terça-feira, 1 de abril de 2025

Estreias da semana - Nos cinemas - Parte 2

 
Onda nova
 
Atletas femininas formam o primeiro time de mulheres assim que a Ditadura Militar começa a perder forças, o ‘Gayvotas Futebol Clube’. De espírito livre, contra qualquer tipo de preconceito, elas curtem a vida de forma plena, enquanto lidam com problemas familiares e se preparam para uma partida contra a Seleção da Itália.
Alvo de censura na época, ‘Onda nova’ (1983) retornou aos cinemas brasileiros no fim de semana passado, em cópia restaurada e remasterizada em 4K, um trabalho minucioso feito pela Cinemateca Brasileira, que digitalizou o material - os negativos originais de 35mm de som e imagem foram restaurados com coordenação e supervisão de Julia Duarte e Aclara Produções, com apoio da família de um dos diretores, José Antônio Garcia, falecido em 2005, da Zumbi Post e JLS Facilidades Sonoras. É uma comédia anárquica libertária, produzida no final do ciclo da Pornochanchada, nos últimos suspiros da Ditadura Militar, em que as pessoas pediam liberdade contra o autoritarismo. É um apanhado de historietas de personagens femininas que jogam num time de futebol, o Gayvotas – repare na palavra ‘Gay’, fundado no ano em que o esporte foi regulamentado no país, após 40 anos banido. Elas sonham com o futuro, almejam uma carreira, desfrutam do amor e do sexo sem se preocupar com pudor ou puritanismo.
Na época, a censura apontou a comédia como ‘amoral’, pois, segundo os censores, fazia apologia à bissexualidade, ao amor livre e ao comportamento sexual irresponsável – ele foi vetado assim que teve a première na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, em 1983, e só voltaria aos cinemas um ano e meio depois - e olhe só, o filme foi reexibido nessa cópia restaurada na última edição da Mostra de SP, em outubro de 2024.
Uma obra vibrante, engraçada, que também fala sobre sexismo no esporte e como quebrar essas barreiras. Há sim cenas de sexo a la Pornochanchada, mais erótico e subentendido do que explícito, e mesmo assim, por aparecer corpos nus na tela grande, causava burburinhos. No elenco temos rostos conhecidos do cinema daquele período, como as estreantes Carla Camurati, Cristina Mutarelli, Vera Zimmermann e Regina Casé, as cantoras e atrizes Cida Moreira e Tania Alves, e participações especiais dos veteranos Sérgio Hingst e Ênio Gonçalves. Há ainda aparição dos jogadores Casagrande e Pitta, do cantor Caetano Veloso e do falecido ator argentino Patricio Bisso num irreverente papel feminino, como era de costume - ele também foi figurista de filmes brasileiros importantes dos anos 80, como ‘O beijo da mulher aranha’ (1985).
Assisti a ‘Onda nova’ há uns 20 anos numa sessão noturna do Canal Brasil, mas na cópia antiga - se puder veja na tela grande, pois a restauração em 4K está excelente, é outro filme. Está em cartaz em 20 cinemas brasileiros, como São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Belém e Brasília, com distribuição pela Vitrine Filmes. Classificação indicativa de 18 anos. Uma curiosidade – o novo pôster foi recriado pelas mãos de Helena Garcia, filha do cineasta José Antônio Garcia, que fez o filme ao lado de Ícaro Martins – juntos a dupla dirigiu comédias do final da Pornochanchada, como ‘O olho mágico do amor’ (1982) e ‘A estrela nua’ (1984), todas com Carla Camurati.



Observem a trilha sonora com hits do início dos anos 80, ‘Cor de rosa choque’ e ‘Agora só falta você’, de Rita Lee, ‘Beat it’, de Michael Jackson, e Laura Finocchiaro cantando a canção título, ‘Onda nova’. A montagem é do meu querido amigo e meu conterrâneo catanduvense, o já falecido Eder Mazzini, montador de dezenas de longas brasileiros.
 
Onda nova (Idem). Brasil, 1983, 103 minutos. Comédia. Colorido. Dirigido por José Antônio Garcia e Ícaro Martins. Distribuição: Vitrine Filmes (nos cinemas)

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