Atentado em Oklahoma: Terror nos EUA
terça-feira, 6 de maio de 2025
Estreias da semana – Nos cinemas e no streaming - Parte 2
Atentado em Oklahoma: Terror nos EUA
Estreias da semana – Nos cinemas - Parte 1
Uma família normal
Best seller do escritor
holandês Herman Koch,
publicado em 2009, ‘O jantar’ rendeu quatro versões para cinema, produzidas em
países diferentes: ‘Het diner’ (2013), na Holanda; ‘Os nossos meninos’ (2014),
na Itália; ‘O jantar’ (2017), nos Estados Unidos - essa com Richard Gere e
Laura Linney, e a mais recente, ‘Uma família normal’ (2023), na Coreia do Sul,
que acaba de chegar aos cinemas brasileiros. A adaptação mantém o suspense
crescente, o ritmo e a frieza da obra literária, uma trama tensa, que guarda
surpresas e nos deixa sem fôlego. Dois irmãos e suas respectivas esposas costumam
jantar juntos na casa luxuosa de um deles. Um dia, o encontro será diferente,
pois sentarão à mesa para discutir o que será feito com seus filhos, após eles,
que são primos, serem acusados pela polícia de um crime bárbaro. Uma câmera de vigilância
flagrou os adolescentes espancando um andarilho na rua, a notícia caiu na
mídia, e a vítima está entubada no hospital, em estado grave. Os irmãos são um
advogado rico, que aceita qualquer negócio para livrar a filha da acusação, e o
outro, um médico pediatra de moral inabalável, que não sabe como proceder com o
garoto, que está bastante abalado. As esposas não se entendem, e a relação das
duas famílias vai se degradando a ponto de desdobramentos violentos. Surpreendei-me
com essa versão sul-coreana, assim como gosto muito de ‘O jantar’ com Richard
Gere. É um thriller sem imprevisível, sem clichês, tudo é marcado pela tensão e
reviravoltas que incomodam, com personagens repletos de camadas, marcados por
dilemas morais. Exige atenção do começo ao fim, principalmente nos diálogos. O
filme teve estreia mundial no Festival Internacional de Cinema de Toronto em
setembro de 2023, depois em festivais asiáticos, como Taipei, e agora em
cinemas do mundo todo. Um verdadeiro acerto do diretor Hur Jin-ho, cuja
carreira é marcada por dramas românticos pessoais, como ‘Neve de abril’ (2005)
e ‘Felicidade’ (2005). Nos cinemas pela Pandora Filmes.
sábado, 3 de maio de 2025
Especial de cinema
Filmes em DVD e Bluray - Clássicos e Lançamentos
Confira 3 resenhas especiais de filmes lançados recentemente pela distribuidora Obras-primas do Cinema.
Turista alemã nos Estados Unidos, Jasmin (Marianne Sägebrecht) é abandonada pelo marido no meio do deserto de Mojave, no Arizona. Perdida, com malas nas mãos, no calorão da região inóspita, dirige-se a uma espelunca à beira da estrada, um posto-motel chamado ‘Bagdad Café’. Aos poucos fica amiga da proprietária, uma mulher de temperamento forte e deprimida, que vive brigando com a família, Brenda (CCH Pounder). Com o correr dos dias, as duas mulheres revitalizam a cafeteria, que deixa de ser um lugar velho e sujo, e é reaberto com pompa, cores e brilho, atraindo mais clientes.
Indicado ao Oscar de melhor canção em 1989, com a música ‘Calling you’, que fez sucesso, cantada por Jevetta Steele, que depois se dedicaria à música gospel, o drama sentimental, íntimo e muitíssimo feminino é um dos filmes da minha vida. Na infância, tinha o filme em VHS de uma coleção da revista Caras e revia sempre que possível. Aquela história surpreendente de duas mulheres solitárias isoladas numa espelunca à beira da estrada, apresentadas de maneira humana e sensível, aquela fotografia estourada de um amarelo precioso do deserto, tudo me causava deslumbramento. Ainda hoje causa, pois a fita de arte continua belíssima e adorável, um dos grandes cult movies dos anos 80 que, depois, seria até cultuado na TV com sessões na rede aberta. Ganhou o César de filme estrangeiro, tem uma mistura de humores, ora terno e engraçadinho, ora melancólico, tudo funcionando graças ao trabalho magistral das atrizes centrais. Do cineasta alemão recém-falecido Percy Adlon (1935-2024), que fez três filmes com a atriz Marianne Sägebrecht, ‘Estação doçura’ (1985), ‘Bagdá Café’ (1987) e ‘Rosalie vai às compras’ (1989) – ela depois faria filmes americanos, como ‘A guerra dos Roses’ (1989), e aqui faz o papel principal, Jasmin, que é abandonada pelo marido no meio do deserto de Mojave. CCH Pounder é um rosto conhecido, uma atriz de primeira linha, que fez séries e filmes aos montes, e interpreta Brenda, a mulher de temperamento forte, briguenta, dona da cafeteria. As duas, juntas, apesar de serem diferentes – uma branca de classe média toda certinha e tímida, a outra negra pobre com filhos pendurados, com a vida bagunçada e muito explosiva, aos poucos se completam naqueles dias vazios e solitários, a ponto de reerguerem a cafeteria com poucos recursos, tornando-se sócias.
Na época, foi filmado numa cafeteria verdadeira chamada Sidewinder Café, que depois do longa mudou de nome, para ‘Bagdá Café’, situada em Newberry Springs, no deserto de Mojave, na California. O drama foi rodado em 28 dias apenas. Há muito tempo atrás saiu em DVD em edição de banca, e recentemente saiu pela Obras-primas do Cinema, na versão integral alemã, de 108 minutos, bem melhor que a versão americana de cinema, de 95 minutos, e ainda mais numa cópia restaurada – conheçam essa versão que está com uma imagem de tirar o chapéu, além de conferir no DVD 50 minutos de extras.
Bagdad Café (Bagdad Cafe/ Out of Rosenheim). Alemanha, 1987, 108 minutos. Drama. Colorido. Dirigido por Percy Adlon. Distribuição: Obras-primas do Cinema
O menino e a garça
O garoto Mahito perde a mãe durante a guerra e sofre o luto. Sua família se muda então para o campo, num lugar tranquilo cercado por bosques e riachos. Num passeio, cruza com uma garça misteriosa que o leva a uma antiga torre, e os dois adentram ali a um mundo mágico com humanos, bichos e criaturas fantásticas.
O garoto Mahito perde a mãe durante a guerra e sofre o luto. Sua família se muda então para o campo, num lugar tranquilo cercado por bosques e riachos. Num passeio, cruza com uma garça misteriosa que o leva a uma antiga torre, e os dois adentram ali a um mundo mágico com humanos, bichos e criaturas fantásticas.
Em junho o Studio Ghibli completa 40 anos, um estúdio de cinema responsável por grandes clássicos de animação japonesa, como ‘O castelo no céu’ (1986), ‘Meu amigo Totoro’ (1988), ‘Porco Rosso’ (1992), ‘A viagem de Chihiro’ (2001 – vencedor do Oscar), ‘Ponyo – Uma amizade que veio do mar’ (2008) e tantos outros. O líder por trás disso tudo é Hayao Miyazaki, diretor desses filmes mencionados e que está na ativa aos 83 anos – ele havia anunciado a aposentadoria, mas voltou atrás e realizou ‘O menino e garça’ (2023), uma animação grandiosa, que funciona para crianças, jovens e adultos. Aliás, os animes do Studio Ghibli nunca foram apenas para os pequenos, já que suas histórias atingem uma dimensão existencial, com personagens em conflitos universais, como os horrores da guerra, construção da identidade, orfandade, luto, o primeiro amor etc.
O menino e a garça (Kimitachi wa dô ikiru ka/The boy and the heron). Japão, 2023, 124 minutos. Animação. Colorido. Dirigido por Hayao Miyazaki. Distribuição: Obras-primas do Cinema
Monster
Saori (Sakura Andô) é uma mãe solo que mora com o filho pré-adolescente, Minato (Soya Kurokawa). Percebe que o menino anda angustiado, conversando pouco, mas ele não fala sobre seus sentimentos. Ao descobrir que um professor, Sr. Hori (Eita Nagayama), pode estar envolvido com esse estranho comportamento de Minato, Saori vai até a escola. A partir de uma reunião com a diretora, Sra. Makiko (Yûko Tanaka), três histórias tensas e dramáticas serão construídas a partir do passado de quatro personagens: Minato, do novo colega de classe dele, Yori (Hinata Hiiragi), de Sr. Hori e da Sra Makiko.
Pré-selecionado para representar o Japão como melhor filme estrangeiro no Oscar 2024, ‘Monster’, infelizmente, ficou fora da lista final – e quem representou o país oriental na Academia foi ‘Dias perfeitos’ (2023), do alemão Wim Wenders, filmado no Japão, um trabalho muito bonito. Dirigido pelo excepcional cineasta japonês Hirokazu Koreeda, um mestre da linguagem, realizador de pequenas obras-primas contemporâneas como ‘O que eu mais desejo’ (2011), ‘Pais e filhos’ (2013) e o ganhador da Palma de Ouro ‘Assunto de família’ (2018), ‘Monster’, para mim, é o longa mais brilhante desse diretor que sabe contar histórias misturando drama e humor, que toca na alma e às vezes causa tensão e surpresa. É o seu trabalho mais pessoal e humano, um filme emocionante que narra quatro histórias dentro de um mesmo contexto, que envolvem temas delicados, como bullying na escola, amadurecimento na adolescência, pré-julgamento/falsas acusações e conflitos de mãe e filho. Nos primeiros minutos do filme, uma tragédia ocorre dentro de um carro em movimento, e a partir dessa cena, que faz parte da metade da trama, o filme vai e volta, trazendo o passado de personagens marcados por traumas e seus pontos de vista – o adorado professor de uma escola, um garoto pré-adolescente e sua forte relação com o novo amigo de classe, uma mãe solo desesperada em busca de saber os motivos da mudança de comportamento do filho e a diretora escolar que guarda tristes segredos. Aos poucos vamos entendendo a complexidade de suas vidas e vemos de perto a rotina dessas pessoas. Inteligente, bem escrito e com uma edição primorosa que sabe cortar de uma historieta para outra, o drama tem ecos de ‘Rashomon’ (1950), de Akira Kurosawa, que trata do ponto de vista de quatro personagens frente a um assassinato na floresta. ‘Monster’ é para ver e rever, até porque são vários detalhes que numa primeira assistida podem passar despercebidos – eu o assisti na estreia nos cinemas em SP em novembro de 2023, depois revi duas vezes. Indicado à Palma de Ouro em Cannes, ganhou dois prêmios no festival, de melhor roteiro e o Queer Palm (entregue a filmes com temática LGBTQIAPN+).
A trilha sonora é um
primor, extasiante, último trabalho do premiado compositor japonês Ryuichi
Sakamoto (1952-2023), ganhador do Oscar pela trilha de ‘O último imperador’
(1987) e que assina o soundtrack de um dos filmes da minha vida, o drama de
guerra japonês/britânico ‘Furyo: Em nome da honra’ (1987). Lançado em DVD e
Bluray pela Obras-primas do Cinema em parceria com a Imovision – em ambas as
versões em mídia física há 1h30 de materiais extras, como making of e
bastidores. Também pode ser assistido na plataforma do Reserva Imovision.
Monster (Kaibutsu). Japão, 2023, 127 minutos. Drama/Suspense. Colorido. Dirigido por Hirokazu Koreeda. Distribuição: Obras-primas do Cinema e Imovision
Monster (Kaibutsu). Japão, 2023, 127 minutos. Drama/Suspense. Colorido. Dirigido por Hirokazu Koreeda. Distribuição: Obras-primas do Cinema e Imovision
sexta-feira, 2 de maio de 2025
Especial de Cinema
Cinema Neo-noir
A Versátil Home Video acaba de lançar no mercado, em DVD, três boxes com filmes policiais e neonoir dos anos 90, contendo ao todo 18 longas-metragens - fotos abaixo. São eles 'Cinema policial Anos 90 - vol. 2', 'Cinema policial Anos 90 - vol. 3' e 'Filme Noir - Neonoir anos 90'. Dentre os filmes que compõem as caixas estão 'Jogo perverso' (1990), com Jamie Lee Curtis; 'Os imorais' (1990), com Anjelica Huston; 'Rush - Uma viagem ao inferno' (1991), com Jason Patric; 'O dono da noite' (1992), com Willem Dafoe; 'A testemunha ocular' (1992), com Joe Pesci; e 'Ligadas pelo desejo' (1996), com Jennifer Tilly. Em todos os boxes em DVD há quase duas horas de materiais extras. A Versátil também lançou um livro temático, 'Neo-noir- Filmes essenciais', com 72 páginas. Nele há 14 textos escritos por jornalistas e críticos de cinema convidados - um deles é o meu, sobre o filme 'Morte por encomenda' (1993), que segue abaixo, na íntegra.
'Red Rock – A cidade do engano'
Deserto de Wyoming. Mike (Nicolas Cage, de ‘Despedida em Las Vegas’) acorda dentro de um carro velho à beira da estrada. Desorientado, está no banco do motorista, no meio do nada. Ele sai do automóvel, veste-se, corta a barba num cocho e faz flexões na pista onde não passa um veículo sequer. Volta para o carro e parte em direção a um campo de extração de petróleo, para uma entrevista de emprego. Mike contava com o trabalho, no entanto é dispensado por ter uma deficiência na perna, que o impede de se locomover com rapidez. Viaja então para uma cidade vizinha, localizada a 80 quilômetros a oeste, Red Rock, que possui cerca de 1500 habitantes.
Na primeira cafeteria que avista, entra e é recebido no balcão pelo proprietário, Wayne Brown (J.T. Walsh, de ‘Breakdown: Implacável perseguição’). Ao conversar com Mike, Wayne o confunde com um matador de aluguel que teria sido contratado por ele, por telefone, para matar sua esposa; Mike afirma ser ele o tal cidadão, fingindo ser o cara que era para ter chegado lá há dias e não apareceu. Como precisa de grana, aceita cometer o assassinato, que vale 10 mil dólares. O plano aparentemente dará certo, Mike recebe metade em dinheiro vivo, e passa a seguir os passos da mulher de Wayne em seu rancho particular – ela se chama Suzanne (Lara Flynn Boyle, de ‘Quanto mais idiota melhor’). Mike invade a fazenda, e quando Suzanne chega, aborda a mulher com uma arma. Em vez de matá-la, para para ouvir a contraproposta dela – Suzanne oferece o dobro para Mike matar o marido. Sem pairar qualquer dúvida, aceita. Só que resolve fugir num estalo com o dinheiro, sem matar ninguém. No caminho, atropela um homem, e um carro que vem atrás estaciona para ajudar Mike. Do veículo sai o verdadeiro matador de aluguel, Lyle, de Dallas (Dennis Hopper, de ‘Sem destino’), um homem que fala muito e se veste de maneira excêntrica – e atrasado para seu serviço. Mike aceita a ajuda, jamais imaginando quem seria aquela pessoa. Já é tarde da noite, Lyle dá carona para Mike e leva-o a um bar. O rapaz, que só queria fugir com a dinheirama, leva um choque com uma dupla surpresa: descobre que Wayne, além de ser dono dos cafés e dos bares da cidadezinha, inclusive o bar em que está, é xerife do local, que manda e desmanda, e que Lyle é o indivíduo que ele fingiu ser. A partir daí, Mike se complica, restando a ele escapar daquele lugar tomado pela corrupção e violência.
‘Morte por encomenda’ (1994) foi um ponto alto na carreira do cineasta norte-americano John Dahl, que começou dirigindo videoclipes nos anos 80, depois teve uma fase com longas-metragens policiais e de suspense entre os anos 90 e 2000 – muitos deles neonoir – e de 2005 até hoje apenas dirigindo séries televisivas e telefilmes.
Dahl entende o cinema noir e escreve roteiros com estilo e vigor. Dos sete filmes que dirigiu, cinco orbitam o universo neonoir – o longa de estreia, “Mate-me outra vez” (1989, com Val Kilmer e Joanne Whalley), sobre um rapaz que se envolve com uma mulher fatal e tem de fugir tanto de um assassino quanto de mafiosos; seu segundo filme, “Morte por encomenda” (1993); “O poder da sedução” (1994, com Linda Fiorentino e Bill Pullman), sobre uma mulher sensual que rouba um dinheiro escuso de bandidos e foge em busca de uma vítima para seu novo plano; “Inesquecível” (1996, com Ray Liotta e Linda Fiorentino) - um policial noir com ficção científica, sobre um suspeito de ter matado a esposa que faz uma experiência médica para estudar as memórias da falecida; e “Cartas na mesa” (1998, com Matt Damon e Edward Norton), a história de um ex-jogador de pôquer que, para ajudar um amigo que saiu da cadeia, volta aos jogos a fim de recuperar um dinheiro perdido. Grande parte desses filmes de Dahl trazem elementos fundamentais do neonoir, o noir moderno, como mulheres fatais (a figura clássica da Femme fatale tem no neonoir variações, como mulheres perdidas, abandonadas ou viciadas, não necessariamente envolvidas com crime e que de certa maneira empurram os homens para situações de risco); protagonistas fragilizados (por problemas financeiros, dependência de drogas ou bebida, desempregados, atormentados por erros do passado ou traídos pela esposa), que agem de maneira inconsequente e por vezes violenta, portanto, carimbados como anti-heróis; um clima austero de decadência moral; ambientes marginais onde há corrupção e o crime; reviravoltas que negam ou distorcem os acontecimentos até então apresentados; desfechos trágicos. O neonoir é uma inspiração/adaptação do estilo noir francês e americano que retorna a Hollywood com brilhantismo a partir dos anos 80 e produzido com frequência até o fim dos anos 90 – nas décadas o neonoir ainda aparece, é uma ideia de cinema que nunca morreu. Em seu livro ‘Neo-noir: Contemporary film noir from Chinatown to The Dark Knight’ (2010), Douglas Keesey destaca que os componentes do velho cinema noir, como os de filmes de gângsters, migrou para o cinema policial, de suspense e de serial killers nos anos 80e décadas seguintes, fazendo surgir híbridos como psico-noir, visto em ‘Amnésia’ (2000), tecno-noir, em ‘Matrix’ (1999), e superhero noir, em ‘Sin City: A cidade do pecado’ (2005) e ‘Batman - O cavaleiro das trevas’ (2008). O neonoir, segundo Keesey, traz novas discussões para o mundo contemporâneo, ampliando os dilemas dos personagens que enfrentam outros conflitos em um mundo em rápida e plena transformação.
Em ‘Morte por encomenda’, Dahl abre a caixa de ferramentas do noir realizando um filme policial sólido, com personagens fortes, todos eles imbricados no crime, colocados contra a parede, em situações de desespero, e com pouca possibilidade de sobrevivência: do rapaz desempregado que monta uma farsa para se dar bem passando pelo xerife sem escrúpulos, chegando até a mulher que guarda segredos e seria alvo de tiros e finalizando com o matador de aluguel de vestes extravagantes. Os quatro personagens representam o colapso, a crise, a imoralidade, o desajuste na sociedade.
Há em ‘Morte por encomenda’ subtramas que requerem atenção, como a de Kurt, um rancheiro baleado, o affair entre Mike e Suzanne e o caso do roubo milionário à siderúrgica.
O filme tem conexões com outros dois neonoir primorosos lançados em 1981, ‘O destino bate à sua porta’ (de Bob Rafelson) e ‘Corpos ardentes’ (de Lawrence Kasdan) – o primeiro é a versão do noir clássico de 1946. E claro, com ‘Gosto de sangue’ (1984), dos irmãos Coen. Nesses três longas, há um plano infalível e aparentemente fácil de assassinato, em que o marido contrata para alguém matar a esposa ou vice-versa. Mas nenhum crime é perfeito, sempre alguma pista é deixada para trás...
Nos filmes noir e neonoir, e em ‘Morte por encomenda’ não seria diferente, os personagens estão esgotados da vida, vivem a chamada ‘Síndrome do Cansaço do Mundo’, em inglês ‘World-weary Syndrome’, querem sumir, precisam de algo que os motivem pelo menos por um momento. Também em ‘Morte por encomenda’ há a figura do ‘homem errado’, que as vezes aparece no noir e, só para destacar, foi uma recorrência no cinema de Hitchcock – Mike, papel de Nicolas Cage, é o homem ferrado, que se aproveita da ocasião para se passar por um assassino e pegar uma boa grana, porém a ideia será um inferno. Ele é um típico anti-herói, que engana os outros, se engana e se corrompe.
A parte técnica do filme abrilhanta o roteiro – há uma curiosa mescla de ‘temperaturas’ com cores opostas, que vai do amarelo quente do deserto ao azul enevoado na perseguição na floresta e também no fascinante desfecho no cemitério.
Rodado no Arizona, com orçamento de U$ 8 milhões, repercutiu no cinema alternativo, exibido no Festival de Toronto e indicado em duas categorias ao Film Independent Spirit Awards, de direção e roteiro. Aliás, o roteiro foi elaborado por John Dahl ao lado do irmão, Rick Dahl - Rick só escreveu esse filme, foi assistente de diretor do irmão em ‘Mate-me outra vez’ (1989) e fez a produção executiva com ele de ‘Inesquecível’ (1996).
* Felipe Brida é jornalista, crítico de cinema e professor. Nascido e residente em Catanduva (SP), é autor do livro “Cinema em Foco: Críticas selecionadas” (2013). Mantém o blog Cinema na Web (de sua autoria, criado em 2008), além da coluna semanal “Cinema em Foco” (no jornal O Regional) e das colunas mensais “Middia Cinema” (na Revista Middia) e “Top Cinema” (na revista Top). Conduz os quadros semanais “Cinema em Foco” (na rádio Vox FM - Catanduva), “Mais Cinema” (na Nova TV/TV Brasil) e “Palavra do Especialista – Cinema” (na rádio Câmara de Bauru, em Bauru/SP). É professor de Cinema, Comunicação e Artes no Senac, Fatec e Imes Catanduva e atua como palestrante, júri e curador em festivais de cinema em todo o Brasil. Jornalista formado pela Unirp – São José do Rio Preto, é mestre em Linguagens, Mídia e Arte, pela PUC-Campinas, e tem duas pós-graduações - em Artes Visuais, pela Unicamp, e em Gestão Cultural, pelo Centro Universitário Senac/SP. Colaborou com a Versátil escrevendo em ensaios em dez livros, como “Slashers”, “Cinema policial”, “O cinema da Nova Hollywood” e “Clássicos Sci-fi”.
quinta-feira, 1 de maio de 2025
Cine cult
Sessão dupla ‘Tetsuo’
Teve problemas na produção, já que elenco e equipe abandonaram o set devido ao filme ser bem maluco, que beira uma alucinação. Sombrio, impactante, ganhou duas continuações do mesmo diretor, ‘Tetsuo II: O homem martelo (1992) e ‘Tetsuo: O homem bala’ (2009), e a versão disponível no Brasil em DVD pela Versátil é a de cinema, de 67 minutos – há uma estendida no exterior, de 77 minutos. O ganhador da Palma de Ouro ‘Titane’ (2021), de Julia Ducournau, inspirou-se nesse filme.
Nota do blogueiro
Primeira produção feita 100% no Mato Grosso do Sul, o filme 'Do sul, a vingança' estreia nos principais cinemas brasileiros no dia 15 de maio. Produzida pela Render Brasil e com distribuição da Kolbe Arte, o filme, de baixo orçamento, é finalista no Los Angeles Film Awards 2025 e no World Film Festival, em Cannes. Comédia com faroeste moderno, tem direção de Fábio Flecha, que assina o roteiro ao lado de Edson Pipoca - a história reúne lendas e costumes tradicionais e se passa em um cenário de conflitos na fronteira entre Brasil, Paraguai e Bolívia. Confira abaixo informações sobre o filme divulgadas ontem pela assessoria, como sinopse, ficha técnica, trailer e o pôster oficial.
Sinopse
Em busca de material para seu novo livro, o escritor Lauriano parte para a conturbada fronteira entre Mato Grosso do Sul, Paraguai e Bolívia, onde o crime organizado dita suas próprias leis, em busca de um “Jacaré”. O que começa como uma simples investigação se transforma em uma jornada inesperada, repleta de ação, conflitos e personagens excêntricos. Em meio ao caos de uma vastidão silenciosa e cheia de contrastes, Lauriano mergulha em uma trama tão perigosa quanto cômica — onde sobreviver é o seu maior desafio.
Ficha Técnica
Gênero: Ação / Comédia.
Duração: 107 min.
Direção: Fábio Flecha.
Produção: Render Brasil.
Distribuição: Kolbe Arte.
Elenco: Espedito Di Montebranco (Jacaré), Bruno Moser (Febem), Felipe Lourenço (Lauriano), Leandro Faria (Victor Bautista), Luciana Kreutzer (Dra. Lucia),Victor Samudio (Edson), David Cardoso (Coronel Massada).
Trailer do filme
https://www.youtube.com/watch?v=heGCGxegdFc
segunda-feira, 28 de abril de 2025
Estreias da semana – Nos cinemas e no streaming - Parte 2
O contador 2
Nove anos depois de ‘O
contador’ (2016), um filmaço de ação com Ben Affleck que dava um nó em nossa cabeça,
Gavin O'Connor reuniu a mesma equipe para uma continuação, agora mais excitante.
Mesmo com toda a complexidade da trama e das camadas dos personagens, o filme
de ação e suspense é uma boa surpresa e acaba de estrear nos cinemas
brasileiros pela Warner Bros. O astro Ben Affleck retorna no papel de Christian
Wolff, um contador forense de mente brilhante e métodos nada ortodoxos para resolver
crimes – agora o caso que cai em seu colo é o assassinato de seu ex-chefe (J.K.
Simmons), um estranho crime cometido por bandidos desconhecidos. Ele é
recrutado por uma agente do Tesouro americano (Cynthia Addai-Robinson) e para investigar
as profundezas do caso se une ao irmão distante (Jon Bernthal), um ex-agente policial
especializado em rastrear criminosos. Assim como o original, não é uma fita de consumo
fácil, a história é complexa, trata do mundo das corporações e de negócios escusos,
com muitos diálogos, e poucas, mas caprichadas sequências de ação. A escalação
de elenco está preparada para entrar em jogo, num filme sólido, meticuloso, criativo.
Assinar:
Postagens (Atom)
Resenha especial
Queda livre: A tragédia do Caso Boeing Documentário sobre a investigação do Caso Boeing, que envolveu dois acidentes aéreos da empresa o...
-
. João Ellyas: “Humor é sempre humor. Seja ingênuo ou sacana” (*) Felipe Brida Salim Muchiba, Zé Bento e Mamadinho da Silva. Personagens que...
-
Cine Debate exibe amanhã filme sobre eutanásia com Denise Fraga O Cine Debate, projeto de extensão do Imes Catanduva em parceria com o S...
-
49ª Mostra Internacional de Cinema de SP – Melhores filmes A 49ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo continua até o dia 30 na ca...








































