terça-feira, 29 de setembro de 2026

Resenhas especiais

 
O fotógrafo e o carteiro: O crime que parou a Argentina
 
Documentário sobre a investigação do assassinato do jornalista José Luis Cabezas, um crime que chocou a Argentina no final dos anos 90.
 
Documentário da Netflix de 2022 sobre a investigação em torno do assassinato do fotojornalista José Luis Cabezas, ocorrido em 25 de janeiro de 1997, em Pinamar, que se tornou um dos episódios mais marcantes da história recente da Argentina. Sequestrado, o fotógrafo da destacada revista Notícias foi torturado e morto. Meses antes, ele fez a primeira imagem pública do empresário Alfredo Yabrán, um magnata poderoso, de forte influência no governo da época, que evitava ser fotografado. Yabrán era acusado de lavar dinheiro para o tráfico de drogas e armas. A foto de Yabrán ilustrou a capa da revista Notícias e foi vista como uma afronta ao empresário. O caso terminou em uma trama de vingança envolvendo criminosos e policiais corrompidos, cujo filme procura explorar bem a partir de reportagens da época e entrevistas. O assassinato de Cabezas tornou-se uma mensagem de intimidação contra o jornalismo e a liberdade de expressão, no país em que a ditadura havia terminado há menos de 15 anos – lembrando que na Argentina a ditadura (1976-1983) foi a mais violenta da América do Sul, que resultou em mais de 30 mil desaparecidos. A tragédia gerou enorme comoção nacional, com marchas e manifestações em prol dos direitos humanos, da justiça e da liberdade de expressão, com o lema “No se olviden de Cabezas”, transformando o fotógrafo em símbolo da luta contra a impunidade. Mais um bom documentário investigativo da Netflix, disponível no catálogo do streaming.
 
O fotógrafo e o carteiro: O crime que parou a Argentina (El fotografo y el cartero: El crimen de Cabezas). Argentina, 2022, 106 minutos. Documentário. Colorido. Dirigido por Alejandro Hartmann. Distribuição: Netflix
 
 

Um pombo pousou num galho refletindo sobre a existência
 
Numa cidadezinha do norte da Europa, dois homens passam o dia andando de lá para cá, cruzando com personagens excêntricos, pelas ruas, farmácias e mercearias, na tentativa de vender bugigangas.
 
Roy Andersson é um dos cineastas mais singulares da Suécia, conhecido por transformar o cinema em uma espécie de galeria de pinturas vivas, onde a estética visual e o humor absurdo se unem para refletir sobre a condição humana. Vencedor do Leão de Ouro no Festival de Veneza de 2014, “Um pombo pousou num galho refletindo sobre a existência” é um dos filmes mais melancólicos e representativos do diretor e roteirista, que iniciou a carreira ainda no fim dos anos 60 (e que por muito tempo trabalhou com publicidade). Dois idosos perambulam pela cidade onde moram mostrando artefatos antigos e novos para serem vendidos, que refletem um pouco sobre o mundo. Eles passam de porta em porta, em casas e comércio, apresentando as estranhas bugigangas, enquanto o tempo parece parar. É uma comédia dramática, de humor frio, que critica costumes do povo sueco, numa obra cuja composição é feita de esquetes curtos, com a estética peculiar que se tornaria marca registrada de Andersson, o “tableau”: câmera estática, iluminação pálida, cores esmaecidas (os personagens parecem zumbis, com o rosto esbranquiçado, semelhantes a uma pintura), personagens rígidos (sem demonstrar sentimentos), cenários meticulosamente criados (que dão a sensação de hiper-realidade). E sempre situações tragicômicas que revelam a banalidade e a profundidade da vida cotidiana. Os fragmentos curtos, quanto reunidos, refletem sobre a solidão, o vazio, o alto consumismo e a melancolia da vida moderna, bem como o absurdo da existência e a alienação social. Tudo é muito inusitado, lento, com algo surreal que paira nos esquetes, num tipo originalíssimo de se fazer cinema. Fita para público que curte cinema alternativo, um típico longa-metragem de festival. Disponível em DVD (com distribuição da Mares Filmes em parceria com a Versátil Home Video) e em streamings de cinema cult.
 
Um pombo pousou num galho refletindo sobre a existência (En duva satt på en gren och funderade på tillvaron). Suécia/Alemanha/Noruega/França/Dinamarca, 2014, 101 minutos. Comédia/Drama. Colorido. Dirigido por Roy Andersson. Distribuição: Mares Filmes e Versátil Home Video

* Resenhas publicadas na minha coluna de cinema na revista "Mais Magazine", de Lins (SP) - edição de agosto/setembro de 2026

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