quarta-feira, 6 de agosto de 2025

Cine clássico


Especial ‘Bravura indômita’

 
Bravura indômita *
 
O xerife texano Rooster Cogburn (John Wayne), velho e beberrão, auxilia a garota Mattie (Kim Darby) a encontrar os assassinos de seu pai. Para isso, terão de percorrer longas caminhadas a cavalo pelo Oeste selvagem, terra dos indígenas.
 
Faroeste classe A da Paramount, protagonizado pelo lendário ator John Wayne, o velho cowboy do cinema, ícone dos westerns americanos. Por esse filme ele ganhou o único Oscar da carreira, em 1970 – ele havia sido indicado duas vezes antes, por “Iwo Jima – O portal da glória” (1949) e “O álamo” (1960). Na pele de um destemido xerife que vive alcoolizado e que usa um tapa-olho, Wayne conduz a trama de vingança no Oeste selvagem. Toma a causa de uma menina, cujo pai foi assassinado por pistoleiros, e segue no encalço dos bandidos. Só que terão pela frente os indígenas.
O personagem Rooster Cogburn ficou célebre pelos detalhes cômicos (beberrão, falar irritado), carregando o estereótipo dos velhos xerifes (chapéu, jaqueta surrada, lenço vermelho no pescoço, pistolas nos coldres, tapa-olho e botas com esporas). Apesar do jeito truculento do grandalhão, no fundo, no fundo, seu coração é piedoso para com as pessoas de boa índole – já os maus ele manda para a cova.
Há uma sequência famosa onde o xerife, montado em seu cavalo, segura as rédeas pelos dentes, nas mãos segura uma pistola e uma espingarda, e com um olho só mira um bando de matadores, também a cavalo, e sai atirando para todos os lados. Violento (não chega a ser sanguinário como os faroestes de Sam Peckinpah) e ao mesmo tempo descontraído, o filme tem, como diretor, Henry Hathaway, especialista no gênero e parceiro de trabalho de John Wayne - juntos fizeram também “A lenda dos desaparecidos” (1957), “A conquista do Oeste” (1962) e “Os filhos de Katie Elder” (1965).


No elenco há participação de futuros astros, como Robert Duvall e Dennis Hopper, além de rostos conhecidos do faroeste, como Strother Martin e Jeff Corey, e ainda do cantor country Glen Campbell. A jovem atriz Kim Darby, na época com 22 anos, interpreta uma personagem bem mais nova, super carismática - pelo papel recebeu indicação ao Bafta. Bravura indômita” foi indicado também ao Oscar de melhor canção, “True grit”. Seis anos depois de “Bravura indômita”, em 1975, houve uma continuação menor, mas bem produzida e movimentada, intitulada “Justiceiro implacável”, novamente com John Wayne, fazendo par com Katharine Hepburn. E em 2010, os irmãos Coen rodaram o remake homônimo, totalmente descartável, sem motivo cabível para existir, protagonizado por Jeff Bridges – devido a uma alucinação coletiva da Academia, concorreu a 10 Oscars, incluindo melhor filme, direção, roteiro adaptado e ator, não vencendo nenhuma categoria.
Recentemente a Classicline lançou o filme em DVD juntamente com a continuação – e ambas as versões já haviam sido lançadas em DVD muito tempo atrás.
 
* Reedição do texto publicado por mim em 06/03/2013

Bravura indômita (True grit). EUA, 1969, 129 minutos. Faroeste. Colorido. Dirigido por Henry Hathaway. Distribuição: Classicline (DVD de 2024) e Paramount Pictures (DVD de 2004)
 
 
Justiceiro implacável
 
Rebaixado por cometer excessos, o veterano xerife "Rooster" Cogburn (John Wayne) está prestes a se aposentar. Quando é informado que uma perigosa quadrilha roubou um carregamento de nitroglicerina no Arkansas, Cogburn obtém de volta o distintivo para voltar em cena e enfrentar o bando de algozes, liderado por Hawk (Richard Jordan) e Breed (Anthony Zerbe). No caminho se juntará à filha de um reverendo assassinado pelo grupo, que deseja vingança, Eula (Katharine Hepburn).
 
Com uma brilhante fotografia das reais montanhas do Oregon, essa continuação de ‘Bravura indômita’ (1969) é um faroeste bem-humorado, veloz e com dois monstros sagrados fazendo a única parceria de suas carreiras, Katharine Hepburn, única atriz a ganhar quatro Oscars e que não tem nada de parentesco com Audrey, e a lenda do cinema western John Wayne, em seu penúltimo filme – ele estava com 68 anos, e morreria quatro anos depois. É uma mistura de ‘Uma aventura na África’ (1951) com ‘Os abutres têm fome’ (1970) no melhor estilo bangue-bangue, com o retorno triunfal do xerife zangado, bebum e grosseiro, mas de bom coração, Cogburn, papel que rendeu a Wayne o Oscar de melhor ator na obra original, em 1970. Ele agora encara uma missão derradeira, de capturar um bando que roubou nitroglicerina para explodir um carregamento de ouro e roubar a enorme carga. Há momentos engraçadíssimos dos dois personagens improváveis, que vivem se cutucando, brincam com a velhice e tentam elaborar armadilhas criativas para caçar os criminosos. Há uma cena de ação particularmente muito boa, nas corredeiras de um rio violento, bem filmada, com os atores idosos substituídos por dublês, devido aos riscos. Quem, como eu, curte faroeste, irá se divertir. Segundo e último filme dirigido por Stuart Millar, três anos depois de ‘Quando morrem as lendas’ (1972), que era produtor e depois só rodou seriados.



Recentemente a Classicline lançou o filme em DVD juntamente com a primeira parte, ‘Bravura indômita’ (foto abaixo) – e ambas as versões já haviam sido lançadas em DVD muito tempo atrás pela Universal e Paramount Pictures.
 
Justiceiro implacável (Rooster Cogburn). EUA, 1975, 108 minutos. Faroeste. Colorido. Dirigido por Stuart Millar. Distribuição: Classicline (DVD de 2024) e Universal Pictures (DVD de 2005)



terça-feira, 5 de agosto de 2025

Estreias da semana – Nos cinemas e no streaming – Parte 2


Filhos
 
Nova estreia da Mares Filmes nos cinemas brasileiros, distribuidora que trouxe esse ano excelentes longas, como o ganhador do Oscar de animação ‘Flow’, ‘O bom professor’ e ‘Stella – Vítima e culpada’. Agora chega às salas das principais praças do país o drama com suspense psicológico ‘Filhos’ (2024), coprodução Dinamarca, Suécia e França. É o novo trabalho do diretor do sufocante thriller ‘Culpa’ (2018), o sueco Gustav Möller, realizador de obras angustiantes. Concorrente ao Urso de Ouro no Festival de Berlim, o filme aborda questões como dilemas morais e senso de justiça, a partir de uma trama entremeada por diversas camadas. Em uma cadeia, a dedicada agente penitenciária Eva (Sidse Babett Knudsen, das séries ‘Borgen’ e ‘Westworld’, em uma atuação magistral) tem um baque ao descobrir que um dos detentos que acaba de ser levado para lá, Mikkel (Sebastian Bull), esteve envolvido em uma tragédia em sua família. Atordoada, ela pede transferência para a ala de segurança máxima, para ficar próximo do rapaz, iniciando com ele um jogo de obsessão e vingança. O segredo entre os dois nos é revelado na metade do filme – algo até possível de prever, mas a construção do suspense é de deixar qualquer um com nervos à flor da pele. A relação dos personagens Eva e Mikkel é visceral, com momentos tensos. A fotografia casa como uma luva na história, com cores azuladas e enquadramento fechados em que os dois ficam sempre frente a frente. É um bom filme, de teor realista, que abre uma forte discussão sobre moralidade.

 
 
Humphrey Bogart: A vida vem em flashes
 
Um convite para a trajetória do premiado ator novaiorquino Humphrey Bogart (1899-1957), rosto típico do cinema noir dos anos 40 e 50, é o mote desse bom documentário britânico de 2024 que foi exibido nos festivais de Roma e do Rio do ano passado. O longa acompanha os primeiros passos de Bogart até o auge da carreira, que o levou ao panteão da Sétima Arte e tornou-o ídolo da era de ouro de Hollywood. Seus quatro casamentos, a relação com os filhos e a perseguição no Macarthismo são momentos-chave do doc. Bogart, aos 22 anos, trabalhava na bilheteria de um teatro, e lá conheceu sua primeira esposa, a atriz Helen Menken, já famosa. Ficaram juntos apenas um ano, e em seguida foi fazer teatro e cinema. O estrelato veio imediatamente, fazendo com que Bogart, em 25 anos em Hollywood, participasse de 80 filmes, dentre eles clássicos absolutos, como ‘O falcão maltês’ (1941), ‘Casablanca’ (1942), ‘À beira do abismo’ (1946), ‘O tesouro de Sierra Madre’ (1948), ‘A condessa descalça’ (1954) e ‘Horas de desespero’ (1955). Indicado a três Oscars, ganhou um, pela estupenda atuação em ‘Uma aventura na África’ (1951). A vida conjugal do ator teve altos e baixos – ele se casou com quatro mulheres, todas atrizes, Helen Menken, depois Mary Philips, Mayo Methot e o último e mais conhecido, com Lauren Bacall, também o mais duradouro – Bogart e Bacall fizeram dupla em vários filmes noir, ficaram casados por 12 anos, de 1945 até a morte dele em 1957, e tiveram dois filhos. O filme conta com imagens raras de arquivo e depoimentos antigos de Lauren Bacall, Helen Hayes e John Huston. É narrado pelo filho, que é produtor de cinema, Stephen H. Bogart, cuja voz rouca e anasalada lembra o pai. Está disponível no Prime Video.
 


Comportamento apropriado
 
Filme experimental que marcou a estreia na direção da cineasta autoral norte-americana de origem iraniana Desiree Akhavan. Ela faria em seguida seu trabalho de maior repercussão, a adaptação para o cinema do livro ‘O mau exemplo de Cameron Post’ (2018). Lá e aqui a diretora e roteirista trata de temas correlatos pertinentes a ela, com teor autobiográfico: identidade de gênero, descoberta sexual e opressão da sociedade a grupos LGBTQIAPN+. Também intitulado no Brasil de ‘Uma boa menina’, a comédia dramática, de 2014, acompanha a luta de Shirin por reconhecimento. Ela vem de uma família persa com costumes conservadores, mas se reconhece como bissexual. Mora no Brooklyn, tem amizades com homens e mulheres hetero e queer, e se apaixona por uma mulher madura igual a ela. Porém, questionamentos vem a sua mente, o que a faz esconder seus sentimentos e ocultar o relacionamento com a jovem com quem pretende namorar. Feminino, misturando momentos emotivos com outros alto astral e com boas reflexões, o filme é uma joia do cinema indie, que já demonstrava a sensibilidade para a direção de Desiree – que, aliás, é uma ótima atriz. Ela voltaria ao tema da bissexualidade na minissérie escrita e produzida por ela ‘The bissexual’ (2018), em que volta a atuar na pele de uma personagem semelhante ao do filme ‘Comportamento apropriado’. Exibido nos festivais de Sundance, Sydney e do Rio, foi indicado ao Film Independent Spirit Awards, na categoria ‘Melhor primeiro roteiro’. Está em exibição no Sesc Digital, gratuitamente até hoje, dia 05/08.

domingo, 3 de agosto de 2025

Estreias da semana – Nos cinemas e no streaming - Parte 1


Atena
 
Em seu novo trabalho, o diretor brasileiro Caco Souza retorna às origens do cinema que o lançou, o policial, nos moldes do filme realizado por ele 15 anos atrás, ‘400 contra 1: Uma história do crime organizado’ (2010) - só que com mais timidez e pouco afinco. ‘Atena’ foi rodado em 2023 na cidade de Gramado (RS), um lugar charmoso e ponto turístico do país, só que aqui mostrada em seu lado sombrio, praticamente desconhecido da pequena cidade gaúcha. Lá, uma mulher chamada Atena (Mel Lisboa), marcada por abusos cometidos pelo pai na infância, combate a violência contra as mulheres de outro jeito: caçando abusadores e os levando a um tribunal próprio, clandestino. Até que um jornalista, Carlos (Thiago Fragoso), é pautado para investigar a justiceira. O filme é prejudicado pela direção frágil, que não conduz corretamente o elenco, e pela fotografia extremamente escura, que atrapalha identificarmos personagens e o andamento da história – grande parte das cenas se passa no período da noite, com baixa iluminação. Ao mesmo tempo em que toca em assuntos sérios, como abuso infantil e violência contra mulheres, abre espaço para situações complicadíssimas, como justiça com as próprias mãos e criação de tribunais independentes para julgar estupradores. Está em exibição nos cinemas brasileiros com distribuição da A2 Filmes.
 

 
Nada
 
Filme independente e experimental brasileiro que marca a estreia de Adriano Guimarães na direção, e que chega com exclusividade aos cinemas pela Embaúba Filmes. É um drama com molde de teatro, já que tudo se passa num mesmo ambiente, no caso uma casa na fazenda, e duas personagens apenas. Vemos uma artista plástica de nome Ana que, nos preparativos finais para uma exposição de seus trabalhos, é convocada às pressas para retornar à fazenda onde passou a infância. Sua irmã, Tereza, está gravemente doente e com problemas de memória. Ana e Tereza, isoladas as duas naquelas terras no fim do mundo, mergulhará nas próprias lembranças e nas da irmã. Protagonizado por Bel Kowarick e Denise Stutz, que está muito bem nos papeis das irmãs de meia-idade, o filme dá a sensação de confinamento, com planos fechados, e trabalha todo o tempo com a dualidade presença/ausência e memória/esquecimento, a partir de duas irmãs que se reaproximam quando uma estranha doença atinge uma delas. Segundo o diretor, o argumento e a estética do drama, principalmente quanto ao enquadramento, vieram após a leitura de poesias do poeta mato-grossense Manoel de Barros e das peças do dramaturgo modernista irlandês Samuel Beckett. Exibido em festivais na Espanha, Rússia, Índia, Argentina, México e Colômbia, recebeu prêmio especial no Festival de Cinema de Tiradentes, em 2022, no Festival de Málaga, naquele mesmo ano, e os troféus de melhor direção, direção de arte e edição de som no 57º Festival de Brasília.
 

 
Super happy forever
 
Mais uma boa estreia no streaming da Mubi, que tem no catalogo importantes filmes cult antigos e produções recentes premiadas em festivais como Cannes e Berlim. ‘Super happy forever’ é uma coprodução Japão/França, exibida nos festivais de Veneza e San Sebastián de 2024. É um filme cíclico, de narrativa leve, que mescla cenas com muitos diálogos entre amigos e outras de puro silêncio e contemplação na beira da praia. No novo trabalho do diretor Kohei Igarashi, de ‘Takara – A noite em que nadei’ (2017), uma história de amizade e compreensão – em 2023, Sano (Hiroki Sano) e seu amigo de infância Miyata (Yoshinori Miyata) visitam um resort na pequenina cidade litorânea de Izu. Cinco anos atrás, Sano conheceu lá sua falecida esposa, Nagi (Nairu Yamamoto). Ela morreu muito jovem, no auge da carreira e da vida. Sano então percorre lugares por onde esteve com ela, como a praia, minas de água, becos da cidade, redescobrindo o lugar e assim dando novo sentido ao luto. Uma história de recomeço e ressignificados, com imagens belamente fotografadas na cidade de Izu – as melhores são aquelas que retratam a solidão do protagonista, quando sentado refletindo nas pedras. O título faz referência a um congresso que ocorre em Izu durante a passagem do personagem, que seria algo como ‘Superfelizes para sempre’.

quinta-feira, 31 de julho de 2025

Estreias da semana – Nos cinemas e no streaming


Iracema – Uma transa amazônica
 
Um clássico absoluto do cinema brasileiro retorna, 50 anos depois, em uma impressionante cópia restaurada em 4K, para as principais salas do país. Um drama que enfrentou a censura durante a Ditadura Militar, que permanece com história mais atual do que nunca, registrando feridas abertas do Brasil. Coprodução Brasil, Alemanha Ocidental e França, dirigido pela dupla Jorge Bodanzky e Orlando Senna, o filme, de 1974, é uma crítica social sobre as relações de trabalho escravo na Amazônia, com foco na ocupação de terras indígenas, bem como a devastação das florestas por fazendeiros, grileiros e garimpeiros. Mescla documentário e ficção – doc porque capta a realidade nua e crua das queimadas enquanto o filme era rodado, além de trazer indígenas que não eram atores profissionais para interpretar ‘eles mesmos’, e ficção pois a história narrada parte de um roteiro inventado. Na trama, simbólica e questionadora, acompanhamos as viagens do caminhoneiro Tião (Paulo César Peréio) pela recém-construída rodovia Transamazônica, e a relação amorosa dele com uma indígena retirada de seu povo, Iracema (Edna de Cássia). No meio dessas andanças dos personagens, o ‘progresso’ do país com a construção do megalomaníaco projeto da Transamazônica, elaborado na Ditadura e que tinha como objetivo a construção de uma rodovia federal que cortaria o país de leste a oeste, da Paraíba ao Amazonas, com quase 4300 quilômetros de extensão, cruzando sete estados. Um projeto falido, que buscava integrar o país, mas aos poucos foi sendo abandonado, marcado por problemas socioambientais, como devastação, ameaça aos povos indígenas, desvios de dinheiro e dificuldades de acesso. É o período do ‘Milagre Econômico’, que escondia nesse Brasil profundo a destruição dos povos originários, das comunidades ribeirinhas, expondo a grilagem e a exploração sexual de crianças e jovens indígenas – tema que aparece bem no filme. Exibido no Festival de Cannes pela primeira vez em 1976, o filme foi logo engavetado por cinco anos pela ditadura no Brasil, até que teve, em 1980, a primeira exibição nacional, no Festival de Brasília, onde ganhou os quatro prêmios que concorreu – melhor filme, edição, atriz para Edna de Cássia e atriz coadjuvante para Conceição Senna, esposa do diretor Orlando Senna. O longa foi filmado em 16mm para a emissora de TV alemã Zweites Deutsches Fernsehen (ZDF), antes de ter a versão para o cinema. A restauração digital em 4K partiu dos negativos originais de imagem e do magnético de som da versão alemã, preservados nos arquivos da ZDF. Exibido agora com um corte de quatro minutos em relação à versão apresentada no Festival de Cannes em 1976, ampliada para 35mm. A restauração de imagem e digitalização das matrizes ocorreu no laboratório Cinegrell, em Berlim, e a restauração de som deu-se nos estúdios JLS de São Paulo, ocorridas entre junho e setembro de 2024. As matrizes digitais de preservação foram feitas pela Cinemateca Brasileira e serão conservadas lá. Assim que a restauração foi concluída, o filme teve a primeira exibição dessa nova cópia no Festival do Rio, em outubro de 2024, e esse ano ele voltou para o Festival de Berlim, para a edição comemorativa do filme. É essa a versão final que está nos cinemas agora, com belíssima imagem, na metragem de 91 minutos. Distribuição nas salas pela Gullane+.
 
Iracema – Uma transa amazônica (Idem). Brasil/ Alemanha Ocidental/ França, 1974, 91 minutos. Drama. Colorido. Dirigido por Jorge Bodanzky e Orlando Senna. Distribuição: Gullane+ (nos cinemas)


 
Lobisomem
 
Estreou semanas atrás no Prime Video, depois de passar nos cinemas em janeiro, essa boa e muito curiosa revisão da clássica história de ‘Lobisomem’, que já teve inúmeras versões para cinema. Agora, o diretor Leigh Whannell muda o tom, passando do terror visual para um horror psicológico, tocando em temas humanos sérios, como paternidade e casamento em crise. Cinco anos atrás Whannell já havia revisitado outra história pertencente ao horror clássico, com ‘O homem invisível’ (2020), em que bem tratou sobre violência doméstica. Nesse agora mito moderno, conhecemos uma família que viaja para as montanhas remotas do Oregon para passar um final de semana – o marido, a esposa e a filha. Trinta anos antes, um homem desapareceu numa trilha daquela região, e, segundo lendas locais, ele reaparece de vez em quando, escondido nas matas, após ter contraído uma doença chamada ‘Febre das colinas’, que deixou seu rosto com cara de lobo. A família está instalada na casa do pai de Blake (Christopher Abbott). A esposa, Charlotte (Julia Garner), e a filha, Ginger (Matilda Firth), ficam receosos quanto ao local abandonado, sem ninguém por perto. Até que numa noite, Blake é atacado por algo estranho na estrada – ele fica ferido, e pouco a pouco algo maligno toma conta de seu corpo, aguçando seus ouvidos e seu faro. Com apenas três atores em cena e uma abertura em flashback, o filme constrói um novo ponto de vista sobre a notória história de lobisomem, aqui mais realista e menos sanguinária do que conhecemos. E que trata de algo além do mero terror passatempo. Tem clima de tensão e angústia, com os personagens aprisionados numa casinha antiga, os ruídos que vem de fora, à noite, dão arrepios, e alguns jumpscares complementam os momentos mais intrigantes do longa. Boa parte da crítica detestou o filme, e eu fui contra a corrente – gostei muito, revi essa semana no Prime e indico para quem aprecia obras do gênero.
 
Lobisomem (Wolf man). EUA/Irlanda/Nova Zelândia, 2025, 103 minutos. Terror/Drama. Colorido. Dirigido por Leigh Whannell. Distribuição: Universal Pictures (no streaming)


 
Heart eyes
 
Comédia de terror que parodia um dos slasher movies mais cultuados e conhecidos do cinema, ‘Dia dos Namorados macabro’ (1981), que trazia um assassino usando máscara de minerador matando jovens no Dia dos Namorados. Sem título em português, ‘Heart eyes’ recupera a ambientação do citado longa oitentista para fazer um terrir escrachado e propositalmente cafona, que satiriza os filmes de serial killer. Todos os anos, um criminoso apelidado pela imprensa de ‘Assassino de olhos de coração’ ataca jovens casais no Dia dos Namorados. A polícia está de vigia para a próxima data comemorativa. Como era de se esperar, corpos começam a aparecer, mutilados pelo perverso psicopata que veste roupa de couro preta e uma máscara com olhos em formato de coração. A paz da cidade é abalada com o rastro de crimes, os casais apaixonados ficam em estado de atenção, enquanto o sangue corre solto. Como é uma brincadeira em cima de longas slashers, as mortes são brutais, cheias de invenção, e fica no ar a pergunta para desvendarmos: quem é o assassino por trás daquilo tudo? No elenco, Mason Gooding (filho de Cuba Gooding Jr), de Pânico (2022), e Olivia Holt, de ‘Somos todos iguais’ (2017), interpretam os protagonistas, e há participação de nomes conhecidos, como a descendente de brasileiros Jordana Brewster, da franquia ‘Velozes e furiosos’, e Devon Sawa, de filmes de terror dos anos 2000, como ‘Premonição’ (2000). Roteiro e produção de Christopher Landon, das partes 1 e 2 de ‘A morte te dá parabéns’ (2017 e 2019), e direção de Josh Ruben, que fez outra sátira de filmes de terror anos atrás, ‘Um lobo entre nós’ (2021). Disponível para aluguel no Prime e no Google Play.
 
Heart eyes (Idem). EUA/Nova Zelândia, 2025, 97 minutos. Terror/Comédia. Colorido. Dirigido por Josh Ruben. Distribuição: Sony Pictures (no streaming)

segunda-feira, 28 de julho de 2025

Estreias da semana – Nos cinemas e no streaming

 
 
O brilho do diamante secreto
 
Uma deliciosa homenagem ao cinema vibrante de espionagem e filmes B de assalto dos anos 60, principalmente aqueles feitos na Itália e na França, com clara semelhança a ‘Perigo: Diabolik’ (1968), de Mario Bava. Sensual, engraçado, todo em cortes enérgicos repletos de closes e uma fotografia estonteante, o estilizado filme estreou na semana passado nos cinemas pela Pandora Filmes, após ser exibido esse ano no Festival de Berlim, onde concorreu ao Urso de Ouro. Ambientado na elegante Riviera Francesa (Côte d’Azur), traz a história de um espião aposentado que está em um hotel de luxo aguardando seus últimos dias. Sempre de costas para a câmera, bebendo e fumando, rapidamente entra em cena para investigar o desaparecimento de uma vizinha. Tomado por lembranças, algumas reais, outras puro delírio, ele enfrentará perigosos assassinos, numa busca incessante que envolve até roubo de diamantes. Com todos os clichês propositais do gênero para construir esse universo explosivo, colorido e agitado do cinema Eurospy, tem uma narrativa nada convencional, uma estética ousada em cores, com mistura de flashbacks e flashforwards a todo momento. São pouquíssimos diálogos, uma abundância de cortes abruptos e uma trilha sonora que remetem a esse cinemão popular. No elenco, o veterano ator italiano Fabio Testi, de 83 anos, nome forte do western spaghetti, como ‘Os quatro do apocalipse’, como o protagonista na fase adulta, e participação da atriz portuguesa Maria de Medeiros. Dirigido pela dupla Hélène Cattet e Bruno Forzani, de ‘A estranha cor das lágrimas do seu corpo’ (2013), é um dos lançamentos mais diferenciados deste ano nos cinemas.
 

 
Ponto oculto
 
Depois da estreia adiada por um mês, chega aos cinemas do Brasil o drama com suspense alemão falado em quatro línguas (alemão, turco, curdo e inglês), rodado na Turquia em 2021, durante a pandemia, e só lançado em festivais e no circuito em 2023. Com roteiro e direção da premiada cineasta Ayşe Polat, o longa venceu 15 prêmios internacionais e foi exibido na seção Encounters do Festival de Berlim. É uma história trágica, de tensão psicológica crescente, sobre um grupo de indivíduos levado ao extremo em uma conspiração no nordeste da Turquia. A trama é fragmentada em capítulos, com vários personagens em destaque, como uma equipe de cinegrafistas alemães gravando um documentário numa vila de curdos, povo que é constantemente alvo de massacres lá, uma tradutora que também é babá, um agente policial amargurado que trabalha numa organização misteriosa, e a filha dele, uma menina que tem um olhar clínico diferenciado da realidade. Cercados pela paranoia, todos são acometidos por algo que está por vir, refletindo num passado não resolvido. A diretora, nascida na Turquia e radicada na Alemanha, de ‘En Garde’ (2004), trata aqui de questões que sempre a preocuparam, como repressão política e os conflitos étnicos numa região de instabilidade social da Turquia. Os personagens que ela cria são figuras fortes, que incomodam e nos faz refletir. Não é uma obra de linguagem fácil, os capítulos aos poucos se conectam, culminando em um desfecho amargo e imprevisível. Distribuído nos cinemas pela Pandora Filmes.
 

 
Os sinos da noite
 
Lançamento da semana no canal do Youtube do CPC-Umes Filmes, gratuito até dia 28, o longa soviético ganhador de três prêmios no Festival de Berlim está disponível numa boa cópia restaurada pela Mosfilm. Foi o último trabalho do diretor Vasiliy Shukshin (1929-1974), que morreu aos 45 anos de problemas cardíacos, meses depois do lançamento, em 1974. Roteirista de mais de 30 filmes, ele dirigiu apenas cinco, e esse é o mais conhecido da sua rápida carreira – ele também é ator, e aqui interpreta o protagonista. É uma comédia dramática em estilo teatral, com atores em poucos ambientes – quase tudo ocorre numa casinha antiga de um vilarejo. A história acompanha um homem de origem pobre que acaba de sair da cadeia após cumprir pena. Yegor Prokudin (Vasiliy Shukshin) tenta se estabilizar na sociedade, é um cidadão gentil e preocupado com os outros. Decide viajar até uma vila remota onde se aproxima da camponesa Lyuba (Lidiya Fedoseeva-Shukshina, que era esposa de Vasiliy), com quem trocava cartas na cadeia. É bem recebido pela numerosa família da mulher, muitos deles anciãos, que o abrigam com zelo e carinho. Yegor inicia um relacionamento com Lyuba e sente prazer em morar na área rural. Até que decide resolver velhas questões que sempre o assombraram, como rever a mãe, hoje idosa, com quem não fala desde criança e reencontrar antigos amigos. Filme popular na antiga União Soviética, vale ver agora no canal da CPC-Umes, que mantém vivo esse projeto de exibição de clássicos restaurados - semanalmente eles lançam um título raro no canal Youtube, de forma gratuita, em https://www.youtube.com/@cpc-umesfilmes23

sábado, 26 de julho de 2025

Estreias no streaming


Novidades no Prime Video
 

Y2K – O bug do milênio
 
Na virada do ano de 1999 para 2000, um grupo de amigos adolescentes se reúne na casa de um deles para uma balada. Eles temem o ‘Bug do milênio’, que, segundo notícias por aí, causaria uma pane mundial no sistema informacional. Quase perto da madrugada, um estranho acontecimento faz com que produtos eletrônicos e robôs tenham vida, passando a atacar um a um naquela festa.
 
Divertido filme terrir scifi, na verdade uma brincadeira em torno do ‘Bug do milênio’, uma sensação estranha que rondou o mundo na virada do ano de 1999 para 2000, influenciado por superstição e fake News da época - havia um grande temor na virada daquele ano de que poderia ocorreu uma pane mundial no sistema de informação e computação, que causaria apagões e desordem global. Em cima dessa ideia, o filme se faz – aqui, um grupo de amigos adolescentes se prepara para o Ano Novo. Eles vão para uma festinha agitada na casa de um deles. Há ali duas dezenas de pessoas, amigos que zoam, brincam e dançam. Eles estão preocupados com o tal bug. Até que um rápido piscar de luzes faz com que os eletrônicos da casa adquiram vida própria; computadores se movem, um liquidificador sai voando e ataca os jovens, robôs e carrinhos movidos a pilha são possuídos, matando um a um. O lugar se torna um palco de mortes sanguinárias, e quatro deles conseguem escapar para uma floresta ao lado. A cidade está sob apagão, tudo escuro. Atrás deles aparece um robozão feito de carcaças de computador, ferro-velho e uma parte com eletrônicos em pleno funcionamento, que os persegue em todo canto. Um filme teen engraçado e ao mesmo tempo sanguinário, que provoca nostalgia ao lembrar as tecnologias daquele período, como mídias portáteis, CDs e CPUs. O ‘Y2K’ significa ‘Year 2000’ (Ano 2000), um dos apelidos do ‘Bug do milênio’. A indicada ao Globo de Ouro Rachel Zegler, de ‘Branca de Neve’ (2025), e os atores de rosto conhecido do público Jaeden Martell e Julian Dennison estão no elenco central. Exibido no festival SXSW, a produção independente passou nos cinemas americanos no ano passado e aqui no Brasil chegou esse mês no Prime Video. Da distribuidora A24, que lança bons filmes independentes.
 
Y2K – O bug do milênio (Y2K). EUA/Nova Zelândia, 2025, 91 minutos. Comédia/Terror. Colorido. Dirigido por Kyle Mooney. Distribuição: Universal Pictures/ Prime Video (no streaming)
 
 
Ennio, o maestro
 
Documentário sobre a carreira do lendário maestro italiano e compositor de trilhas sonoras de cinema Ennio Morricone.
 
Grandioso documentário musical sobre o compositor de trilhas sonoras de cinema Ennio Morricone (1928-2020), uma coprodução Itália, Bélgica, Países Baixos e Japão, de 156 minutos, disponível no Prime Video. O diretor italiano Giuseppe Tornatore, que trabalhou com Morricone em ‘Cinema Paradiso’ (1988), realiza uma obra única, uma homenagem a um dos maiores nomes da música de cinema. Também maestro e arranjador, Morricone escrevia músicas como poesia, com facilidade para as partituras e melodias. Há um vasto material de arquivo, com entrevistas antigas e recentes de Morricone, parte delas exclusivas para o documentário que não viu sair – ele faleceu em 2020, e um ano depois o filme seria lançado no Festival de Veneza. Dão depoimentos especiais para o filme compositores de cinema como Nicola Piovani, John Williams e Hans Zimmer, diretores com quem trabalhou, como Giuliano Montaldo, Lina Wertmüller, Roland Joffé, Bernardo Bertollucci, Roberto Faenza, Dario Argento, os irmãos Taviani e Quentin Tarantino, e cineastas admiradores, como Wong Kar-Wai e Clint Eastwood. Com cenas de seus filmes, Morricone fala sobre o processo de criação das músicas a partir de storyboards, como pensa e escreve as trilhas, a dedicação intensa – ele chegou a compor, pasmem, trilhas para 18 filmes diferentes em apenas um ano! A primeira parte do doc traz um lado menos conhecido dele, quando regia músicas italianas populares nos anos 60, para cantores como Paul Anka, Edoardo Vianello, Miranda Martino e Jimmy Fontana. Na segunda parte, o foco é o cinema. O filme é uma aula de música, com o compositor contando passo a passo para a produção de dezenas de músicas de longas-metragens, da Trilogia dos Dólares, passando pelo cinema político italiano dos anos 70 até chegar aos últimos trabalhos na metade dos anos 2010. Segundo o IMDB, 548 composições são atribuídas a Morricone, para filmes e séries. Imortalizou trilhas que não ficaram só no cinema, caindo no gosto popular e até hoje tocadas por aí, como ‘Era uma vez no Oeste’ (1968), ‘Era uma vez na América’ (1984), ‘A missão’ (1986) e ‘O intocáveis’ (1987). O doc ganhou três prêmios David di Donatello, o Oscar italiano, nas categorias edição, documentário e som. Assistam.
 
Ennio, o maestro (Ennio). Itália/Bélgica/Países Baixos/Japão, 2021, 156 minutos. Documentário. Colorido/Preto-e-branco. Dirigido por Giuseppe Tornatore. Distribuição: Prime Video (no streaming)

terça-feira, 22 de julho de 2025

Nota de Cinema

 
Cine Debate exibe cópia restaurada de clássico brasileiro
 
Em parceria com o Projeto Cinesesc, o Cine Debate do Imes Catanduva exibe a cópia restaurada de 40 anos do clássico brasileiro ‘A hora da estrela’ (1985), que voltou aos cinemas no início de 2025. Adaptação do livro de Clarice Lispector, o filme foi premiado nos festivais de Havana e Brasília e deu para a atriz Marcélia Cartaxo o prêmio de atuação feminina no Festival de Berlim – no mesmo festival, o longa ganhou dois outros prêmios especiais. A sessão será no próximo sábado, dia 26/07, a partir das 14 horas. É gratuita e aberta ao público, na sala de ginástica do Sesc Catanduva. A mediação do debate será feita pelo idealizador do Cine Debate, o jornalista, professor do Imes e do Senac e crítico de cinema Felipe Brida.
 
Sinopse: Macabéa é uma jovem órfã que sai do Nordeste para tentar a vida em São Paulo, onde encontra sua primeira paixão, Olímpico. Também irá encontrar pelo caminho inesperadas adversidades.




 
Cine Debate
 
O Cine Debate é um projeto de extensão do curso de Psicologia do IMES Catanduva em parceria o SESC e o SENAC Catanduva. Completa 13 anos em 2025 trazendo filmes cult de maneira gratuita a toda a população. Conheça mais sobre o projeto em https://www.facebook.com/cinedebateimes

Especial de Cinema

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