O
agente secreto
O grande filme brasileiro de 2025, dirigido
por Kleber Mendonça Filho, continua em ampla campanha rumo ao Oscar. No domingo
passado, ‘O agente secreto’ venceu o prêmio de melhor filme internacional no
Critics Choice (prêmio dado pela crítica americana), algo inédito com um longa-metragem
brasileiro. A entrega da estatueta infelizmente foi chinfrim, sem emoção, no
tapete vermelho, algo que nunca tinha visto em premiação; enquanto Kleber
concedia entrevista no intervalo do evento, a entrevistadora o pegou de
surpresa informando que ‘O agente secreto’ era o vencedor daquela categoria. A
jovem puxou o prêmio que estava atrás dela e jogou nas mãos do diretor. Não só Kleber
como a produtora e sócia que estava junto, Emilie Lesclaux, ficaram perdidos,
pasmos, e esses foram os sentimentos de quem assistia à transmissão pela TV.
Kleber criticou a organização do Critics Choice pela falta de sensibilidade na
entrega de um prêmio tão importante – que deveria ter ocorrido no palco
principal. O diretor e o ator de seu filme, Wagner Moura, acabaram subindo ao
palco no bloco final da premiação para a maior entrega, a de melhor filme no
Critics Choice – dado a ‘Uma batalha após a outra’, de Paul Thomas Anderson. Tirando
a falha na hora da entrega, ‘O agente secreto’ tornou-se o primeiro filme
brasileiro a ganhar um Critics Choice – e também foi a primeira indicação de um
ator brasileiro ao prêmio, para Wagner Moura, que acabou perdendo para Timothée
Chalamet, por ‘Marty Supreme’.
‘O agente secreto’ abocanha uma infinidade de
estatuetas na temporada de premiações e deverá ser finalista ao Oscar 2026,
acredito que nas categorias de melhor filme estrangeiro e melhor ator para
Wagner. Na nova shortlist divulgada recentemente pela Academia, o filme segue como
semifinalista, ao lado de outros 14 títulos na categoria de filme internacional,
e avançou na shortlist de uma nova categoria que o Oscar irá iniciar nesta
edição, a de ‘melhor direção/seleção de elenco’. O anúncio dos indicados ao
Oscar será no dia 22/01. Até agora ‘O agente secreto’ recebeu 45 prêmios em
mais de 30 festivais e mostras pelo mundo, como Cannes – quando ganhou os de
ator, direção, prêmio da crítica e o ‘Art et Essai’, concedido pela AFCAE
(Associação Francesa de Cinema d'Art et d'Essai). Foi nomeado como melhor filme
estrangeiro no Independent Spirit Awards (dado a cineastas independentes), cuja
cerimônia será dia 15/02, e entrou num seleto grupo de filmes que alcançaram o
Trifecta: premiado pela National Society of Film Critics (NSFC), pelos críticos
de Nova York (NYFCC) e da Los Angeles Film Critics Association (LAFCA). Sem
contar as três indicações ao Globo de Ouro (melhor filme de drama, melhor filme
estrangeiro e melhor ator em filme de drama), cuja cerimônia de entrega será no
próximo domingo, dia 11/01.
O filme está na nona semana de exibição nas
salas mundiais de cinema, em países como França, EUA, Portugal, Áustria,
Canadá, Suíça, Bélgica e Alemanha. No Brasil está em 120 salas atualmente. Celebrou
um fato único: pela primeira vez um filme produzido fora do eixo Sul–Sudeste
atingiu um milhão de espectadores nas salas de cinema no Brasil – ao lado de
‘Chico Bento e a goiabeira maraviósa’ conquistou esse ‘milhão’ de público em
2025. E já ultrapassou mais de um milhão de dólares nas bilheterias
norte-americanas, feito raro de uma obra brasileira nos EUA, ficando ao lado de
‘Dona Flor e seus dois maridos’ (1976), ‘Cidade de Deus’ (2002) e ‘Ainda estou
aqui’ (2024).
Tudo isto é campanha para o Oscar: premiações em festivais diversos, penetração
em festivais norte-americanos, expansão em salas de cinema, prêmios da crítica
especializada e comentários positivos em redes sociais de famosos e de jornais
de grande circulação.


‘O agente secreto’ encabeçou listas de
melhores filmes do ano de grande parte do público e da crítica especializada.
Eu o assisti uma semana antes da estreia nos cinemas, em outubro de 2025, em
uma sessão de imprensa da Vitrine Filmes, distribuidora do filme. Saí
agraciado, em puro êxtase, já o colocando na minha lista pessoal de filmes de
2025. Sou fã do cinema de Kleber desde quando conheci o diretor no Anápolis
Festival de Cinema, quando lá estava para apresentar seu primeiro longa
ficcional, ‘O som ao redor’, em 2012. Um cara tímido, recluso, que falava
baixo, mas que na tela fazia um cinema visceral, e que vinha na esteira do novo
ciclo do cinema pernambucano. Saí da sessão em choque, pela qualidade do
roteiro, simplesmente imprevisível, com aquele desfecho de arrepiar. E novos
espantos vieram com os longas seguintes, ‘Aquarius’ (2016) e ‘Bacurau’ (2019),
ambos indicados à Palma de Ouro no Festival de Cannes. Depois fui conhecer os
curtas experimentais dele, feitos entre 2002 e 2010, como ‘A menina do
algodão’, ‘Vinil verde’ e ‘Recife frio’, e em seguida os documentários,
‘Crítico’ (2008) e seu trabalho anterior a ‘O agente’, ‘Retratos Fantasmas’ (2023).
Kleber é um cineasta autoral influenciado pelo cinema independente de Agnès Varda,
John Carpenter e Alfred Hitchcock.
‘O agente secreto’ é um apanhado de elementos
dos longas anteriores de Kleber, por isso, se possível, assista aos que
indiquei acima caso não tenha conferido ao novo trabalho do cineasta. Tem personagens
saídos do universo de Bacurau, Aquarius, Retratos fantasmas e O som ao redor, e
reutilizando temas desses longas, como plano de vingança, cultura popular, vigilância
e resistência, de uma forma híbrida e completamente nova.
O pano de fundo de ‘O agente secreto’ é o
Brasil de 1977, ano crucial da Ditadura Militar, sob o governo Geisel. Período
do início da abertura política, mas ao mesmo tempo com muitos paradoxos e
contradições, como endurecimento autoritário, fechamento do Congresso,
manutenção da censura da imprensa e do fim da liberdade de expressão, das
amplas manifestações nas ruas, agitação popular, luta por democracia e uma
grave crise econômica com inflação altíssima, que se arrastava desde a crise do
petróleo de 1973. Essa é a conjuntura histórica do filme, que aparece no
subtexto, nos pequenos detalhes da cenografia, nos diálogos, nos comentários
dos personagens. Há um mal-estar da época, algo estranho que ronda os
personagens, que são vigiados e temem os dias que vem pela frente. O
protagonista é Marcelo (um trabalho estupendo de Wagner Moura), um especialista
em tecnologia, que no passado foi professor. Ele chega ao Recife, na verdade,
ele volta para sua cidade natal, durante a semana do Carnaval, e se muda para
um antigo casarão que abriga refugiados políticos e os tais subversivos. Ele
procura o filho pequeno, com quem não teve mais contato após um período longe –
que entenderemos melhor com o desenvolvimento da história. Com o passar dos
dias e das semanas, ele percebe que Recife não é mais o mesmo, e todo cuidado é
pouco. Gradualmente, em flashbacks, o filme revela o passado misterioso de
Marcelo, um homem em completa busca por identidade.


Como nos filmes anteriores de Kleber, há um mistério
que vaga pela trama, misturando a um humor colocado ali e acolá, um clímax que faz
palpitar o coração, reviravoltas incontornáveis e uma trilha sonora eclética da
época (aqui tem, por exemplo, Donna Summer, Waldick Soriano, Banda de Pífanos
de Caruaru, Ângela Maria e até o reaproveitamento de uma música antiga de Ennio
Morricone, que marcou o trailer, do filme italiano ‘Obrigado, tia’, do fim dos
anos 60). O sobrenatural é uma tacada de mestre em ‘O agente secreto’, quando Kleber
insere a lenda urbana da Perna Cabeluda, que percorre as bocas dos recifenses assombrando
os habitantes de lá – é o momento do cinema fantástico com horror, que quebra a
narrativa e se torna uma metáfora à repressão na Ditadura.
A direção de arte é um primor estético, que
reconstrói o Recife da década de 70 com suas cores e belezas, assinada por
Thales Junqueira. Wagner Moura interpreta com maestria dois personagens – um
deles em dois momentos de sua trajetória. O elenco brilha com personagens que
já se tornaram memoráveis, alguns viralizando com memes na internet, como Tania
Maria (uma preciosidade de atriz, que aos 78 anos rouba as poucas cenas em que
aparece destilando um humor ímpar), Gregorio Graziosi, Gabriel Leone, Buda
Lira, Alice Carvalho, Maria Fernanda Cândido (numa pontinha magistral), Isabél
Zuaa, Udo Kier (em rápida aparição – ele faleceu em novembro passado e já havia
trabalhado com Kleber em ‘Bacurau’), Luciano Chirolli e Roney Villela (dois
vilões de primeira classe) e Robério Diógenes (cujo papel equilibra humor e
tensão). Todos marcantes, em estado de graça e outros sombrios. Escrito por
Kleber Mendonça, o filme é uma coprodução Brasil, França, Holanda e Alemanha,
que conta com produção da CinemaScópio e tem como coprodutora a francesa MK2
Films, a alemã One Two Films e a holandesa Lemming. Virei fã do filme, vi uma
vez só e estou na expectativa para uma revisão. Que chegue logo o Oscar! Será
que levaremos mais uma estatueta pelo segundo ano consecutivo?