domingo, 14 de maio de 2023

Resenha Especial


Resenha do filme "Quem matou Rosemary?" (1981), escrita especialmente para o livro "Slashers - 11 filmes essenciais da coleção", lançado pela Versátil Home Video em novembro de 2022. Livro disponível para venda no site da Versátil, em https://www.versatilhv.com.br/produto/livro-slashers-onze-filmes-essenciais-da-colecao/5393997

Medo e terror em Avalon Bay

É noite de formatura na escola feminina de Avalon Bay, em New Jersey. A festa é minuciosamente preparada pela comunidade, para receber formandos, familiares, professores e amigos. No mesmo local, há 35 anos, uma garota chamada Rosemary e seu namorado foram brutalmente assassinados. O assassino fugiu, o crime nunca foi resolvido, e aquele fato marcou a memória das pessoas. À medida que a formatura se aproxima, o psicopata de décadas atrás volta a atacar os jovens em uma noite de medo e tensão.
Essa é a trama central de “Quem matou Rosemary?”, um slasher icônico do início dos anos 80 e um dos mais violentos já produzidos no cinema americano. O filme foi lançado exatamente no ano de ouro do cinema slasher, 1981, um período em que os fãs de terror deliraram com os melhores exemplares desse subgênero. São fitas a perder de vista produzidas em 1981: “Sexta-feira 13 - Parte 2” (de Steve Miner), “Chamas da morte” (de Tony Maylam – também conhecido como “A vingança de Cropsy”), “Feliz aniversário para mim” (de J. Lee Thompson), “Halloween II – O pesadelo continua!” (de Rick Rosenthal), “Noite infernal” (de Tom DeSimone), “Aniversário sangrento” (de Ed Hunt), “A hora das sombras” (de Jimmy Huston), “Pouco antes do amanhecer” (de Jeff Lieberman), “Escola noturna” (de Ken Hughes), “Olhos assassinos” (de Ken Wiederhorn) e o the best one, “Dia dos Namorados macabro” (de George Mihalka). Cada um com suas qualidades e diferenças, há slasher com serial killer mascarado, outros com pessoas deformadas em busca de vingança etc.
“Quem matou Rosemary?” abre com duas cenas distintas em preto-e-branco, mas que dialogam: a primeira, de um antigo cinejornal, sobre o fim da Segunda Guerra Mundial, com soldados combatentes retornando da Europa em navios lotados - e em breve se encontrarão com suas famílias. Na sequência, aparece uma carta romântica escrita por Rosemary. O ano é 1945, e em Avalon Bay haverá uma badalada festa de formatura onde parte dos soldados festejarão com seus grupos. Rosemary também está lá, com um namoradinho em um gazebo. Sozinhos, conversam até que alguém se aproxima. A câmera capta pormenores do desconhecido, em que se vê botas e uma farda camuflada do exército. Quando Rosemary abraça seu affair, uma forquilha pontiaguda atravessa o corpo dos dois, e o sangue escorre veloz. O assassino estica uma rosa e a deposita na mão de Rosemary. O tempo passa, e estamos em 1980, na mesma Avalon Bay, onde haverá outra festa de formatura. O assassino fardado e mascarado pega uma faca de caça, coloca na bainha e junta a forquilha para novos assassinatos. Quem é ele e por que está cometendo os crimes?
Ao longo do filme juntamos pistas para descobrir a identidade do sádico serial killer que mata com fúria, sem pestanejar, no melhor estilo “Whodunit” (“Quem fez isso”, “Quem matou”). O rosto dele só será revelado na cena final (inclusive uma cena bem forte). Até lá uma série de mortes violentas será cometida. O gore corre solto, com momentos notórios – a sequência do banho, por exemplo, ficou famosa, é assustadora e traz todo um clima de tensão.
Por falar em gore e cenas sanguinárias, elas são convincentes, dado o grau de realismo da maquiagem e dos efeitos, assinados por Tom Savini, mestre no assunto desde os anos 70 – Savini, que trabalhou como ator em “Um drink no inferno” (1996), fez a maquiagem de “Despertar dos mortos” (1978) e de outros slashers como “Sexta-feira 13” (1980), “O maníaco” (1980) e “Noite de pânico” (1982).




A direção conduzida por Joseph Zito, diretor de “Sexta-feira 13 – Parte 4: O capítulo final” (1984) e de “Braddock: O supercomando” (1984), é de um tom sombrio e de angústia, ele investe pouco no humor, foca no suspense e até no terror psicológico, para que o público possa entrar na mente do assassino, ver o lado doentio dele e “entender” as razões do assassinato. Zito também assina como produtor, ao lado de David Streit, produtor executivo de “A experiência” (1995).
O elenco reúne atores novatos da época, como Vicky Dawson, de “A cara do pai” (1981), Christopher Goutman e Cindy Weintraub, e participação de dois veteranos (o cinema slasher costumava convidar atores e atrizes de peso para puxar público além dos jovens), Farley Granger – que esteve em dois filmaços de Alfred Hitchcock, “Festim diabólico” (1948) e “Pacto sinistro” (1951), e Lawrence Tierney, de “Nascido para matar” (1947) e “Cães de aluguel” (1992).
Até pouco tempo atrás a única cópia disponível de “Quem matou Rosemary?” no Brasil era da própria Universal Pictures, com metragem menor que a exibida nos cinemas da época (a metragem desse DVD era de 84 minutos, editada devido à violência). Em 2019, a Versátil distribuiu o filme na versão original de cinema, sem cortes e restaurada, igual à lançada nos Estados Unidos (de 89 minutos), dentro do box “Slashers vol. VI - uma caixa em edição limitada com quatro cards e duas horas de extras, onde acompanham também os filmes “Sombra no escuro” (1979, de Denny Harris), “Prefácio da morte” (1989, de Tibor Takács) e “Popcorn – O pesadelo está de volta” (1991, de Mark Herrier).
Sou fã do cinema slasher desde pequeno, e não posso deixar de recomendar “Quem matou Rosemary?”, um dos melhores do gênero. Um filme de terror bem escrito e assustador, que faz o sangue escorrer pela tela da TV!




Capa, sumário e texto de "Quem matou Rosemary?" no livro da Versátil

sexta-feira, 12 de maio de 2023

Resenha Especial


Resenha do filme "O padrasto" (1987), escrita especialmente para o livro "Slashers - 11 filmes essenciais da coleção", lançado pela Versátil Home Video em novembro de 2022. Livro disponível para venda no site da Versátil, em https://www.versatilhv.com.br/produto/livro-slashers-onze-filmes-essenciais-da-colecao/5393997


Sob o signo do mal: uma revisão de
O padrasto

Num fundo preto, surgem, um a um, os créditos de O padrasto (1987) com uma cor sugestiva: vermelho sangue. A trilha mistura tons poéticos e sinistros, até que aparece a primeira cena, um travelling que capta, bem no alto, um bairro aparentemente pacato, com as folhas das árvores caindo. De bike, um entregador de jornal faz seu trabalho. A câmera foca uma das casas, que leva o espectador para dentro do local. Vemos a cintura de um homem que coloca objetos em uma maleta. A tranquilidade de quem assiste ao filme é abalada quando as mãos e o rosto do cidadão irrompem sujos de sangue... ele olha para o espelho do banheiro, limpa-se, a pia fica com gotas vermelhas. Corta a barba e entra no banho. Em sequência, coloca uma lente de contato, veste terno e gravata e se transforma num novo homem. Prepara-se para sair de casa, pega a maleta, arruma brinquedos espalhados pelo corredor. Quando desce as escadas, novamente somos impactados com um amontoado de pessoas mortas. Há sangue para todos os cantos da casa, uma verdadeira chacina. Despreocupado, ele sai pela porta da frente, assobiando e recolhe o jornal caído na varanda. O mesmo travelling da abertura acompanha-o andar pela rua, sozinho, revigorado e feliz, rumo ao trabalho. Esse é Jerry Blake (Terry O'Quinn), um sujeito que assassinou a família inteira, trocou de identidade e agora procura uma nova mulher para se casar e formar um lar. A próxima vítima no radar de Blake será Susan (Shelley Hack), que vive de maneira harmoniosa com a filha adolescente, Stephanie (Jill Schoelen). Será que Blake conseguirá realizar outro plano sanguinário?
Esse roteiro objetivo e bem elaborado, com um personagem central complexo, cheio de camadas e baseado em um assassino de verdade que aterrorizou New Jersey nos anos 70 fez com que O padrasto virasse uma fita cultuada pelos fãs de terror. Um filme independente com muitos méritos, inúmeras vezes reprisado na TV aberta e que ganhou continuações e remake.
A figura do padrasto acima de qualquer suspeita, que esconde um lado sombrio, é a chave da trama. O sinistro cidadão toma forma sob a interpretação derradeira do ator Terry O’Quinn, que foi indicado ao Independent Spirit Award pelo papel – ele depois ficaria marcado entre os jovens na série “Lost” (2004-2010) e faria diversos filmes como coadjuvante, como “Os jovens pistoleiros” (1988). No filme, ele carrega traços de psicopata, que alterna constantemente o humor (se porta na frente dos outros como um homem atencioso, boa pinta, só que escondido, extravasa de forma violenta a ponto de ter alucinações e pensar em mortes brutais). Outro papel de destaque é o da jovem Jill Schoelen, dos terrir “Assassinato no colégio” (1989) e “Popcorn: O pesadelo está de volta” (1991), a enteada adolescente de Blake, que suspeita do padrasto, chegando a presenciar um ataque de fúria dele no porão.



Uma outra questão preponderante no filme é uma segunda história que corre paralela e dá todo sentido ao desdobramento da aterrorizante trama: a de um rapaz disposto a descobrir o paradeiro do assassino daquela primeira família, ocorrido um ano antes, contando inclusive com a ajuda de um experiente jornalista. Eles arriscam a própria pele para encontrar Blake, que agora vive com nome diferente em uma região longe dali.
O diretor Joseph Reuben, de “Morte nos sonhos” (1984), faria nos anos 90 pelo menos dois filmes de suspense de sucesso, muitas vezes exibidos na TV aberta, “Dormindo com o inimigo” (1991, com Julia Roberts) e “O anjo malvado” (1993, com Macaulay Culkin). Ele soube aqui conduzir uma obra “de gênero”, com todas as qualidades do chamado slasher: cenas sangrentas, mortes violentas, clima de terror no ar. Apesar de não ser um exemplar do slasher tradicional, por ter menos mortes que o habitual, o filme explora uma dimensão mais psicológica do protagonista, ao invadir a mente desse homem insano, impulsivo e desequilibrado. Também não é o slasher na linha do whodunit (“Who do it?” ou “Quem matou”), em que se descobre a identidade do serial killer somente nos minutos finais. Sabemos desde o início que Blake é o criminoso, e ele não usa máscaras como os matadores slasherianos. Por isso O padrasto tem um diferencial ao aproximar Blake a um cidadão comum, um assassino infiltrado na sociedade, no meio de nós, e não precisa se mascarar para cometer atrocidades. Blake pode ser qualquer um, pode se disfarçar de bom homem e na calada da noite, de maneira sorrateira, matar sem culpa. Talvez isso é o que dê mais medo na personalidade de Jerry Blake. Destaco que são poucas, mas bem realizadas sequências de morte, com um pontual suspense, embutido em todos os momentos.
O roteiro foi escrito a seis mãos, por Brian Garfield, escritor de romances que viraram fitas de ação, como “Desejo de matar” (1974) e “Sentença de morte” (2007), Donald E. Westlake - indicado ao Oscar de melhor roteiro por “Os imorais” (1990), cujo argumento original de O padrasto é dele, e Carolyn Lefcourt (que não fez nada mais relevante). O roteiro teve uma inspiração real: uma parte da vida de John List (1925-2008), assassino em série que em 1971 trucidou a família, composta pela esposa, a mãe e os três filhos, na cidade de Westfield, em Nova Jersey. E depois fugiu, usando identidade falsa e arrumando outra família. List integra a lista dos piores criminosos da história dos Estados Unidos. Ele só foi descoberto 17 anos depois, em 1989, em decorrência de uma reportagem de TV (como ocorre no filme O padrasto); ao ser preso pela polícia, confessou que tinha novos planos de morte. Ficou na cadeia até morrer, em 2005, então com 82 anos.
O padrasto deu origem a duas continuações: a primeira para o cinema, intitulado “A volta do padrasto” (1989), novamente com Terry O’Quinn, e uma para a TV, “O padrasto: Ele voltou para ficar” (1992), cujo papel foi para o ator Robert Wightman, ator da série “Os Waltons” (1972-1981) e do filme “Gigolô americano” (1980). E teve ainda uma refilmagem bastante inferior, “O padrasto” (2009), com Dylan Walsh, ator de “Congo” (1995) e “A casa do lago” (2006), na pele do assassino.
Filme presente em DVD, em ótima cópia, no box “Slashers volume 11”, juntamente com obras aterrorizantes como “Motel diabólico” (1980), “Incubus” (1981) e “Massacre no colégio” (1986). Para ter em sua coleção e rever quantas vezes quiser!




Capa, sumário e texto de "O padrasto" no livro da Versátil

quinta-feira, 11 de maio de 2023

Cine Especial



A lenda de Candyman

Anthony McCoy (Yahya Abdul-Mateen II) é um reconhecido artista visual que se muda com a namorada para a região de Cabini Green. Três décadas atrás, o lugar foi assombrado pelo espírito de Candyman, um escravo torturado que aparecia para matar aqueles que pronunciassem seu nome cinco vezes. Hoje Cabini Green é um bairro periférico de Chicago que passou pelo processo de gentrificação, recém-habitado por cidadãos de alta classe. McCoy está se acostumando ao novo lugar, até que Candyman retorna para um encontro derradeiro com o artista.

Uma das melhores revisões de filme de terror dos últimos anos, “A lenda de Candyman” (2021) se encaixa tanto como uma continuação quanto um remake do original, “O mistério de Candyman” (1992), que me assombrou muito quando pequeno. Agora a jovem diretora Nia DaCosta, que fez antes o drama/policial “Passando dos limites” (2018, com Tessa Thompson e Lily James), dá um novo tom e novas críticas sociais para contar a história de um artista visual que nasceu pobre e ficou rico e vai morar numa região gentrificada de Chicago, palco dos assassinatos pelo espírito de Candyman tempos atrás, um escravo com um gancho na mão. O ator Yahya Abdul-Mateen II, de “Aquaman” (2018) e “Nós” (2019), acerta em cheio com sua interpretação dupla do protagonista, que vai enlouquecendo ao longo da história, enquanto uma série de crimes brutais ocorre.
O visual do filme (um terror psicológico com forte crítica social) incomoda com suas cores fortes (ótima fotografia de John Guleserian, de “Questão de tempo”, aliada a uma boa direção de arte – destaque para a cena da galeria toda neon, com banhos de sangue), e há uma série de enquadramentos diferenciados, com inversão de imagem, plongée, jogo de espelho etc
É terror, mas é acima de tudo um drama social triste e impactante, que discute uma sociedade racista e ameaçadora – o tema central é a gentrificação em Chicago e suas complicações urbanas e sociais, com a expulsão forçada da população periférica para que o local sirva de espaços modernos e receba população da alta classe. Também se fala de lendas urbanas no gueto, com diálogo abrangente sobre racismo, escravidão e violência policial (é um filme mais profundo que o primeiro, de 1992).





Na abertura vemos a logo ao contrário da Universal ao som da música “Candyman”, cantada por Sammy Davis Jr – que integrou a trilha sonora de “A fantástica fábrica de chocolates” (1971 – lá cantada por Aubrey Woods).
Escrito e produzido por Jordan Peele, de “Corra!” (2017 – em que venceu o Oscar de melhor roteiro original), “Nós” (2019) e “Não! Não olhe!” (2022), hoje um mestre do cinema de horror contemporâneo. Com a colaboração da diretora Nia DaCosta no roteiro, Peele baseou-se no conto “Candyman”, de Clive Barker (originalmente intitulado “The forbidden”, de 1978) e reutilizou ideias do filme “O mistério de Candyman” (1992).
Assisti ao filme duas vezes e pretendo uma terceira revisão.

A lenda de Candyman (Candyman). EUA/Canadá, 2021, 91 minutos. Terror/Drama. Colorido. Dirigido por Nia DaCosta. Distribuição: Universal Pictures

terça-feira, 9 de maio de 2023

Cine Clássico


A ilha misteriosa


Soldados da Guerra Civil Americana fogem em um balão, que acaba caindo em uma ilha do Pacífico. O grupo está em um ambiente inóspito e estranho, enfrentam animais gigantes e conhecem capitão Nemo (Herbert Lom), que vive isolado naquela ilha misteriosa.

Aventura classe A da Columbia Pictures, muitas vezes exibida na TV, que agora pode ser conferida numa boa edição em DVD da Classicline. É a melhor e mais querida adaptação do livro homônimo do escritor francês Julio Verne, autor de obras clássicas consagradas sobre expedições a mundos desconhecidos (como “Viagem ao centro da Terra”) e de humanos lutando contra formas de vida ameaçadoras (como “20.000 léguas submarinas”). O notório personagem Capitão Nemo apareceu em duas histórias de Verne: primeiramente em “20.000 léguas submarinas” e depois, com menor destaque, em “A ilha misteriosa” - chamado de Príncipe Dakkar, é um intelectual, conhecedor dos mares, que cria um submarino, o Nautilus, e acaba se isolando numa ilha fora da civilização, decepcionado com a humanidade e suas atrocidades.
Em “A ilha misteriosa”, um grupo de soldados, numa viagem de balão, cai numa ilha do Pacífico tomado por animais gigantes, como uma galinha, um caranguejo e abelhas. Escapam para sobreviver, até serem socorridos por Capitão Nemo (que aparece somente na meia hora final).




O diretor Cy Endfield, de “Na rota do inferno” (1957) e “Zulu” (1964), realizou uma fita de entretenimento ágil, bem feita e cheia de momentos de fuga e aventuras malucas. A trilha sonora de Bernard Herrmann (de “Taxi driver”) ajuda, assim como os efeitos especiais de Ray Harryhausen, de “Simbad e a princesa” (1958) e “Jasão e o velo de ouro” (1963), sem falar da fotografia paradisíaca de Wilkie Cooper (o filme foi rodado no Reino Unido e grande parte na costa da Espanha, onde seria a ilha).
Michael Craig, de “A cinco passos da morte” (1958), Joan Greenwood, de “As aventuras de Tom Jones” (1964) e Michael Callan, de “Dívida de sangue” (1965), estão no elenco central. Já Herbert Lom, o inspetor Dreyfuss de vários filmes da franquia “A Pantera cor-de-rosa”, faz Nemo, numa participação bem legal. Assistam sem medo de errar!

A ilha misteriosa (Mysterious Island). Reino Unido, 1961, 100 minutos. Ficção científica/Aventura. Colorido. Dirigido por Cy Endfield. Distribuição: Classicline

sexta-feira, 5 de maio de 2023

Cine Clássico


Dois filmes com efeitos visuais do mago do cinema Ray Harryhausen, para ver em DVD, distribuídos pela Classicline.



O monstro do mar revolto

O comandante da Marinha Pete Mathews (Kenneth Tobey) mais dois cientistas procuram pistas de um animal marinho que vem atacando embarcações. Eles se deparam com um polvo gigantesco, que agora se desloca rumo a São Francisco ameaçando toda a cidade.

Para a época, 1955 (período frutífero do cinema scifi americano com filmes com criaturas gigantes ameaçadoras), “O monstro do mar revolto” foi vendido como terror, invadindo as salas pelo mundo afora, empolgando uma legião de fãs. Esse aqui fez tanto burburinho que chegou a influenciar outros futuros longas-metragens com polvos assassinos, como as duas versões de “Tentáculos” (1977 e 1998). A trama desse e de muitas fitas do cinema scifi do período carregava um ar de aventura, porém aos poucos assumia um outro lado, com elementos absurdos do universo da ficção científica literária (típicos de H.G. Wells e Julio Verne), com seres estranhos em mundos desconhecidos, que habitavam oceanos, florestas e o espaço sideral – e quase sempre esses “monstros” eram frutos de experimentos genéticos malsucedidos. Aqui, a Marinha investiga um ser subaquático que ataca navios, e descobrem que ele é um polvo contaminado com elementos radioativos. O animal abandona o fundo do mar e vem para a superfície atacar barcos e pessoas na praia. O principal alvo será a cidade de São Francisco – numa das cenas antológicas, ele chega a escalar o maior cartão-postal de lá, a ponte de São Francisco, destruindo tudo pela frente. Como cinemão, diverte e chama a atenção pela criatividade e pelos efeitos visuais, do mestre Ray Harryhausen, famoso por criar truques visuais com stop-motion (como aqui, que foi seu segundo trabalho – anteriormente fez os efeitos de “O monstro do mar”, de 1953, sobre um Godzilla americano); Harryhausen deixou um legado importante na área técnica com duas dezenas de obras, como “Simbad e a princesa” (1958) e a primeira versão de “Fúria de titãs” (1981).



O ator Kenneth Tobey, protagonista do filme, foi o capitão Hendry de “O monstro do Ártico” (1951), outro clássico do cinema scifi (com terror), que inspirou um de meus filmes de terror preferidos, “O enigma de outro mundo” (1982), de John Carpenter.
Saiu em DVD recentemente pela Classicline, em disco duplo: no primeiro disco, o filme com a versão original, em preto-e-branco, e a versão colorizada, e no disco dois, extras com mais de 1h40 de making of, bastidores, entrevistas etc

O monstro do mar revolto (It came from beneath the sea). EUA, 1955, 79 minutos. Ficção científica/Terror. Preto-e-branco. Dirigido por Robert Gordon. Distribuição: Classicline



A 20 milhões de léguas da Terra

Uma espaçonave americana cai na Sicília ao retornar de uma viagem a Vênus. A tripulação não sabe, mas traz consigo uma estranha forma de vida que, aos poucos, cresce e se transforma num réptil feroz. Ele fica grande e sai atacando tudo o que vê pela frente em várias cidades da Itália.

Ray Harryhausen (1920-2013) abriu novos horizontes para os efeitos visuais do cinema americano a partir dos anos de 1950, responsável em criar efeitos em stop-motion que até hoje inspiram diretores – o stop-motion, também chamado de “quadro-a-quadro”, já existia desde a década de 1910, no entanto era trabalhoso de ser feito, e Harryhausen o projetou com intensidade no cinema de entretenimento tornando a técnica mundialmente famosa. Harryhausen começou no departamento de efeitos especiais de um filme em que nem foi creditado, “Monstro de um mundo perdido” (1949), a primeira versão de “Poderoso Joe”, que por sua vez vem do universo do gorila King Kong. Em seguida assinou pela primeira vez os efeitos de um filme, “O monstro do mar” (1953), sobre um Godzilla mortal, e mais tarde, “O monstro do mar revolto” (1955), com um polvo gigante atacando São Francisco. Depois vieram “Invasão dos discos voadores” (1956), um filme sobre ataque de alienígenas à Terra, até chegar esse aqui, “A 20 milhões de léguas da Terra” (1957), sobre um réptil que vem de Vênus e cresce a ponto de se tornar um monstro terrível. Fez ainda três fitas de “Simbad” para o cinema, “Jasão e o velo de ouro” (1963), o icônico “Fúria de titãs” (1981) e outros.
O filme é puro entretenimento no aspecto “Sessão da Tarde”: descompromissado, ágil, curtinho, fácil de se apreciar (e ainda por cima, nostálgico – fica na memória a saudade de um cinema artesanal de outrora e também fica a pergunta, “Como eles faziam esses efeitos”?).
Quem dirige é Nathan Juran (1907-2002), cineasta austro-húngaro que começou como diretor de arte (de clássicos dos anos 40 e 50 como “Como era verde o meu vale” e “Meu amigo Harvey”), e que nos anos de 1950 partiu ser diretor de filmes de terror (como “O castelo do pavor”), de faroeste (“Com a lei e a ordem” e “A morte tem seu preço”), além, claro, de aventuras com ficção científica com criaturas fantasiosas, como “Fúria de uma região perdida” (1957), com um gafanhoto enorme e assassino, esse “A 20 milhões de léguas da Terra”, “O ataque da mulher de 15 metros” (1958), com uma mulher gigante, e “Simbad e a princesa”  (1958), o primeiro de uma série de filmes de aventura com monstros míticos e animais ferozes (também com efeitos de Harryhausen).



Curioso que rodaram parte em Los Angeles e sequências na Itália, em Roma (vê-se o Coliseu, onde conseguiram gravar dentro dele).
Lançado em DVD pela Classicline em disco duplo: no primeiro disco, a versão original, em preto-e-branco, juntamente com a colorizada, e mais um disco de bônus, com mais de duas horas de making of, bastidores e entrevistas.
Para se ter na coleção.

A 20 milhões de léguas da Terra (20 million miles to Earth). EUA, 1957, 82 minutos. Ficção científica/Aventura. Preto-e-branco. Dirigido por Nathan Juran. Distribuição: Classicline

segunda-feira, 1 de maio de 2023

Cine Clássico


A história de Louis Pasteur

Em 1860, o cientista e químico francês Louis Pasteur (Paul Muni) estuda uma forma de diminuir a morte de mulheres durante o parto e de recém-nascidos por infecções. Publica a “Teoria dos Germes”, explicando aos médicos formas de esterilização de equipamentos cirúrgicos e higiene dos locais. No entanto, a academia médica não dá a devida importância para ele. Uma década depois, rebanhos de ovelhas em várias regiões da França morrem por causa de um vírus, exceto naquela parte do país em que Pasteur desenvolveu uma vacina e a aplicou nos animais. Novamente ele é descredibilizado. Mas aos poucos a França reconhece seu trabalho pioneiro com vacinas e no tratamento de infecções.

Nascido na Alemanha, o diretor William Dieterle realizou duas cinebiografias premiadas para os estúdios da Warner Bros: “A história de Louis Pasteur” (1936) e “A vida de Emile Zola” (1937), ambas protagonizadas por Paul Muni. Muni recebeu o apelido de “rei das biografias para cinema” durante a Era de Ouro de Hollywood, por interpretar personagens reais em drama sociais de forte contestação. O ator austro-húngaro fez, por exemplo, só na Warner, três filmes sequenciais contando histórias verídicas de líderes rejeitados devido a seus inventos extraordinários ou pela visão de mundo - e que foram perseguidos por seus posicionamentos políticos: os já mencionados Pasteur e Zola, e depois o drama “Juarez” (1939), onde interpretou Benito Juárez, chefe indígena mexicano que foi cinco vezes presidente do México. Zola, vale destacar, foi mal interpretado pelo público, na época, pois foca no lado ativista do escritor francês de “A besta humana”, quando redigiu a famosa carta “J’accuse” (“Eu acuso”), escrita para defender um capitão da artilharia francesa de origem judia erroneamente acusado de traição em 1894 – o que ficou conhecido como “Caso Dreyfuss”, um dos erros mais terríveis do judiciário mundial. Muni também fez a primeira versão de “Scarface”, cujo subtítulo era “A vergonha de uma nação” (1932), seu filme mais notório na linha policial, depois refilmado por Brian De Palma com Al Pacino no início dos anos de 1980. Muni virou um rosto muito conhecido nos anos de 1930 e 1940, e por Louis Pasteur, ele venceu como melhor ator no Festival de Veneza e o Oscar – ainda no Oscar, a produção recebeu outros dois prêmios, nas categorias de roteiro e história original/argumento (categoria que não existe mais).
Dieterle realizou aqui um bom filme que resgata a trajetória de Louis Pasteur (1822-1895), com forte comentário crítico e político (o popular estúdio da Warner desafiava as regras da época, enfrentando um sistema de censura que contaminou a indústria de Hollywood entre os anos de 1930 e 1950). Na história, contada com mínimos detalhes, mostra Pasteur rejeitado pela Medicina que aos poucos desenvolveu métodos pioneiros de eliminar infecções em ambientes hospitalares. O reconhecimento das técnicas se deu décadas e décadas posteriores, quase próximo de sua morte, o que o levou a intensas discussões com a academia médica, sem contar uma angústia feroz que o deprimiu.



O diretor William Dieterle começou como ator de teatro no país natal, na década de 1910, depois apareceu em filmes de F.W. Murnau, e aos 30 anos, em 1923, dirigiu seu primeiro filme, o primeiro com Marlene Dietrich, em terras alemãs, até ser chamado para trabalhar como diretor e ator nos EUA em 1930. Realizou 60 longas nos EUA, entre romance, dramas sociais, comédias e filmes de ação, com uma perceptível direção própria. Foi perseguido pelo Macartismo no começo dos anos 1950, teve os documentos pessoais e passaporte cassados e foi banido por ser considerado comunista. Mudou-se para a Europa onde realizou filmes e telefilmes na Alemanha e na Itália. Retornou com poucos recursos aos EUA, isolado de todos, e morreu na Alemanha em 1972, aos 79 anos, deixando um extenso legado de filmes inteligentes, à frente de seu tempo.

A história de Louis Pasteur
(The story of Louis Pasteur). EUA, 1936, 87 minutos. Drama. Preto-e-branco. Dirigido por William Dieterle. Distribuição: Classicline

Cine Clássico



Guerra dos mundos


Uma pequena cidade da Califórnia é surpreendida com um meteoro que cai próximo à área residencial. Não é um meteoro e sim a chegada de alienígenas de Marte, que vem espalhar medo e destruição entre os moradores. Horas depois tem início uma invasão mundial com naves, robôs e monstros vindos de outro planeta.

“Guerra dos mundos” ou “A guerra dos mundos” é considerado um dos 10 filmes mais emblemáticos e assustadores sobre invasão alienígena na Terra, produzido no auge da Guerra Fria, em 1953, e, portanto, trazendo todas as paranoias da época. Há alegorias diversas, sendo as principais a das naves e das criaturas siderais como se fossem espiões vindos da Rússia, e a perseguição cruel dos ETs aos humanos, semelhante ao Macartismo, que vasculhava a vida de americanos considerados comunistas. Apesar de ser baseado no famoso livro homônimo de H.G. Wells, um dos papas da literatura de ficção científica, publicado em 1897 (nesse período não existia a Guerra Fria), a história teve novos contornos, dentro do clima de medo, angústia e aprisionamento do contexto político e social do pós-guerra e da divisão do mundo em dois blocos.
Gene Barry, protagonista da série “Bat Masterson” (1958-1961), e Ann Robinson, de “A muralha da esperança” (1953), estrelam essa formidável adaptação. Eles são duas testemunhas de objetos estranhos aparentando meteoros que caem na Califórnia. É uma invasão extraterrestre, cujas naves chegam aos poucos espalhando destruição, até atingir proporções mundiais. Cientistas se unem então para encontrar um jeito de liquidar com aquela forma de vida.
Causou fortes emoções no público no lançamento por ser um dos primeiros filmes coloridos de ficção científica, cujas cores dão realce e impacto nas cenas de destruição e terror provocados pelos alienígenas. Aqui os ETs não são amigáveis. A ciência já explorava formas de vida fora da Terra, e a visão de Wells e dos produtores era de puro pessimismo: as criaturas têm formato de aracnídeos que vinham em grandes máquinas, e de dentro delas saíam pequenas naves indestrutíveis, protegidas por cápsulas eletromagnéticas, parecidas com um cisne, com uma cabeça de periscópio, que espia ao redor, e de repente, dispara raios que faziam humanos virarem pó.




Ganhou um Oscar especial de efeitos especiais e foi indicado a melhor som e edição. O diretor Byron Haskin era especializado em efeitos visuais, começou a carreira nesse departamento, pelo qual foi indicado a quatro Oscars nos anos de 1940. Dirigiu filmes de aventura, como “A selva nua” (1954) e scifi, como esse, que seria seu maior trabalho, e depois “Robinson Crusoé em Marte” (1964). O produtor era outro nome importante do mundo scifi: George Pal, de fitas populares como “Destino à Lua” (1950), “O fim do mundo” (1951) e “A conquista do espaço” (1955).
“Guerra dos mundos” virou duas séries, nos anos de 1980 e 2010, e um outro bom filme, de 2005, dirigido por Steven Spielberg, com Tom Cruise.
Há duas edições do filme de 1953 em DVD: uma antiga da Paramount, de 2005, em boa edição, e a recente cópia da Obras-Primas do Cinema proveniente de uma nova restauração em 4k norte-americana, com imagem superior – os extras de ambos são os mesmos, com mais de um hora de making of, bastidores e entrevistas.

Guerra dos mundos (The war of the worlds). EUA, 1953, 85 minutos. Ação. Colorido/Preto-e-branco. Dirigido por Byron Haskin. Distribuição: Obras-primas do Cinema (DVD de 2022); Paramount Pictures (DVD de 2005)

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