medo, numa boa fita de clima tenso. Além de Midori, aparecem no elenco Danielle Macdonald (de “Se eu tivesse pernas, eu te chutaria”, aqui no papel da melhor amiga de Hana, também estudante de medicina) e do conhecido ator australiano Robert Taylor (coberto por uma maquiagem pesada, como o pai da protagonista). Filme de terror para o público que curte uma reinvenção no gênero.


Ágon
 
Fita cult escondida no streaming da Mubi, “Ágon” (2025) é uma obra simbólica e de estética subversiva que desmonta a aura heroica do esporte olímpico para revelar sua face mais dura e silenciosa. No longa, três atletas italianas (uma judoca, uma esgrimista e uma atiradora) estão em meio aos fictícios Jogos de Ludoj de 2024. Elas, em seus mundos particulares, enfrentam dilemas: uma luta contra uma lesão que ameaça a carreira, outra revive o trauma de um acidente que expõe os limites da ética esportiva, e a terceira mulher encara o julgamento público nas redes sociais. Os lances rápidos, os cortes secos, os raros diálogos, num estilo semi-documental, com câmera próxima e fotografia granulada, formam a estética reveladora desse filme de arte para público específico, que marca a estreia do cineasta Giulio Bertelli – ele escreveu o roteiro de forma colaborativa com outros cinco roteiristas. O título é uma referência ao termo grego agon que significa “conflito”, surgido há mais de 2300 anos na Grécia Antiga, que descrevia tanto os jogos olímpicos e competições artísticas quanto os debates formais no teatro ou na filosofia, representando o impulso humano para vencer e buscar a excelência. O termo espalhou-se para a Mitologia (nome de um daimon, um espírito ou divindade menor que personificava os desafios e as disputas solenes), e foi amplamente utilizado no teatro grego, para designar o momento de debate formal ou confronto verbal entre dois personagens, base sintética para termos que viriam a posteriori, como protagonista e antagonista. No filme o ágon é um embate tanto físico quanto duramente psicológico e social, que rompe com a estrutura das vidas das personagens para sempre. O filme também faz uma crítica ao espetáculo olímpico: por trás da busca pelas medalhas há corpos exaustos e identidades pressionadas pela mídia para se chegar ao pódium. Coprodução Itália, França e EUA, o filme recebeu dois prêmios especiais na Semana da Crítica do Festival de Veneza 2025.


Resenha especial

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