domingo, 4 de agosto de 2019

Resenhas Especiais



Histórias de amor que não pertencem a este mundo

Os professores Claudia (Lucia Mascino) e Flavio (Thomas Trabacchi) ficaram juntos por muitos anos, um casal muito apaixonado aos olhos dos outros. Agora veem o relacionamento chegar ao fim, então cada um segue seu caminho. Claudia tem dificuldade em recomeçar sua vida aos 50 anos, pois ainda nutre um sentimento por Flavio. Ao passar dos dias adquire coragem para conhecer novas pessoas e até fazer coisas que nunca imaginou.

Romance italiano de primeira classe, esse filme com título longo concorreu ao Golden Globe da Itália e ao principal prêmio no importante Festival de Locarno. Lançado em 2017, chegou aos cinemas brasileiros com pouca repercussão no final do mesmo ano, e agora pode ser assistido em DVD, pela Mares.
Destinado ao público romântico, tem um humor brando, é bonitinho e descompromissado, com algumas cenas ousadas de sexo para dar uma apimentada (inclusive uma gay). A história corre em dois tempos, passado e presente, alternando situações reais e imaginações da personagem principal, Lucia, para tratar de um tema pouco explorado no cinema, o amor entre duas pessoas de meia idade. No filme o relacionamento do casal de professores chega ao fim, e cada um é obrigado a recomeçar mesmo quando tudo parece não ter mais sentido. No longo caminho pela frente haverá para ambos aventuras amorosas diferentes e reflexões acerca da qualidade de vida que levam, para que o bem estar se equilibre diante da perda do companheiro de longa data.


Traz uma ótima atuação da atriz Lucia Mascino (que fez poucos filmes), bem dirigida pela cineasta italiana Francesca Comencini, que escreveu o roteiro a partir de um livro seu de mesmo nome, de 2013 – ela dirigiu quatro longas, alguns documentários e ficou conhecida pela série “Gomorra”, de 2014. Francesca vem de uma família dedicada ao cinema: é filha do famoso diretor italiano Luigi Comencini, já falecido (de “Pão, amor e fantasia”, “Pecado à italiana”, dentre outros), irmã da cineasta Cristina Comencini (de “O mais belo dia da minha vida” e “Segredos do coração”) e tem ainda duas irmãs que trabalham como diretoras de produção (Eleonora e Paola).

Histórias de amor que não pertencem a este mundo (Amori che non sanno stare al mondo). Itália, 2017, 91 minutos. Romance. Colorido/Preto-e-branco. Dirigido por Francesca Comencini. Distribuição: Mares Filmes


O resgate de uma vida

Willie (Thomas Haden Church) é um mendigo que vive nas perigosas ruas de Los Angeles. À procura de comida no lixo encontra o diário de uma garotinha, tornando-o seu companheiro de leitura todas as noites. Um dia recebe a proposta de ganhar dinheiro em lutas clandestinas mantidas por jovens ricos, fazendo com que Willie entre com tudo nesse submundo da violência.

Dois atores indicados ao Oscar, Thomas Haden Church (correto como o protagonista) e Terrence Howard (numa participação rápida) dão o destaque para esse pequeno drama independente filmado nas ruas de Los Angeles, sobre um homem buscando salvação no mundo cão da indigência.
Haden Church tem uma carreira de altos e baixos, ultimamente é pouco visto no cinema, e aqui está num de seus melhores dias como o morador de rua Willie, um cara gentil, sem perspectivas, arruinado moralmente. Observador, conhece na palma da mão os perigos da marginalidade. Dorme numa caixa de papelão e revira as latas de lixo em busca de comida até encontrar um diário, de uma garotinha solitária, e passa a “dialogar” com a menina. E também se envolve em lutas clandestinas pagas por riquinhos da cidade; por ter um punho certeiro, recebe o apelido de “Boxeador da Caixa de Papelão” (título original do filme, “Cardboard Boxer”). A violência nesse circuito é grande, muitos sofrem sequelas e outros morrem. Qual será o destino de Willie?


É uma fita dramática curiosa, com um final ambíguo e emocionante, mal ficou conhecida do público. É o primeiro filme do roteirista de “O sequestro” (2017) e de “Os novos mutantes” (que estreia em 2020), Knate Lee. Disponível em DVD pela Focus Filmes, do grupo A2 Filmes.

O resgate de uma vida (Cardboard boxer). EUA, 2016, 88 minutos. Drama. Colorido. Dirigido por Knate Lee. Distribuição: Focus Filmes

sábado, 3 de agosto de 2019

Resenhas Especiais



A garota na névoa

O investigador Vogel (Toni Servillo) dá início a uma incessante busca por uma garota de 16 anos desaparecida nos Alpes italianos.

Fez grande sucesso nos cinemas da Itália esse thriller de investigação baseado no best seller de mesmo título do escritor e jornalista Donato Carrisi, que adaptou o roteiro para cinema e ainda por cima dirigiu (é a estreia dele como diretor). Ocupou várias funções para fidelizar ao extremo o argumento criado por ele.
O trunfo consiste no enredo engenhoso sob forte clima de tensão, que segura o público até os segundos finais, num desfecho surpreendente. Deve-se prestar atenção nos diálogos cheio de pistas e nos detalhes das ações dos personagens para que se compreenda melhor o final.
Tudo gira ao redor de uma jovem que some quando sai de casa, num dia de muita névoa, na cidade montanhosa de Avechot, cravada nos Alpes congelados. Um detetive com métodos nada convencionais é convocado para decifrar o enigma, passando a interrogar uma série de pessoas da comunidade. Ele vasculha por pistas, percebe fatos obscuros por trás do sumiço até que um suspeito é preso despertando o frisson da mídia.


Quem se destaca é o ator Toni Servillo, como o detetive solitário em busca de respostas para o difícil caso de desaparecimento; ele é um dos atores italianos mais famosos da atualidade, trabalhou em vários filmes de Paolo Sorrentino, como “Um homem a mais” (2001), “As consequências do amor” (2004), “A grande beleza” (2013) e do novo “Loro” (2018) – também se destacou em “Gomorra” (2008), “Viva a liberdade” (2013) e “As confissões” (2016). Ele é 100% do filme, aparecem pouquíssimos coadjuvantes, dentre eles Jean Reno, como o psiquiatra do protagonista, e a atriz Greta Scacchi, no papel de uma jornalista na cadeira de rodas. Curiosidade legal: em duas cenas toca a música “Dança da solidão”, na voz de Beth Carvalho!
Se você curte suspense com final surpresa irá aprovar “A garota na névoa”. A fita ganhou o David di Donatello de melhor direção e concorreu a três prêmios lá (roteiro, design de produção e edição) – é a premiação de cinema mais importante da Itália, entregue pela Academia de Cinema do país e considerado o “Oscar italiano”.

A garota na névoa (La ragazza nella nebbia). Itália/Alemanha/França, 2017, 128 minutos. Suspense. Colorido. Dirigido por Donato Carrisi. Distribuição: Focus Filmes



Em busca da liberdade

Primeiro medalhista de ouro da China e também um dos maiores nomes da corrida da Escócia, o atleta Eric Liddell (Joseph Fiennes) regressa às pressas a Tianjin, sua cidade natal, localizada na China, ocupada pelos japoneses durante a Segunda Guerra Mundial. Ele é preso e levado para o campo de concentração, iniciando sua derradeira jornada espiritual.

Delicado (e pouco visto) drama independente baseado na biografia do atleta medalhista de Ouro Eric Liddell (1902-1945), com Joseph Fiennes, lembrado pelo público por “Shakespeare apaixonado” (1998) e “Círculo de fogo” (2001), que interpreta com seriedade e realismo o papel do protagonista torturado no campo de concentração, numa história comovente que fala ao coração, sobre fé, sobre a monstruosidade da guerra e de como o esporte pode implodir os obstáculos da vida.
Descendente de escoceses, mas nascido e radicado na China, Eric Liddell era filho de um reverendo, que voltou ao Reino Unido para estudar Ciências na Universidade de Edimburgo. No ambiente acadêmico envolveu-se com o esporte representando a faculdade em competições de atletismo até ser convocado para os Jogos Olímpicos de 1924, em Paris (um fato que o marcou para sempre e ficou mundialmente conhecido foi sua recusa em correr num dos dias por ser domingo, data reservada para honrar a Deus) – todos esses fatos estão registrados no filme “Carruagens de fogo”, de 1981, que ganhou quatro Oscars, como o de melhor filme. “Em busca da liberdade” trata de outro momento da vida do personagem, posterior à juventude destinada ao esporte, de quando retornou à China para atuar como missionário, causa que seus pais também se dedicaram. O filme é dramático, triste e foca na guerra, de quando Liddell foi preso pelos japoneses e conduzido à força ao campo de concentração onde viu de perto os horrores e atrocidades do ser humano. Mesmo assim não perdeu a humanidade; com fé e esperança tentou se salvar e ajudar vítimas como ele.


Rodado na verdadeira Tianjin, cidade portuária da China, o drama estreou em 2016 e foi escrito e dirigido pelo cineasta de Hong Kong Stephen Shin, produtor de cinema de ação dos anos 80 e 90, de filmes como “Perseguição explosiva” (1989), “Porto da morte” (1991) e do indicado ao Bafta “A assassina” (2015). Saiu em DVD no Brasil pela Flashstar e vale ser conhecido.

Em busca da liberdade (On wings of eagles). EUA/China/Hong Kong, 2016, 96 minutos. Drama/Guerra. Colorido. Dirigido por Stephen Shin. Distribuição: Flashstar

quarta-feira, 31 de julho de 2019

Resenhas Especiais



Dois últimos filmes da famosíssima e rentável franquia de cinema, para se preparar para o novo capítulo que estreia amanhã!


Velozes & furiosos 7

Toretto (Vin Diesel) e seu grupo são perseguidos por um inteligente assassino, Deckard Shaw (Jason Statham), que deseja se vingar por terem deixado seu irmão em coma.

O melhor capítulo da franquia “Velozes & furiosos”, o que teve também a maior bilheteria de toda a série, que traz cenas de alta octanagem, perseguições incríveis e faz muito barulho. Foi neste exemplar que o ator Paul Walker morreu, coincidências do destino vítima de um grave acidente de carro numa cidade da Califórnia, em dezembro de 2013, bem no final das gravações – a essa altura do campeonato posso comentar o desfecho, uma cena emocionante com a despedida de seu personagem Brian O’Conner, sob o som de “See you again”, que concorreu ao Globo de Ouro de canção e ainda toca nas principais rádios pop. Devido a morte do astro muita gente foi ver a aparição derradeira dele, por isto tamanha bilheteria no mundo inteiro, que bateu a marca de U$ 1,5 bilhões.
Outro acerto foi a contratação do diretor James Wan, malásio, que reconduziu o gênero de terror na metade dos anos 2000 com sucessos absolutos como “Jogos mortais” (2004), “Invocação do mal” (2013) e “Invocação do mal 2” (2016), e é dele a fantástica fita de superhero “Aquaman” (2018).


A franquia já seguia bem com nova roupagem desde o capítulo quatro, aqui volta praticamente o elenco original (Vin Diesel, Paul Walker, o time feminino com Michelle Rodriguez e Jordana Brewster, Tyrese Gibson e o rapper Ludacris, além de Dwayne Johnson e Luke Evans, com participação rápida de Kurt Russell). E tem o retorno do imbatível vilão do final do filme anterior, Jason Statham, para caçar a gangue de Toretto por terem ferido o irmão dele. Eles serão perseguidos em arranha-céu, em desfiladeiro e terão de se virar com seus carros até dentro de um avião! No estilo mais absurdo possível, tipo 007.
Uma fita de adrenalina desmedida, o mais longo até agora (137 minutos), que vem ainda mais fortalecer essa franquia que não tem pretensão de acabar – reparem, a cada dois anos tem filme novo engatilhado (amanhã estreia o spin-off “Velozes & furiosos: Hobbs & Shaw”, sem Vin Diesel, e o confronto será entre Dwayne Johnson e Jason Statham). É ver para crer!

Velozes & furiosos 7 (Furious Seven). EUA/China/Japão/Canadá/Emirados Árabes, 2015, 137 minutos. Ação. Colorido. Dirigido por James Wan. Distribuição: Universal Pictures


Velozes & furiosos 8

O líder da gangue de carros possantes Dominic Toretto (Vin Diesel) casou-se com uma de suas comparsas, Letty (Michelle Rodriguez), e desde então o grupo de alta velocidade se desfez. Toretto não pretende voltar ao mundo do crime. Até que recebe um convite tentador da misteriosa Cipher (Charlize Theron) envolvendo dinheiro e um grande desafio pela frente.

Campeão de bilheteria em 2017, com repercussão no mundo todo, o oitavo filme da franquia de ação arrecadou a gorda quantia de U$ 1,240 bilhões nas dez semanas que ficou em cartaz. Um sucesso absoluto, que ajuda a franquia se expandir - a cada dois anos sai um filme novo (lembrando que amanhã estreia o spin-off “Velozes & furiosos: Hobbs & Shaw”, com Dwayne Johnson e Jason Statham).
“Velozes & furiosos 8” teve o maior orçamento da cinessérie, custando U$ 250 milhões, valores gastos exclusivamente com elenco, de nomes de peso, astros do cinema de pancadaria atual, e, logicamente, com os efeitos visuais de tirar o folego, que tem explosões absurdas, infinitas perseguições etc
A ação é eletrizante do começo ao fim, aliás, cada exemplar fica mais fantasioso e inverossímil, por isso deixe estar... É um blockbuster sem compromisso, para você parar o que está fazendo, jogar-se no sofá e curtir a barulheira, de preferência numa TV com imagem de alta qualidade e o som no último!
Gosto desse capítulo, mas o melhor continua sendo o anterior, de James Wan. Quem assume a direção aqui é o expert em cinema de ação F. Gary Gray, de “A negociação” (1998), “Uma saída de mestre” (2003) e “Código de conduta” (2009), e do recente “MIB: Homens de preto – Internacional” (2019), que é uma bomba (fujam!!). Ele gravou em vários países com cenários diferentes um do outro, como praias de Cuba, ruas agitadas de Nova York e nos lagos congelados da Islândia e da Rússia, onde temos uma sequência bárbara com carros pesados e um submarino.


Reúne o elenco principal do anterior, como Vin Diesel, Jason Statham e Dwayne Johnson (exceto Paul Walker, que havia falecido), tem participação de Kurt Russell como o enigmático Sr. Ninguém, e um plus com a maravilhosa atriz Charlize Theron interpretando uma vilã (e até Helen Mirren entra na brincadeira!).
Engraçado se compararmos a evolução da franquia desde o primeiro filme, de 2001; o que era corrida comum de carro, com rachas e brigas no volante, virou um estardalhaço de grande magnitude, com direito a tanques de guerra, canhões, submarinos, avião potentes e veículos saltando de arranha-céu.
Se gosta de passatempo desse naipe não deixe para trás... corra se divertir!

Velozes & furiosos 8 (The fate of the furious). EUA/Japão/China, 2017, 136 minutos. Ação. Colorido. Dirigido por F. Gary Gray. Distribuição: Universal Pictures

Cine Lançamento



Duas rainhas

Rainha Consorte da França, Mary Stuart (Saoirse Ronan) fica viúva aos 18 anos e volta a ocupar o antigo posto, de Rainha da Escócia.  Ela reivindica também o trono da Inglaterra, que é comandada pela prima, Rainha Elizabeth I (Margot Robbie). Isto porque Mary é descendente legítima para tal cargo, ameaçando a soberania de Elizabeth. O conflito entre as duas desencadeará intrigas violentas, conspirações, rebelião e morte na Corte.

Rivalidade, conspirações, rebelião, vingança e morte são os temas de destaque dessa superprodução épica baseada na vida de duas rainhas notórias da Europa do século XVI, Mary Stuart e Elizabeth Tudor. Primas, competiram o trono por duas décadas, num período de intensas transformações políticas e sociais na Inglaterra pós-medieval. Não é um filme grandioso, tem pequenos problemas na edição (rápida, sem ganchos) e no roteiro distanciado que não dá destaque para os conflitos das rainhas. Houveram filmes melhores sobre as personagens, como “Mary Stuart, rainha da Escócia” (de 1936, dirigido por John Ford, que trazia Katharine Hepburn como Mary Stuart e Florence Eldridge como Elizabeth), outro de mesmo título, de 1971 (de Charles Jarrott, com Vanessa Redgrave indicada ao Oscar pelo papel de Mary, e Glenda Jackson como Elizabeth), sem contar a formidável biografia da rainha Elizabeth I dirigida por Shekhar Kapur em duas ocasiões, com Cate Blanchett indicada ao Oscar nas duas vezes pelo ótimo papel – em “Elizabeth” (1998) e a sequência, “Elizabeth: A era de ouro” (2007).
Mesmo com deslizes perdoáveis, “Duas rainhas” ainda aguça a curiosidade pela intensa história de intrigas na Corte, que terminou em decapitação, e pela trilha sonora sensacional do indicado ao Emmy Max Richter, além da maquiagem assombrosa e o figurino belíssimo, estes indicados ao Oscar em fevereiro. Foi a estreia na direção de Josie Rourke, que é diretora artística da Donmar Warehouse (teatro londrino fundado em 1977), que escolheu duas atrizes feras em um momento em alta de suas carreiras, com destaque especial para Margot Robbie, coadjuvante que rouba as cenas quando aparece, mesmo que pouco (pelo forte personagem recebeu indicação ao Bafta e ao SAG, ficando fora do Oscar; ela foi indicada ao prêmio da Academia em 2018 por “Eu, Tonya”, coincidentemente disputando com a atriz Saoirse Ronan, por “Lady Bird: A hora de voar”, em sua terceira nomeação).


O roteiro de Beau Willimon, da série “House of Cards” e do drama político “Tudo pelo poder” (2011), revira as páginas do livro original “Queen of Scots: The true life of Mary Stuart”, escrito pelo historiador John Guy, de 2004, e tanto o roteirista quanto o autor defendem a ideia de que as duas rainhas realmente se encontraram frente a frente; o fato é refutado pela maioria dos historiadores, que acreditam que elas apenas se correspondiam por cartas. Elas eram primas, cada uma governava um canto no Reino Unido, até que o jogo mudou vorazmente. Preste atenção pois há muitos detalhes históricos que podem causar confusão de nomes e acontecimentos. Só para deixar ajudar o leitor deste texto: Mary Stuart (1542-1587) ficou viúva um ano e meio após se casar com o rei da França, Francisco II. Ela tinha 18 anos, precisou voltar à Escócia, retornou ao cargo de rainha e apoiada por católicos ingleses e reivindicou o poder também na Inglaterra, entrando em conflito com a prima que era a governante do território, rainha Elizabeth I. Mary era a única descendente legítima do rei Jaime V, da Escócia, tinha seis dias quando assumiu o trono, com a morte do pai, e usufruiu o poder de rainha do país natal por 25 anos (de 1542 até ser forçada a abdicar, em 1567). Há poucas, mas intensas cenas de embate entre as duas personagens, mesmo que à distância (os conflitos e sequências emocionantes do encontro entre elas ficam para o final).
Coprodução Reino Unido/Estados Unidos, foi rodado em regiões da Grã-Bretanha e não teve bilheteria boa – estreou no AFI Fest, em novembro de 2018, passou no Brasil somente em abril deste ano e saiu em DVD esta semana, num disco único, recheado de bons extras.
Curiosidade: o projeto do filme nasceu em 2006, e Scarlett Johansson seria a protagonista, mas desistiu, assim como a direção seria de Susanne Bier. Engavetaram o filme, e só depois de 12 anos o fizeram (talvez isto tenha contribuído para as falhas do roteiro e edição). Mesmo assim vale a experiência.

Duas rainhas (Mary Queen of Scots). Reino Unido/EUA, 2018, 124 minutos. Drama. Colorido. Dirigido por Josie Rourke. Distribuição: Universal Pictures

terça-feira, 30 de julho de 2019

Resenhas Especiais



Especial "Amityville". Textos publicados na coluna Middia Cinema, da revista Middia, edição de julho/agosto de 2019.

Terror em Amityville

O casal George (James Brolin) e Kathy (Margot Kidder) muda-se com os filhos pequenos para um antigo casarão em Amityville, que no ano anterior foi palco de um crime horrendo. Eles não sabem que o novo lar é possuído por um espírito do mal em busca de vingança.

Três semanas atrás foi anunciado um prequel do filme “Terror em Amityville”, que terá o título de “Amityville 1974” e explicará os terríveis fatos ocorridos com a verdadeira família DeFeo, que inspiraram o roteiro deste filme de 1979.
Baseado no livro homônimo de Jay Anson, “Terror em Amityville” obteve um inesperado sucesso nos cinemas na época, arrepiou o público com sua intrigante história de medo dentro de um casarão tomado por forças demoníacas. Com a repercussão, diretores copiaram a fórmula, e este filme deu origem a nove continuações (muitas delas diretamente para video), um remake e um reboot – mas este original foi eleito o mais famoso sobre casas mal-assombradas (não é o melhor, sinto problemas na montagem com cortes bruscos, mas tem clima e assusta).
Sobre a história real: em 3 de novembro de 1974, um casarão colonial em Amityville, localizado em Long Island, Nova York, virou palco de um assassinato chocante, em que morreram seis membros da família DeFeo. Pai e mãe foram mortos, assim como quatro filhos do casal, sem motivo aparente. O crime foi cometido pelo filho mais velho da família, Ronald, que confessou tê-los matado; segundo ele, uma voz macabra dentro de sua cabeça ordenou as mortes. Ele foi preso e julgado. Um ano depois, em dezembro de 1975, uma nova família mudou-se para a casa, os Lutz. O casal e os filhos pequenos foram cruelmente atormentados (primeiro o pai, depois o restante da família) por 28 dias, até que fugiram apavorados. O filme tenta ser fiel ao mostrar um pouco do terrível caso dos Lutz a partir do livro de Anson, que conviveu com a família para escrever a história. Ou seja, o que vemos na tela ocorreu, conforme fatos descritos no romance original (eu li recentemente, gostei e indico – saiu dois anos atrás pela Darkside Books). Quem tem medo de fitas de terror com fatos não explicados, atribuídos a fantasmas e demônios, pode ficar impressionado (a continuação, “Amityville II: A possessão”, é ainda mais tensa e forte).


“Terror em Amityville” recebeu indicação ao Oscar e ao Globo de Ouro de trilha sonora. No elenco, além de James Brolin (pai de Josh Brolin) e Margot Kidder (a eterna Louis Lane da primeira franquia para cinema de “Superman”, dos anos 70 e 80) tem o premiado ator Rod Steiger como o padre (numa cena famosa em que moscas sobem em seu rosto), Don Stroud, Murray Hamilton, Helen Shaver, Michael Sacks e Val Avery.
Stuart Rosenberg (1927-2007) dirigiu pela primeira e única vez uma fita de terror; ele é conhecido por fitas policiais como “Matança em São Francisco” (1973), e dirigiu Paul Newman várias vezes, dentre eles em “Rebeldia indomável” (1967), “A sala dos espelhos” (1970), “Meu nome é Jim Kane” (1972) e “A piscina mortal” (1975).
Está presente no box “Trilogia Terror em Amityville”, pela primeira vez em DVD no Brasil, distribuído pela Obras-primas do Cinema. Vem junto a ótima continuação, “Amityville II: A possessão” (1982) e o inferior “Amityville 3: O demônio” (1983).

Terror em Amityville (The Amityville Horror). EUA, 1979, 118 minutos. Terror. Colorido. Dirigido por Stuart Rosenberg. Distribuição: Obras-primas do cinema. Disponível em DVD


Amityville II: A possessão

Uma nova família, os Montelli, chega em Amityville, Long Island, e aluga o casarão da 112 Ocean Avenue para morar. Pai, esposa e filhos desconheciam a maldição que habitava a casa, e a partir de agora serão alvo de manifestações demoníacas.

Ainda melhor que o “Terror em Amityville” (1979), a continuação “Amityville II: A possessão” (1982) se passa antes do primeiro e explica os motivos da casa de Amityville ter sido mal-assombrada (Leia a crítica do filme “Terror em Amityville”). A fictícia família Montelli seria os verdadeiros DeFeo, aqueles que foram assassinados em 1974 (perceba que são um casal e quatro filhos). Reconstitui-se a origem de tudo, com muita tensão, medo e sequências de arrepiar.
A história continua macabra, aqui acrescentando possessão demoníaca do filho mais velho (a maquiagem continua assustadora, a voz grossa do personagem como se fosse o diabo falando dá medo), exorcismos, mortes brutais. Ela foi baseada não mais na obra de Jay Anson, mas no livro “Murder in Amityville”, de Hans Holzer.


Dino de Laurentiis produziu e trouxe para a direção Damiano Damiani (de fitas italianas de máfia, como “O dia da coruja”, “Confissões de um comissário de polícia” e “Advertência”), levando a equipe para gravar partes em estúdio no México e cenas externas nos Estados Unidos. Tudo com um novo elenco (tem Burt Young, James Olson, Rutanya Alda, o protagonista Jack Magner, Moses Gunn e Leonardo Cimino). O resultado deu certo, o clima de terror é melhor inserido, a história é contada com mais interesse. Tentou ser um recomeço, porém depois desse a franquia virou meleca, com nove continuações de ruim a péssimo, um remake fajuto, “Horror em Amityville” (2005), e o desprezível reboot “Amityville: O despertar” (2017).
O filme saiu mês passado no box “Trilogia Terror em Amityville”, pela Obras-primas do Cinema. Vem junto com a primeira parte, “Terror em Amityville” (1979) e com a terceira, “Amityville 3: O demônio” (1983).


Amityville II: A possessão (Amityville II: The possession). EUA/México, 1982, 104 minutos. Terror. Colorido. Dirigido por Damiano Damiani. Distribuição: Obras-primas do cinema. Disponível em DVD

sábado, 27 de julho de 2019

Resenha Especial



Velozes & furiosos 6

O “esquadrão de elite” de Dominic Toretto (Vin Diesel) retorna com voracidade para enfrentar, sobre rodas, o destemido Shaw (Luke Evans) e seu grupo de mercenários.

Em números, o sexto capítulo de “Velozes e furiosos” ficou, por semanas, no topo do ranking da bilheteria norte-americana quando do lançamento, em maio de 2013. Faturou mundialmente bons U$ 790 milhões, sendo o terceiro maior rendimento da franquia – as duas sequências renderam ainda mais, U$ 1,5 bi (parte 7) e U$ 1,2 bi (parte 8). O fenômeno de público que esse filme causou, principalmente entre os jovens dos Estados Unidos, pode ser muito bem entendido pelo tratamento da produção: sequências absurdas de explosões, corridas de carro impossíveis, de tirar o fôlego, incrementadas com reviravoltas certeiras. A parte técnica melhorou muito desde o filme número quatro (2009), não há o que discutir. Outro motivo é o retorno completo do elenco original, que empolgou os fãs – as continuações iam perdendo os astros do primeiro, agora temos Paul Walker (falecido seis meses depois, em dezembro de 2013, de acidente de carro, quando gravava a parte sete de “Velozes”), Vin Diesel, Jordana Brewster e Michelle Rodriguez. Acertaram também ao convocar o brutamontes Dwayne Johnson (que aparecia no anterior, “Operação Rio”, filmado no Rio de Janeiro), que encabeça a trama junto com o fortão Vin Diesel, além do vilão Luke Evans, Tyrese Gibson e do rapper Ludacris. Eles arrebentam tudo com suas máquinas de ferro destruidoras - tem até tanque de guerra, aviões e perseguição no ar!


É um blockbuster movimentadíssimo para público jovem que quer adrenalina a fim de vibrar na cadeira com os carros possantes. Portanto curte-se sem compromisso com pipoca na mão. Como muita gente tenta imitar as corridas de carro, no final de cada exemplar da franquia há uma mensagem de alerta, de que a produção foi feita por uma equipe técnica especializada, com apoio de dublês etc – e realmente quem assiste quer se sentir poderoso diante do volante. Foi gravado em diversos países, como China, EUA, Espanha (e Ilhas Canárias) e Escócia, e novamente dirigido pelo chinês Justin Lin, que rodou as três fitas anteriores.
Saiu recentemente em um novo box em DVD e Bluray com os oitos exemplares da cinessérie, num momento oportuno já que na próxima semana estreia o spin-off “Velozes & furiosos: Hobbs & Shaw” (com Vin Diesel e Jason Statham).

Velozes & furiosos 6 (Furious 6). EUA/Japão/Espanha/Reino Unido, 2013, 130 min. Ação. Colorido. Dirigido por Justin Lin. Distribuição: Universal Pictures

Cine Lançamento



Bem-vindos a Marwen

Uma terrível agressão em um bar deixa o fotógrafo Mark Hogancamp (Steve Carrel) em coma, sem memória e com ferimentos profundos no rosto. Aos poucos recupera-se das lesões e recebe alta. Sozinho, fecha-se em casa e lá cria um mundo paralelo com bonecos que ele colecionava, que adquirem vida própria e o ajudam a destruir os fantasmas do passado.

Outro filme de Robert Zemeckis com a técnica de motion capture, onde os atores gravam as cenas revestidos por sensores em pontos estratégicos do corpo, e depois, com computação gráfica, um personagem é inserido nele – entre 2004 e 2018 o premiado cineasta experimentou quatro vezes os recursos, em “O expresso polar” (2004), “A lenda de Beowulf” (2007), “Os fantasmas de Scrooge” (2009) e agora em “Bem-vindos a Marwen” (2018). Diferente dos anteriores, este é uma animação em CG, mas com atores contracenando juntos. Outra diferença é o teor real da história. Zemeckis traz à tona, com sensibilidade, uma biografia forte sobre violência causada por preconceito e superação diante de terríveis tragédias que estamos sujeitos. Traça assim parte da trajetória do fotógrafo Mark Hogancamp, que em 2000, num bar, foi brutalmente espancado por cinco rapazes após comentar que era cross dresser (ele gostava de se vestir de mulher). Quase morreu, ficou em coma, com uma profunda cicatriz no rosto – os agressores foram detidos, depois soltos e nunca cumpriram pena. Hogancamp saiu do hospital com sequelas, dentre elas a perda de memória, e foi para casa, trancando-se em um mundo paralelo que ele cria no quintal. Lá ele montou uma cidade de bonecos, com action figures que colecionava, projetando-se nas histórias incríveis de aventura e guerra inventadas pela sua mente ideativa. Por exemplo, os agressores que bateram nele aparecem como soldados nazistas na Segunda Guerra Mundial, enquanto ele é um fuzileiro corajoso, auxiliado por um grupo de mulheres atiradoras. A cidade em miniatura é chamada por ele de Marwen, um local onde Hogancamp abstrai as tristezas e tenta conviver num mundo sem amarguras ao lado das figuras de plástico. E lá também explorava seu lado profissional, de fotógrafo, captando com uma máquina moderna cada movimento dos bonecos (tempos depois as fotos de Hogancamp foram recuperadas, expostas e tornaram-se mundialmente famosas).
Zemeckis contou uma lentidão e poesia uma história dramática e tristonha que lembra o seu “Forrest Gump” (pelo qual ganhou o Oscar de diretor, em 1995) – ambos os personagens são cidadãos solitários que narram histórias incríveis para apagar seus fantasmas do passado. “Bem-vindos a Marwen” mantem um ritmo calmo, alternando uma cena aqui e ali de aventura e guerra, com fantasia, em que Steve Carell, que costuma ser vibrante em cena, teve de se abster para compor esse estranho personagem sem carisma, robotizado, com o objetivo de tratar com poucas expressões o amargor de sua vida. Ele é um dos poucos homens do filme, contracenando com Leslie Mann, Diane Kruger, Eiza González, a esposa do diretor Leslie Zemeckis e Gwendoline Christie (elas intercalam aparições “de carne e osso” e também como boneco).


Não só o destaque vai para a história como para a técnica, um primor, em que os bonecos conversam (como se fosse uma extensão de pensamento do protagonista), lutam, atiram, matam, fogem de carro etc.
Zemeckis também escreveu o roteiro, uma adaptação direta do premiado documentário “Marwencol” (2010), junto de Caroline Thompson, criadora de “Edward Mãos de Tesoura” (1990) – outro filme que em partes se assemelha com “Marwen”.
Fracassou nas bilheterias (acumulou U$ 13 milhões contra um custo de U$ 40 mi) e recebeu comentários negativos por boa parte da crítica, mas eu gostei e recomendo, pelo ponto de vista da técnica brilhante, pela história inusitada e pelas sérias questões tratadas sobre preconceito e violência.
Saiu esta semana em DVD pela Universal Pictures, com extras imperdíveis!

Bem-vindos a Marwen (Welcome to Marwen). EUA/Japão, 2018, 115 minutos. Drama/Animação. Colorido. Dirigido por Robert Zemeckis. Distribuição: Universal Pictures

Estreias da semana – Nos cinemas e streamings – Parte 2

O delator   Fita porrada de ação sul-coreana com bastante dose de humor, “O delator” (2025) é um lançamento exclusivo nos principais streami...