sexta-feira, 26 de julho de 2019

Resenha Especial



Tigre Branco

Integrante do Exército Vermelho durante a Segunda Guerra Mundial, o tanquista Ivan Naydionov (Aleksey Vertkov) é encontrado quase morto num campo de batalha. Soldados o levam para um hospital de guerra, onde fica internado por poucos dias. Os ferimentos de Naydionov cicatrizam de forma rápida, surpreendendo os médicos, e ele recobra a consciência. Recuperado, conta detalhes de um inacreditável embate que teve com um indestrutível tanque alemão, apelidado de Tigre Branco, que desaparecia misteriosamente na floresta.

Um dos filmes mais sombrios, ambíguos e simbólicos do russo Karen Shakhnazarov, que aniversariou este mês; ele é um cineasta importante da Rússia, que também escreve e produz, e desde 1998 é diretor do maior estúdio de cinema do seu país, a Mosfilm, fundado em 1920. Rodou em Moscou, em estúdios e com cenas externas em verdadeiros campos de batalha este impressionante drama de guerra que tentou disputar uma vaga no Oscar de 2013, na categoria de filme estrangeiro, porém ficou fora da lista dos finalistas.
A história escrita por ele e pelo parceiro de longa data Aleksandr Borodyanskiy - escreveram também “Sonhos” (1993), “A filha americana” (1995), “Palata n°6” (2009), entre outros, e até dirigiram juntos, tem como argumento o romance homônimo de Ilya Boyashov, em que mantiveram a influência do Realismo Fantástico na construção do personagem-chave, o enorme tanque alemão que aparece do nada como um fantasma, destrói tudo pela frente e some sem deixar vestígios. Algo místico e sobrenatural. A única pessoa que o vê é o soldado tanquista Ivan Naydionov, mas acabou ferido pela máquina de matar e escapou por um milagre (outro ponto do Realismo Fantástico, quando o jovem que teve 95% do corpo queimado recupera-se em poucos dias, desafiando a Medicina). Ninguém acredita na história do Tigre Branco contada pelo tanquista, todos acham que ele enlouqueceu, e aos poucos fatos estranhos surgem para creditar verdade em seus depoimentos.


Shakhnazarov fez uma obra desafiadora e complexa, uma fita de guerra e ação difícil de ser produzida, pois gravou, com poucos recursos, em extensos campos de batalha, vilarejos destruídos e com tanques de verdade. O roteiro é brilhante, e quando chega nos créditos finais, pensamos: “Que grande filme!” - assisti duas vezes para compreender as referências e analogias, o que recomendo você fazer o mesmo.
Para mim é o melhor Shakhnazarov, um trabalho denso e maduro. Vale destacar que o diretor prestou uma homenagem ao pai que lutou na Grande Guerra Patriótica, termo utilizado pelos russos para descrever o conflito com a Alemanha Nazista entre 1941 e 1945. Disponível em DVD pela CPC-Umes Filmes.

Tigre Branco (Belyy Tigr/ White Tiger). Russia, 2012, 104 minutos. Ação/Guerra. Colorido. Dirigido por Karen Shakhnazarov. Distribuição: CPC-Umes Filmes. Disponível em DVD

quinta-feira, 25 de julho de 2019

Cine Lançamento



Mademoiselle Paradis

Viena, 1777. A pianista cega Maria Theresia Paradis (Maria Dragus) é levada pelos pais para participar de um tratamento com o controverso médico Franz Anton Mesmer (Devid Striesow), com o intuito de recuperar a visão. Este médico e cientista atua com uma técnica pioneira de magnetismo, com atendimento coletivo de pessoas que sofrem de doenças que a medicina tradicional não resolve. Após algumas sessões, Maria percebe que sua visão melhora, mas ela começa perder o talento musical. Os pais, autoritários, pensam então em retirar a jovem das mãos do médico.

Intenso e instigante filme biográfico sobre a juventude da pianista austríaca Maria Theresia von Paradis (1759-1824), quando tentou tratamentos médicos alternativos para voltar a enxergar. Baseado no livro “Mesmerized” (2010), da escritora e artista alemã Alissa Walser, este bom drama de época é uma coprodução Áustria/Alemanha, exibido no Festival Internacional de Toronto, onde concorreu a vários prêmios.
Na Viena da metade para o final do século XVIII, no período frutífero de Mozart (ele até criou uma composição em homenagem a Maria Paradis), a jovem pianista que ficou cega quando criança tinha 18 anos. Solitária, sem amigos próximos, recebe uma educação autoritária dos pais. A música cerca a rotina de Maria, que adquire gosto pelo piano e inicia uma carreira prodigiosa tocando para grupos pequenos em palácios. Ela era filha de um dos secretários imperiais da rainha Maria Theresa, da Casa de Habsburgo, homem influente e rico. Por muito tempo o pai a levou a médicos convencionais na tentativa de uma cura para a cegueira, sem sucesso nos tratamentos, até que fica sabendo de um médico, Dr. Mesmer, que poderia ser a salvação da menina. Ele criou o tal do Mesmerismo, uma técnica de magnetismo animal que gerou polêmica e discussões no mundo da Ciência. Maria então integra um grupo de doentes para receber as ondas magnéticas pelo corpo, e o tratamento demonstra melhora em sua condição; no entanto a pianista regride no talento musical, perdendo a habilidade quando está diante do piano. Contra a vontade dos pais, ela é forçada a abandonar o tratamento, o que a faz voltar à escuridão em todos os sentidos.


O filme discute a criação de pais com seus filhos numa sociedade repressora e machista, de forma quase didática, expositiva e com embates. Tem uma parte técnica impecável conciliando a linda fotografia de época a uma direção de arte muito bem pesquisada, figurinos exuberantes a uma maquiagem refinada, com um trabalho impressionante de Maria Dragus, atriz romena, de 23 anos, de “A fita branca” (2009) e “Duas rainhas” (2018). Sua personagem é de uma força fora de série, uma jovem reprimida e sufocada pelos padrões da sociedade, querendo libertar-se a todo instante. Ela foi uma pequena voz contra a opressão, e sua biografia até que enfim foi contada, sublimemente (quase ninguém conhece a história dela).
Lançado em festivais da Europa em 2017, passou nos cinemas brasileiros com atraso de dois anos, em maio de 2019, e saiu há poucos meses em DVD pela Focus Filmes. Quem assina a direção é uma mulher, por isso o filme no ponto de vista feminino, chamada Barbara Albert – ela é austríaca, tem 47 anos, fez alguns trabalhos de cinema em seu país, mas quase nenhum veio para cá.

Mademoiselle Paradis (Idem). Áustria/Alemanha, 2017, 96 minutos. Drama. Colorido. Dirigido por Barbara Albert. Distribuição: Focus Filmes

Resenha Especial


Cidade dos Ventos

Na Rússia da década de 70 dois estudantes disputam o amor de uma garota. Amigos de faculdade, eles discutem política, futuro, desilusões, e se veem ameaçados quando o regime socialista começa a ruir.

No mês de aniversário do cineasta russo Karen Shakhnazarov, que completou 67 anos no último dia 08, venho publicando uma série de resenhas sobre seus filmes lançados em DVD pela CPC-Umes Filmes, a única especializado no Brasil em cinema soviético e russo. Já saíram textos sobre “Noite de inverno em Gagra” (1985), “Sonhos” (1993) e “A filha americana” (1995), obras fundamentais para compreender o cinema russo da atualidade. “Cidade dos Ventos” é a resenha desta semana, um dos filmes mais pessoais do diretor, produzido pela Mosfilm em 2008 e que chegou ao mercado brasileiro em DVD no ano passado. Shakhnazarov não escreveu desta vez o roteiro, porém volta a discutir a crise na Rússia pós-Socialismo, de forma dramática, com um pano de fundo de romance. A história se passa em Moscou da década de 70 e envolve um triângulo amoroso entre dois garotos e uma jovem estudante. Um deles é entusiasta do regime socialista, o outro é dissidente, e juntos falam sobre vitórias, desapontamentos amorosos e não poderia faltar a política. O ambiente é de uma certa tensão, a URSS da época andava na corda bamba e o Comunismo dava sinais de fraqueza (ambos acabariam 15 anos mais tarde, no início da década de 90). Diante das mudanças que já afetavam a sociedade, de uma Rússia resistente na abertura política e econômica, os três amigos pensam no futuro, em mudar de país, em encarar novos trabalhos.


É um filme lento, puramente construído com diálogos, pouco trilha sonora, com ritmo reduzido, próprios da natureza do cinema de arte. E trata muito de política. Eu indico o cinema de Shakhnazarov aos cinéfilos que já conhecem a linguagem do cinema cult, é uma opção num mercado tão pequeno. Está somente disponível em DVD – e aproveitem para conhecer o rico catálogo de fitas soviéticas e russas da CPC-Umes, disponível em http://www.cpcumesfilmes.org.br - são mais de 40 títulos, de diversas épocas e gêneros!

Cidade dos Ventos (Ischeznuvshaya imperiya/ The vanished empire). Russia, 2008, 105 minutos. Drama. Colorido. Dirigido por Karen Shakhnazarov. Distribuição: CPC-Umes Filmes. Disponível em DVD.

quarta-feira, 24 de julho de 2019

Resenhas Especiais


Duas comédias românticas da California Filmes que se passam na França! Dica de cinema de hoje!


Paris pode esperar

Uma dor de ouvido impede Anne (Diane Lane) de viajar com o marido, o produtor de cinema Michael Lockwood (Alec Baldwin). Eles estão em Cannes, no famoso festival de cinema francês. Michael segue de avião para Budapeste enquanto Anne resolve ir de carro para Paris. Quem a leva é o sócio do produtor, um bon vivant chamado Jacques (Arnaud Viard). A viagem, que demoraria sete horas, durará vários dias, pois no caminho Jacques fará diversas paradas para que Anne conheça lugares belíssimos do interior da França, numa aventura gastronômica sem limites.

A esposa de Francis Ford Coppola, Eleanor Coppola, estreou no cinema ficcional com este charmoso filme, aos 80 anos de idade. Mãe da atriz e cineasta Sofia Coppola, antes ela havia dirigido apenas um documentário, “Francis Ford Coppola – O apocalipse de um cineasta” (1991), ganhador do Emmy. Fez em seguida curtas doc menos lembrados, e com maturidade e muita vivência nas costas entrou de cara no cinema de ficção com o independente “Paris pode esperar”, escrito e produzido por ela. É uma alegre comédia romântica para público que curte filmes sobre passeios gastronômicos, que no final dá uma fome lascada!
A personagem da ótima Diane Lane traz características pessoais de Eleanor Coppola, que durante uma vida inteira acompanhou no set o marido, o diretor e produtor Francis Ford Coppola (eles são casados desde 1963), e ao mesmo tempo tinha de lidar com a solidão da ausência dele diante de seus projetos cinematográficos que exigiam dedicação extrema.
Lane interpreta essa Eleanor, uma mulher de meia-idade casada com um produtor de cinema de Hollywood workaholic, só focado em trabalho. Uma dor de ouvido faz com que ela não possa pegar avião com o esposo, então opta em voltar para Paris de carro, com um amigo e sócio francês do marido, um homem alegre, de bem com a vida. Nessa viagem pelo interior da França a dupla irá cruzar por paisagens estonteantes e iluminadas, com direito a comidas apetitosas, de sabores variados, regadas a vinhos únicos, algo que injeta ânimo de espírito para aquela mulher que necessita de atenção e afeto. O que acontecerá com os dois amigos em viagem? Assista para descobrir (e se entusiasmar)!
Diane Lane dá o tom e o charme necessário para o filme se desenrolar. E o francês Arnaud Viard se joga com graça e agitação num de seus melhores papéis no cinema. Outro ponto alto são as autênticas locações, de cidades provincianas da França, uma beleza para os olhos!

Paris pode esperar (Paris can wait). EUA/Japão, 2016, 92 minutos. Comédia romântica. Colorido. Dirigido por Eleanor Coppola. Distribuição: California Filmes


Um amor à altura

Diane (Virginie Efira), uma advogada que divide o escritório com o ex-marido, conhece um arquiteto bem-sucedido e sedutor, Alexandre (Jean Dujardin), por quem se apaixona. Ele tem baixa estatura, mas ela não se importa. Porém a família não aceita o relacionamento, e a sociedade passa a ridicularizar o casal, o que faz Diane repensar o namoro.

Caprichado remake da comédia “Coração de Leão – O amor não tem tamanho” (2013, uma coprodução Argentina e Brasil que já era bem legal), que manteve fielmente a história de uma jovem bonita que se apaixonava por um homem de baixa estatura enfrentando preconceito da família e da sociedade. Agora a produção se passa na França, dirigida por Laurent Tirard, de boas fitas populares de comédia de época, como “As aventuras de Molière” (2007) e “O retorno do herói” (2018, também com Jean Dujardin), e dos infantis “O pequeno Nicolau” (2009) e a continuação, “As férias do pequeno Nicolau” (2014). Ele adaptou o roteiro original do anterior (que foi escrito pelo próprio diretor, o argentino Marcos Carnevale), atingindo um resultado acima da média de uma refilmagem (lembrando que muitos remakes não dão certo, ficam cópia escancarada, repetidas, sem nada novo para contar).
Ganhador do Oscar de ator por “O artista” (2011), o francês Jean Dujardin está à vontade no papel do arquiteto que sofre por ser pequeno de tamanho, um romântico à moda antiga em busca de um grande amor. Cheio de graça, ele manda bem na frente das câmeras, e ficou parecendo um anão com efeitos especiais de sobreplanos. A sua parceria de cena, a belga Virginie Efira, de “Elle” (2016) e “Na cama com Victoria” (2016), acrescenta humor e drama no papel da mulher dividida, que a duras penas tem de encarar o romance malvisto pelos amigos e pelos seus pais. Os dois têm uma incrível química, superam-se a cada momento, num filme que mexe com nossos sentimentos, alternando cenas engraçadas com românticas, além das dramáticas, para se refletir sobre o preconceito enraizado em todos os lugares, desde piadas que parecem inofensivas até apontamentos e risadas direcionados a pessoas que fogem do padrão de beleza imposto pela sociedade.
Assista com consciência e se possível veja o original, de 2013.

Um amor à altura (Un homme à la hauteur). França, 2016, 98 minutos. Comédia romântica. Colorido. Dirigido por Laurent Tirard. Distribuição: California Filmes

domingo, 14 de julho de 2019

Resenha Especial



Mais um filme em DVD de Karen Shakhnazarov, que completou 67 anos esta semana e é um dos mais importantes cineastas da Rússia atual.

A filha americana

Separado da esposa, o músico solitário Varakin (Vladimir Mashkov) deseja desesperadamente ver a filha pré-adolescente, Anya (Allison Whitbeck), que mora nos Estados Unidos com a mãe. Viaja da Rússia, onde sempre viveu, com destino àquele país, totalmente estranho para ele. No encontro entre os dois, que acarretará em um choque de cultura, pai e filha tentarão restabelecer os laços familiares.

Um dos trabalhos mais leves e afetuosos do cineasta russo Karen Shakhnazarov (que aniversariou esta semana, completando 67 anos, 40 deles dedicados ao cinema do seu país – ele também é roteirista, produtor e diretor da Mosfilm, o principal estúdio da Rússia).
“A filha americana”, em DVD pela CPC-Umes Filmes, é um road movie com pegada country produzido na Rússia, porém inteiramente rodado nos Estados Unidos, de gênero drama, com um humor sutil e casual, sobre relacionamento de pais com filhos distantes.
O ponto de partida do bom roteiro, novamente escrito pela dupla de velhos parceiros, Aleksandr Borodyanskiy e Karen Shakhnazarov, é a busca de um pai pela filha, que precisará atravessar o oceano para vê-la pela primeira vez. Ele é um músico russo, separado da esposa (que mora nos Estados Unidos), então viaja até lá de forma secreta com o compromisso desse encontro definitivo. O encontro acontece – o pai é caladão, não fala inglês, só observa a filha, que por outro lado fala bastante (só em inglês). Enquanto tentam se comunicar, os laços entre eles são estabelecidos de gradualmente em que recuperam o afeto perdido.
Como nos filmes anteriores, o diretor e roteirista Karen Shakhnazarov abre uma série de significados políticos referentes às mudanças ocorridas na Rússia após o desmembramento da URSS, quatro anos antes (esse filme é de 1995). A aproximação de pai e filha é uma analogia à Rússia, república velha e em crise, à procura de laços com a nação americana, um país viril, dominante, com mentalidade jovem. Lembrando da História, por 46 anos houve a Guerra Fria, entre os blocos URSS e EUA, os países eram inimigos, depois com a queda da URSS em 1991 as relações entre eles se tornou amigável, mas voltou a esfriar no início dos anos 2000; ainda hoje a crise entre os dois permanece. Desse modo o filme procura refletir essas relações. Tanto que o cineasta rodou o drama 100% nos Estados Unidos, em várias cidades do Estado da Califórnia - o único dele filmado no país do Tio Sam.


No papel do pai, Vladimir Mashkov, do russo “O ladrão” (1997), indicado ao Oscar de filme estrangeiro, e de fitas blockbuster norte-americanas em que quase sempre interpreta vilão, como “Atrás das linhas inimigas” (2001), “15 minutos” (2001) e “Missão: Impossível – Protocolo fantasma” (2011). Já a amorosa garotinha Anya é feita por Allison Whitbeck, que esteve também em “Jack” (1996), depois abandonou a carreira.
Repare que há uma narração em russo nos momentos das falas em inglês. Disponível em DVD numa excelente cópia restaurada pela Mosfilm, distribuída no Brasil pela CPC-Umes Filmes.

A filha americana (Amerikanskaya doch/ American daughter). Russia/Cazaquistão, 1995, 92 minutos. Comédia/Drama. Colorido. Dirigido por Karen Shakhnazarov. Distribuição: CPC-Umes Filmes. Disponível em DVD

sexta-feira, 12 de julho de 2019

Resenha Especial


Sonhos

A condessa Prizorova (Amaliya Mordvinova) sonha com fatos estranhos que a projetam para um futuro de 100 anos, em 1993. No sonho ela é uma faxineira de um bar em Moscou, que precisará se prostituir para ajudar o marido em crise moral e financeira.

Fita russa notória no país na década de 90, esta comédia dramática densa é assinada pelo diretor, roteirista e produtor russo Karen Shakhnazarov, que completou 67 anos no último dia 08. Na semana do aniversário do cineasta vou comentar sobre alguns de seus principais filmes disponíveis em DVD no Brasil, e um deles é “Sonhos” (1993) – falei recentemente de outros dois dele, “Noite de inverno em Gagra” (1985) e “Anna Karenina: A história de Vronsky” (2017).
“Sonhos” é mais uma reflexão de Shakhnazarov sobre o desmembramento da URSS, ocorrido em 1991; o filme foi gravado dois anos depois da dissolução da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, composta por 15 países e que existiu por 70 anos, focando a dificuldade do povo russo quanto à restauração do modelo político-econômico do capitalismo. Por meio do humor discreto, um drama de época e devaneios da protagonista, a condessa, quando está dormindo, a obra carrega uma forte crítica social. Quando foi feito, em 1993, o país era governado por Boris Yeltsin, o primeiro presidente pós-colapso da URSS, que ficou no cargo até 1999. A população enfrentava grave crise social, passava fome diante de uma inflação absurda que chegava a 2000%, e isto aparece na história de “Sonhos” - para se ter uma ideia, o marido da personagem principal faz qualquer coisa para ganhar dinheiro, como vender fotos nuas da mulher e forçá-la a se prostituir para que membros do FMI liberem créditos para melhorar a crise no governo!


Este é um filme político, crítico e muito bem escrito, a quatro mãos, pelos parceiros de velha data Karen Shakhnazarov e Aleksandr Borodyanskiy (juntos fizeram o roteiro de “Cidade zero”, “Assassinato do tzar”, que concorreu à Palma de Ouro em Cannes, “A filha americana”, “Tigre branco”, dentre outros).
No elenco um dos maiores atores russos, Oleg Basilashvili, de “Maratona de outono” (1980) e “Cidade zero” (1988), que compõe uma figura contraditória, dificilmente de ser esquecida.
Disponível em DVD pela CPC-Umes na série “Cinema Soviético”, que vem lançando desde 2015 filmes cult do cinema de lá. Está numa cópia belíssima que vale cada minuto, restaurada pela Mosfilm.

Sonhos (Sny/ Dreams). Russia, 1993, 74 minutos. Comédia/Drama. Colorido. Dirigido por Karen Shakhnazarov e Aleksandr Borodyanskiy. Distribuição: CPC-Umes Filmes. Disponível em DVD

quarta-feira, 10 de julho de 2019

Resenhas Especiais



Especial Trilogia 'Sissi'


Clássicos que conquistaram o público e firmaram a carreira da atriz Romy Schneider voltam ao catálogo da Versátil!


Sissi

Sissi (Romy Schneider) é uma garota romântica, que se apaixona pelo futuro noivo de sua irmã mais velha, o imperador austro-húngaro Franz Josef (Karlheinz Böhm). Sete anos mais velho, Josef também sente forte atração pela jovem. Os dois iniciam um romance que duraria uma vida inteira.

O primeiro filme da trilogia de sucesso “Sissi” encantou gerações e levou a atriz Romy Schneider, então com 17 anos, ao estrelato. Com carisma, beleza e elegância, ela interpreta uma jovem sonhadora que se vê envolvida com o futuro noivo da irmã mais velha. Sissi desconhecia o fato de ele ser imperador, acabaram se apaixonando e em breve se casaram com pompa, e por isto ela recebeu o título de “Imperatriz da Áustria”.
O filme, um drama romântico em formato de opereta, é baseado em fatos verídicos que envolvem uma das últimas dinastias da Baviera, que governou por 600 anos, e uma das figuras mais marcantes dela, a imperatriz Elizabeth da Áustria (1837-1898). Idealiza e romanceia o perfil da personagem-título, nascida na Alemanha, que desde pequena tinha o apelido carinhoso de Sissi. Ela foi duquesa, depois princesa da Baviera até finalmente ser imperatriz-consorte da Áustria, devido ao casamento com o imperador Franz Josef I (ou Francisco José I) - a ideia da mãe de Franz era casar o filho com a irmã mais velha de Sissi, Helena, mas Sissi, no dia em que acompanhava a família para o encontro do futuro casal, apaixonou-se por Josef, numa troca recíproca, mudando o curso da história!


A verdadeira Sissi, pelo que se conhece da História, era uma mulher bem diferente daquela mostrada no famoso filme: tinha uma vaidade extrema, era uma esposa infeliz, sofria de depressão e anorexia, obcecada por dietas rígidas. Na política tinha ideais liberais, quebrava protocolos, ajudava os pobres, o que a tornou popular entre os súditos. E morreu assassinada em Genebra, por um anarquista italiano, aos 60 anos. O roteirista e diretor austro-húngaro Ernst Marischka (1893–1963) personificou Sissi de um jeito singular, mais ameno e alegre, extraindo a parte trágica da sua biografia, inclusive a morte. Ou seja, criou uma obra de apelo mais popular, para todos os gostos, romântica e exuberante na direção de arte e fotografia (realmente um deleite para quem gosta de filmes de época). Aliás, muitos filmes biográficos produzidos entre as décadas de 50 e 60 romantizavam os protagonistas.
O cinema alemão se popularizava no Brasil na década de 50, e “Sissi” veio na onda, ganhando o carinho do telespectador não só daqui, mas da Europa inteira. Até hoje quem tem mais de 60 anos deve se lembrar dele, uma obra romântica e ingênua, de um cinema que não existe mais.
Integra o box com os três filmes restaurados, em uma cópia restaurada de brilhar os olhos, que voltou ao catálogo da Versátil numa edição de luxo. Há alguns extras, como como textos sobre o filme e biografia da atriz Romy Schneider, galeria de fotos e pôsteres, trailer e um depoimento exclusivo do recém-falecido crítico de cinema Rubens Ewald Filho.

Sissi (Idem). Áustria, 1955, 105 minutos. Drama/Romance. Colorido. Dirigido por Ernst Marischka. Distribuição: Versátil Home Video

Sissi, a imperatriz

Sissi (Romy Schneider) casa-se em Viena com o imperador austro-húngaro Franz Josef (Karlheinz Böhm), tornando-se imperatriz. Enfrentará a partir de agora sérios problemas entraves, como a difícil convivência com a sogra, as viagens oficiais e os protocolos da Corte.

Segundo filme e para mim o melhor da trilogia “Sissi”, lançado um ano depois do primeiro, em 1956. O enfoque da continuação foge do romantismo do anterior, e se firma no drama, mostrando as dificuldades de Sissi como imperatriz, a não-aceitação da aristocracia de Viena pela sua pessoa, os eternos conflitos com a sogra autoritária e controladora, Sophie, e o afastamento dos filhos (educados em outro país). A soma desses acontecimentos levou a protagonista a sofrer uma doença pulmonar e dos nervos (na verdade a imperatriz teve depressão e anorexia, omitidos do filme – Leia a crítica do filme anterior).

A trilogia Sissi foi o trampolim da atriz Romy Schneider à fama. Romy era uma atrizes mais lindas do cinema europeu, que teve uma carreira sólida, porém sua vida foi marcada por sucessivas tragédias. Vamos conhecer um pouco de Romy Schneider. Nascida em 1938 em Viena, era filha de uma atriz de sucesso, Magda Schneider, que a incentivou nas artes – ela atua na trilogia como a mãe de Sissi, a duquesa Ludovika. Namorou o principal astro da Europa dos anos 60, Alain Delon, ficaram juntos por cinco anos. Foi o grande amor de sua vida. Depois de se separar, casou-se três vezes e teve dois filhos, até que no finalzinho dos anos 70 sua vida entraria num mar de angústias e infortúnios: o primeiro marido, o ator e diretor alemão Harry Meyen (1924-1979), suicidou-se; em 1981 separou-se do segundo marido, na mesma época que descobriu um câncer e precisou extrair um rim; e meses depois, uma notícia abalaria o mundo: seu filho de 14 anos, do primeiro casamento, chamado David Christopher, morreu enganchado na grade da cerca da casa da avó, quando tentou pulá-la. Romy adoeceu profundamente, desenvolvendo depressão e usando medicamentos em excesso para aliviar a dor das perdas. Abandonou o cinema e morreu em Paris em 1982, aos 43 anos, de ataque cardíaco (na época especulou-se sobre uma overdose de remédios, nunca comprovada pela família).
Romy era linda em cena, uma atriz versátil, e em “Sissi” e “Sissi, a imperatriz” estava no auge da beleza, conquistando fãs do mundo todo. Deixou com essa trilogia uma marca absoluta na História do Cinema.
Indicado à Palma de Ouro em Cannes, assim como a terceira parte, “Sissi e seu destino” (1957).
Para quem quiser assistir e ter em casa, a trilogia voltou ao catálogo da Versátil recentemente, em cópia restaurada. Os mesmos extras estão nos três discos, que são textos sobre o filme e biografia da atriz Romy Schneider, galeria de fotos e pôsteres, trailer e um depoimento exclusivo do recém-falecido crítico de cinema Rubens Ewald Filho.

Sissi, a imperatriz (Sissi - Die junge kaiserin). Áustria, 1956, 105 minutos. Drama/Romance. Colorido. Dirigido por Ernst Marischka. Distribuição: Versátil Home Video

Sissi e seu destino

A imperatriz da Áustria Sissi (Romy Schneider) vive feliz ao lado do imperador Franz Josef (Karlheinz Böhm) e dos filhos. Aos poucos assume os negócios do Estado, mas se vê rejeitada por algumas autoridades de países vizinhos. Com seu espírito liberal, Sissi terá de lidar com o poder que lhe foi concedido.

Último filme da trilogia “Sissi”, um marco dos filmes românticos da Europa na década de 50. Neste capítulo derradeiro da vida de Sissi, acompanhamos a protagonista no dia a dia das formalidades reais, seu espírito aventureiro e reformador, que por vezes desagradava os aliados. Dá-se aqui foco para os problemas pessoais dela, quando teve problemas de pulmão e estresse, e seu tratamento na Ilha de Madeira e em Korfu, bem como seu envolvimento direto na política. Termina com um desfecho memorável, de uma longa sequência em que ela e o marido imperador, Josef, percorrem um grande tapete vermelho numa travessia até os pés do palácio. Não só este, os três filmes têm uma direção de arte exuberante, fotografia riquíssima do período de ouro do Império Austro-Húngaro e um figurino de aplaudir em pé. Tudo pensado com critério e um rigor clássico do diretor e roteirista Ernst Marischka (1893–1963), realizador de operetas, que escreveu filmes populares em sua terra, Viena, e era um grande apaixonado por música clássica – foi indicado ao Oscar pelo roteiro da biografia de Chopin, “À noite sonhamos” (1945).

A protagonista, uma figura real da Áustria do século XIX, foi vivido brilhantemente pela linda e charmosa atriz de mesma nacionalidade de Sissi, Romy Schneider, que tinha na época do terceiro filme 19 anos (Leia mais nas críticas anteriores). A pedido do diretor e amigo Luchino Visconti, Romy voltaria a interpretar Sissi, mas como rainha Elizabeth da Áustria, com outra criação, mais sombria e mais parecida com a verdadeira, no filme “Ludwig: A paixão de um rei” (1973).
“Sissi e seu destino” recebeu indicação à Palma de Ouro em Cannes e fecha com chave de ouro a popular trilogia do cinema, que conquistou gerações, é nostálgico, leve e voltado para todos os públicos. Está no box com a trilogia completa em cópia restaurada, que voltou ao catálogo da Versátil. Acompanham extras como textos sobre o filme e biografia da atriz Romy Schneider, galeria de fotos e pôsteres, trailer e um depoimento exclusivo do recém-falecido crítico de cinema Rubens Ewald Filho.

Sissi e seu destino (Sissi - Schicksalsjahre einer kaiserin). Áustria, 1957, 104 minutos. Drama/Romance. Colorido. Dirigido por Ernst Marischka. Distribuição: Versátil Home Video

Estreias da semana – Nos cinemas e streamings – Parte 2

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