segunda-feira, 8 de julho de 2019

Resenha Especial



Noite de inverno em Gagra

Bailarino que teve grande fama na URSS na década de 50, Aleksei Beglov (Evgeniy Evstigneev) hoje está longe da dança e trabalha como professor em um teatro de variedades. Ele está ensaiando um grupo para uma próxima apresentação na cidade de Gagra. Leva um susto quando a principal emissora de TV informa sobre seu falecimento, e no mesmo dia um rapaz com problemas na perna o procura para ter aulas com ele,  com o sonho de ser bailarino. Beglov decide dar a volta por cima mostrando tanto a esse jovem quanto ao mundo que ele está vivo e mais forte do que nunca.

O diretor, roteirista e produtor russo Karen Shakhnazarov aniversaria hoje, completando 67 anos, 40 deles dedicados ao cinema em seu país. “Noite de inverno em Gagra” (1985) foi seu quarto trabalho, uma comédia dramática de fundo musical, sobre um bailarino de meia-idade afastado da dança, sustenta-se hoje como professor e leva uma vida discreta. Resolve sair da mesmice para retornar à ativa comprovando que ainda tem talento e juventude na alma. Isto porque uma emissora de TV deu a notícia de que ele havia morrido. E também por querer ajudar um rapaz com problemas na perna a realizar o sonho de ser um bailarino. Vivido pelo falecido ator Evgeniy Evstigneev (importante na URSS, fez mais de 100 filmes), o protagonista cresce gradualmente no filme, invertendo a ordem natural de uma história: o início é a decadência do artista, quando ninguém mais se lembra dele, depois vem a ascensão, ao dar os primeiros passos para sair daqueles dias sem graça.
Não é uma comédia para rir nem um drama para chorar. A mistura dos dois gêneros, por Shakhnazarov, é uma reflexão magistral extensiva à humanidade sobre velhice, esquecimento e aceitação.


Karen Shakhnazarov montou o roteiro com Aleksandr Borodyanskiy, um velho parceiro; juntos escreveram dezenas de filmes e até dirigiram em dupla, com resultados muito legais.
“Noite de inverno em Gagra” é uma fita cult raríssima, disponível em DVD pela CPC-Umes na série “Cinema Soviético” (lançada em outubro de 2018). Aliás, outros cinco longas-metragens de Shakhnazarov saíram em DVD pela CPC-Umes Filmes: “Sonhos” (1993), “A filha americana” (1995), “Cidade dos ventos” (2008), “Tigre branco” (2012) e “Anna Karenina: A história de Vronsky” (2017). Vale destacar que desde 1998 ele é diretor geral da Mosfilm, o principal estúdio da Rússia, e presidente do Conselho de Cultura da Câmara Pública da Federação Russa.
Em comemoração ao seu aniversário serão publicadas ao longo da semana resenhas de seus filmes mencionados anteriormente.

Noite de inverno em Gagra (Zimniy vecher v Gagrakh). URSS, 1985, 85 minutos. Comédia/Drama. Colorido. Dirigido por Karen Shakhnazarov. Distribuição: CPC-Umes Filmes. Disponível em DVD.

Cine Lançamento


Um ato de esperança

A juíza da Alta Corte Britânica Fiona Maye (Emma Thompson) tem uma complicada decisão nas mãos, envolvendo o bem-estar de um garoto chamado Adam (Fionn Whitehead), internado em estado grave no hospital. Pelo poder que a justiça lhe concede, Fiona poderá obrigar o rapaz a receber transfusão de sangue, procedimento que a família dele recusa, por motivos religiosos. Paralelamente, a juíza vive uma crise com o marido, Jack (Stanley Tucci), e ambos pensam em separação.

Abriu o Festival Internacional de Toronto de 2017 este drama poderoso com uma atuação primorosa de Emma Thompson (que não recebeu indicação a prêmio nenhum!), baseado no aclamado romance de Ian McEwan, de 2014, traduzido no Brasil como “A balada de Adam Henry”. O próprio escritor adaptou o original para o cinema mantendo aspectos fundamentais de sua controversa obra, um embate entre religião e ciência – boa parte dos livros de McEwan viraram filmes de impacto, como “Uma estranha passagem em Veneza” (1990), “O inocente” (1993) e “Desejo e reparação” (2007).
É a jornada de uma poderosa juíza britânica com uma tarefa difícil: obrigar ou não um garoto hospitalizado a receber transfusão de sangue. Isto porque a família não autoriza, pela religião. O procedimento, simples pelo ponto de vista médico, poderá salvar a vida do menino. Para compreender seu cliente, a juíza quebra protocolos, visitando-o no leito do hospital e de certa maneira fica próxima a ele; é um menino novo, culto e sedutor, o que desperta nela sentimentos de mãe (já que não tem filhos). Só saberemos a decisão dela nos minutos finais, e até lá o filme se constitui em um delicado drama íntimo e pessoal. Também tem uma subtrama sólida, da juíza em conflito com o casamento, prestes a se separar do marido de longa data, e tudo se agrava quando ela se vê apegada ao menino doente (quem interpreta o marido, num papel menor, mas convincente, é o indicado ao Oscar Stanley Tucci).
O título original, “The Children Act”, remete a um termo jurídico que ajuda a compreender o enredo do drama: ele integra a lei britânica de 1989 que coloca o bem-estar das crianças em primeiro lugar, antes mesmo dos desejos e religião dos pais ou responsáveis. A Corte avalia os casos relacionados a crianças, e independentemente da posição dos responsáveis legais, o juiz determina o que melhor garante sua saúde, paz e integridade.


O diretor britânico Richard Eyre é de uma excelência notável, um cineasta de olhar peculiar, que dirigiu dois filmes brilhantes na década passada, “Iris” (2001) e “Notas sobre um escândalo” (2006). Ele dirige bem os atores no quadro, tanto que em “Iris” Jim Broadbent ganhou o Oscar, tendo sido indicadas as atrizes Judi Dench e Kate Winslet, e em “Notas, repetiu-se a dose para o elenco: Judi Dench novamente nomeada ao prêmio da Academia, assim como Cate Blanchett. Deslize não terem lembrado de Emma Thompson nesse papel impressionante da juíza Fiona, um dos melhores de sua longa carreira.
Curiosidade: o filme foi gravado nas locações reais da Corte de Justiça de Londres, a única produção cinematográfica liberada para tal.
Lançado em DVD pela Flashstar no mês passado, também disponível nas plataformas digitais!

Um ato de esperança (The Children Act). Reino Unido/EUA, 2017, 105 minutos. Drama. Colorido. Dirigido por Richard Eyre. Distribuição: Flashstar Filmes

domingo, 7 de julho de 2019

Resenha Especial


Como conquistar as mulheres

O motorista Alfie (Michael Caine) é um mulherengo incurável. De família pobre, veste-se de forma elegante, sai com mulheres solteiras e, claro, com as casadas. Um dia, uma experiência traumática fará com que ele questione seu estilo de vida.

Esta importante fita cool britânica dos anos 60 ajudou a consolidar a carreira do ator Michael Caine, ganhou o Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro e recebeu o prêmio do Júri no Festival de Cannes, além de ter sido indicada a cinco Oscars – ator para Caine (sua primeira nomeação), filme, roteiro adaptado, atriz coadjuvante (Vivien Merchant) e canção original (“Alfie”, de Burt Bacharach e Hal David).
É uma comédia dramática irreverente, sarcástica e selvagem, com um protagonista moderno, bem sedutor e impetuoso, que não consegue reprimir seus desejos pelo sexo oposto. Por causa disso não tem alguém para amar de verdade. Vive paixões turbulentas, troca mulheres como troca de sapato. Alfie dialoga para a câmera numa conversa informal com o público (uma brincadeira metalinguística inventiva, inovadora para a época); quem assiste se torna confidente de suas peripécias amorosas! Ele é machista, polêmico, favorável ao aborto, caçoa dos maridos traídos e mente sobre o filhinho recém-nascido para “pegar” mais mulheres. Percebe-se que ele é de família simples pelo sotaque popular, cheio de gírias, o chamado “cockney” (um calão rimado típico da região de East End, em Londres, onde conglomerava pobres e imigrantes). Certo dia uma revelação o fará repensar seu jeito de lidar com as pessoas, em especial as do sexo feminino.


O filme é despojado, criando um legítimo retrato de uma época e de um comportamento social, com roteiro brilhante de Bill Naughton, escrito a partir de sua própria peça de teatro de mesmo nome, encenada muitas vezes na Inglaterra. Teve a direção charmosa de Lewis Gilbert, falecido em 2018 aos 97 anos, diretor de vários filmes de James Bond, como “Com 007 só se vive duas vezes” (1967), “007 – O espião que me amava (1977) e “007 contra o foguete da morte” (1979), que caprichou nas cenas de comédia e nas de drama.
Nove anos depois, teve uma continuação inferior chamada “Alfie – O eterno sedutor” (1975, de Ken Hughes com Alan Price no lugar de Michael Caine), além de um remake também menor que atualizava a história, “Alfie – O sedutor” (2004), com Jude Law no papel central – a versão ganhou o Globo de Ouro de canção.
Assista a esta pequena joia do cinema britânico, que continua atual.
Atenção: o filme saiu no Brasil com o título “Como conquistar as mulheres”, e não “Alfie”, como está na capa (“Alfie” é o original em inglês).

Como conquistar as mulheres (Alfie). Reino Unido, 1966, 113 minutos. Comédia/Drama. Colorido. Dirigido por Lewis Gilbert. Distribuição: Paramount Pictures

Resenha Especial



Obra-prima do cinema soviético acaba de sair em DVD pela primeira vez, pela CPC-Umes Filmes.

A ascensão

Durante o inverno rigoroso na URSS, na Segunda Guerra Mundial, dois guerrilheiros soviéticos percorrem um longo caminho na neve para encontrar comida para o grupo. Eles são presos pelos nazistas e brutalmente torturados. Enquanto esperam o próximo dia chegar, refletem sobre questões acerca da vida, da guerra e da família.

E finalmente chega em DVD no Brasil pela CPC-Umes Filmes um dos filmes mais contundentes sobre a Segunda Guerra Mundial, produzido na extinta URSS e vencedor de quatro prêmios no Festival de Berlim de 1977, incluindo o principal, o Urso de Ouro. A cópia está em qualidade impressionante, restaurada pela Mosfilm, a produtora e distribuidora do filme.
O drama de guerra está dividido em duas partes: a primeira se passa no branco da neve, em um inverno rigoroso, onde dois partisans (cidadãos que atuavam atrás das linhas inimigas, opondo-se ao nazismo, para atrapalhar a comunicação e fazendo sabotagem) saem do acampamento na Bielorrúsia em busca de comida para o grupo. Eles estão sozinhos, quase congelando e falta pouco para desistirem. Até que são pegos pelos nazistas, levados a um quartel e torturados, o que dá início à segunda metade do filme, ficando mais triste, filosófico. Eles reagem de forma diferente aos abusos sofridos, enclausurados num local de medo e angústia, pensando na jornada que enfrentaram até aqui.
Esta fita antiguerra tem uma fotografia esplêndida em PB, uma trilha sonora inesquecível, com toques sonoros retumbantes (de Alfred Shnitke) e um dos desfechos mais amargos que já vi no cinema, de dar nó na garganta, que ficará para sempre em nossa memória. Não tem como sairmos indiferentes depois de assisti-lo.

Baseado no romance russo “Sotnikov”, de Vassil Bykov, um autor que falava sobre o pensamento cívico na guerra em seus livros (ele recebeu o título de “Escritor do Povo da Bielorrúsia” e “Herói do Trabalho Socialista”), “A ascensão” foi o sexto e último trabalho da diretora Larisa Shepitko (1938–1979), que faleceu dois anos depois de forma prematura, num acidente de carro, em que morreram também quatro membros da equipe técnica do filme que ela iria gravar. Era casada com o cineasta Elem Klimov, diretor de “Vá e veja” (1985). Felizmente deixou esta obra-prima marcada para sempre na História do Cinema.

A ascensão (Voskhozhdenie/ The ascent). URSS, 1977, 104 minutos. Drama/Guerra. Preto-e-branco. Dirigido por Larisa Shepitko. Distribuição: CPC-Umes Filmes

sábado, 6 de julho de 2019

Resenhas Especiais


Jogo do dinheiro

O jornalista Lee Gates (George Clooney) apresenta um programa financeiro na TV americana com boa recepção dos telespectadores. Parecia ser um dia comum, até que um jovem armado, Kyle (Jack O'Connell), que perdeu tudo em apostas, invade o estúdio durante o programa ao vivo e faz o apresentador e toda a equipe de refém. Lee e sua chefe de produção Patty (Julia Roberts) terão pela frente um longo dia para negociar com o rapaz enquanto o movimento deles é transmitido para milhões de pessoas.

Semelhante ao notável drama de suspense “O quarto poder” (1997, de Costa-Gavras), o excelente e menosprezado “Jogo do dinheiro” também trata de um assunto atual cada vez mais relevante para a sociedade, do controle exercido pela imprensa, de como ela influencia o público e provoca alienação. Também não deixa de falar sobre ética jornalística e o sensacionalismo, utilizando como pano de fundo a corrupção do sistema bancário que faz pessoas comuns perderem tudo o que conquistaram numa vida inteira em investimentos de segundos no mercado de ações.  No filme o que está em voga é um rapaz induzido por um apresentador de TV a investir em ações de uma empresa, porém ela perde quase U$ 1 bilhão devido a uma pane causada por um algoritmo descontrolado, e o rapaz quebra junto; ele enlouquece, invade o estúdio com revólver e bombas no corpo e ameaça explodir todos ali presentes até que a situação seja explicada e resolvida. A polícia é mobilizada, e o circo está armado, num espetáculo midiático transmitido para o mundo que faz a audiência da TV aumentar absurdamente.
Vira um filme policial caprichado com ótimos diálogos, momentos de tensão de roer as unhas e uma boa reviravolta final, contando com um trio espetacular (Julia, O'Connell e Clooney, que assina como produtor). Exibido em Cannes, mas fora da competição, em 2016, “Jogo do dinheiro” tem direção da atriz duas vezes ganhadora do Oscar Jodie Foster em seu quarto trabalho como diretora.
Uma curiosidade para destacar o difícil feito: o tempo de duração do filme, 98 minutos, é o tempo que dura toda a história sem cortes ou interferências, ou seja, a abertura do programa, a invasão do rapaz ao estúdio, toda a negociação, o desfecho e o epílogo duram 98 minutos corridos, sem pausa alguma. Um filme sábio e feroz, em que assistimos com prazer! Boa sessão!

Jogo do dinheiro (Money monster). EUA, 2016, 98 minutos. Drama/Ação. Colorido. Dirigido por Jodie Foster. Distribuição: Sony Pictures 


O cara perfeito

Recém-separada, a lobista de sucesso Leah (Sanaa Lathan) inicia um tórrido relacionamento com um homem atraente, Carter (Michael Ealy). Apaixona-se acreditando ser ele o cara perfeito para sua vida. Porém aos poucos percebe que Carter tem um comportamento violento, que colocará em risco tanto sua integridade quanto a das pessoas próximas a ela.

Sabe aquele filme de suspense de pessoas que se apaixonam perdidamente por um desconhecido, mas não imaginam que o indivíduo é um psicopata? Pois bem, “O cara perfeito” é mais um dessa leva de filmes estilo B que Hollywood produziu em larga escala, mas que sempre assistimos com gostinho de “quero mais”, como passatempo mesmo, de pura distração. Um “guilty pleasure” assumido!
A diferença deste está no casting, composto por 80% de atores negros, incluindo os dois destaques dos papéis centrais, a atriz Sanaa Lathan, de “Blade, o caçador de vampiros” (1998), “Amigos indiscretos” (1999) e da continuação, “O natal dos amigos indiscretos” (2013) – ela é filha do diretor Stan Lathan, e Michael Ealy, dos filmes “Uma turma do barulho” (2002) e “Ladrões” (2010), indicado ao Globo de Ouro pela série “Sleeper cell” (2005). Interpretam, respectivamente, a lobista com carreira em ascensão, recém-separada de um relacionamento que durou muito tempo, e o estranho desconhecido que se aproxima da lobista e tornará a vida dela um tormento.
Não espere nada demais, apenas se jogue nesse sedutor jogo de gato e rato, semelhante a tantos que vimos na década de 90, como “Morando com o perigo” (1990), “Jogo perverso” (1990), “Dormindo com o inimigo” (1991) etc
O suspense tem toques de terror devido à especialidade no gênero do roteirista Alan B. McElroy, de “Halloween 4: O retorno de Michael Myers” (1988) e da franquia “Pânico na floresta” e obteve boa bilheteria nos cinemas dos Estados Unidos (no Brasil saiu direto em DVD, pela Sony Pictures). Conta com participação de Morris Chestnut, Charles S. Dutton e dos sumidos John Getz e Tess Harper.

O cara perfeito (The perfect guy). EUA, 2015, 100 minutos. Suspense. Colorido. Dirigido por David M. Rosenthal. Distribuição: Sony Pictures

Resenha Especial



Homem-Aranha: De volta ao lar

O adolescente Peter Parker (Tom Holland) está em conflito tentando compreender sua identidade recém-descoberta, a do Homem-Aranha. Na escola não pode comentar com os amigos sobre seus poderes especiais de super-herói, nem mesmo para a família. Certo dia chega a notícia de que um vilão ameaçador atacará Nova York em breve; ele se chama Abutre (Michael Keaton), um homem de meia-idade vingativo, que tem habilidade de voar e caçar as pessoas impiedosamente com suas garras de metal. Parker precisará então lidar com seu alter-ego, para que Homem-Aranha defenda a cidade.

A franquia “Spider-Man” ganhou uma nova trilogia a partir de 2017 com este “De volta ao lar”, a melhor das aventuras de Homem-Aranha já produzidas em Hollywood, um entretenimento empolgante para ninguém botar defeito. O franzina Tom Holland comprovou ser o mais parecido com o personagem das HQs, um rapaz novinho, com cara e corpo de adolescente em formação. Tem energia de sobra e nos momentos oportunos sabe ser engraçado. Vale mencionar, Tom Holland não tem nada a ver com o cineasta homônimo, diretor das primeiras versões de “A hora do espanto” (1985) e “Brinquedo assassino” (1988). Ele é britânico, completou essa semana 23 anos, estreou nos cinemas aos 16 em “O impossível” (2012) e até agora interpretou Homem-Aranha cinco vezes: em “Capitão América: Guerra civil” (2016), este aqui, de 2017, depois “Vingadores: Guerra infinita” (2018), “Vingadores: Ultimato” (2019) e “Homem-Aranha: Longe de casa”, que entrou em cartaz anteontem, com ótima recepção de público e crítica.
Mesmo com duração exagerada, 133 minutos (os filmes da Marvel vêm apostando em narrativas longas, veja o maior de todos, “Vingadores: Ultimato”, com 181 minutos!), o filme é pura emoção para os fãs e para quem curte fitas de ação com superheroes, com a qualidade máxima da Marvel Studios. Os produtores acertaram ao convidarem um diretor que tem na carreira altos e baixos, Jon Watts (do bom suspense/ação “A viatura”, e da fraquinha fita de horror “Clown”), um americano de espírito jovial que escreveu o roteiro junto com seis amigos, baseado nas criações de Stan Lee e Steve Ditko.
É a primeiro Homem-Aranha a reunir outros heróis do universo Vingadores; aparecem aqui Homem de Ferro (Robert Downey Jr), com piadas divertidas (Peter Parker é fã dele e torna-se um pupilo), e Capitão América (Chris Evans), e a dose se repetiria nos anos seguintes com a explosão das continuações de “Vingadores”.
Não poderia faltar um bom vilão moderno. Inseriram neste capítulo Abutre (Michael Keaton), um cara vingativo e sádico. E Keaton está ótimo com sua cara de doido! O ator, que viveu “Batman” no cinema, retornou com tudo depois de ter ganhado o Oscar por “Birdman ou (A inesperada virtude da ignorância” (2014), e coincidentemente lá seu personagem também voava!


“De volta ao lar” tem cenas eletrizantes, como a do navio que se parte ao meio, e Homem-Aranha terá de juntá-lo com teias para salvar as pessoas a bordo, além de escaladas em prédios, perseguições na terra e no céu e explosões homéricas. Acompanha na aventura uma boa trilha sonora com músicas dos anos 80 e 90, como Ramones (com “Blitzkrieg Bop”), e, claro, a famosa música-tema, com novos arranjos.
Um filmão-pipoca para ver entre amigos e torcer pelo famoso personagem da Marvel, que teve uma das maiores bilheterias da franquia desde “Homem-Aranha” (2002, com Tobey Maguire), totalizando U$ 880 milhões no mundo.

Homem-Aranha: De volta ao lar (Spider-Man: Homecoming). EUA, 2017, 133 minutos. Ação. Colorido. Dirigido por Jon Watts. Distribuição: Sony Pictures

sexta-feira, 5 de julho de 2019

Cine Lançamento


O retorno do herói

Em 1809, na França, o capitão Charles-Grégoire Neuville (Jean Dujardin) é chamado às pressas para liderar um grupo no front de guerra. Ele deixam para trás sua noiva prometendo enviar cartas a ela. As correspondências nunca chegaram... Então a irmã da moça, Elisabeth (Mélanie Laurent), passa a escrevê-las em nome de Neuville para tranquilizar a irmã, discorrendo sobre feitos épicos e aventuras gloriosas do capitão. Mas o homem na realidade é um covarde, que desertou da guerra e vive hoje como um moribundo. Resolve retornar para casa, no entanto Elisabeth convence-o a manter vivas aquelas grandiosas histórias da guerra. Neuville se passa por um herói que nunca foi, iniciando uma série de confusões entre os membro da família e da realeza.

Uma comédia de época sofisticada e divertida, em tom de farsa, com dois atores à vontade nos papéis principais, Mélanie Laurent (de “Bastardos inglórios” e “Toda forma de amor”) e Jean Dujardin (um dos nomes mais proeminentes do cinema francês atual, que aparece em muitos filmes de seu país; ganhou Oscar, Globo de Ouro, Bafta e ator em Cannes pelo trabalho que o revelou em 2011, “O artista”). Ele é uma figuraça, no papel de um falso herói, sem escrúpulos e cheio de artimanhas.
Num roteiro bem formatado, conhecemos esse capitão convocado para uma das guerras napoleônicas, tendo de dizer adeus à noiva chorosa. Ele não envia cartas para ela, então a irmã (Mélanie, ótima, sempre sedutora) secretamente escreve correspondências em nome dele para manter a jovem feliz, já que está doente na cama, de tristeza e solidão (lembram-se de “Crepúsculo dos deuses”?). Um tempão se passa, e ele retorna, maltrapilho, mas Elisabeth faz um plano de sustentar as mentiras contadas por ela nas cartas, onde o capitão virou um herói nacional. A armadilha está posta à mesa. Até quando a mentira será mantida em pé?
O legal do protagonista é essa transição, de um valente que parecia ser a um anti-herói de terceira classe, um desertor, covarde, ardiloso, que se utiliza do humor jocoso e burlesco para compor uma de suas características (que se torna a peça-chave da comédia). A personagem Elisabeth é outra criação formidável que mantém o ritmo do filme, uma mulher trapaceira e aproveitadora, aliada do capitão.

Dirige o filme (uma coprodução França/Bélgica) Laurent Tirard, do adorável “O pequeno Nicolau” (2009) e sua continuação, “As férias do pequeno Nicolau” (2014), que trabalhou anteriormente com Dujardin em “Um amor à altura” (2016, remake do argentino “Coração de Leão – O amor não tem tamanho”, coproduzido no Brasil). Ele escreveu o roteiro ao lado de um antigo parceiro, Grégoire Vigneron, presenteando o público com essa fota adorável, simpática, curtinha e inteligente, que dá para rever várias vezes.
De acordo com o diretor, ele se inspirou em dois filmes de John Ford para criar algumas cenas, “Ao rufar dos tambores” (1939) e “Rastros de ódio” (1956), além do clássico “E o vento levou” (1939).

O retorno do herói (Le retour du héros). França/Bélgica, 2018, 90 minutos. Comédia. Colorido. Dirigido por Laurent Tirard. Distribuição: Focus Filmes

Estreias da semana – Nos cinemas e streamings – Parte 2

O delator   Fita porrada de ação sul-coreana com bastante dose de humor, “O delator” (2025) é um lançamento exclusivo nos principais streami...