Feliz
aniversário em Belgrado
Estreou
no fim de semana pela Pandora Filmes a cultuada comédia dramática da Sérvia,
estreia da diretora e roteirista daquele país, Milica Tomović. Lançado em 2021
na seção Panorama do Festival de Berlim (concorrendo ao Teddy Bear, que premia
filmes de temática gay), traz uma trama divertida sobre uma festa de família que
dá errado. O ano é 1993, na capital da então Iugoslávia, Belgrado, num período
marcado pela desintegração do país, com protestos pelas ruas, sanções internacionais,
ataques por bomba pela OTAN e hiperinflação. É um período turbulento dentro e
fora, e para o povo, caótico nas questões sociais e políticas. Mesmo em face às
dificuldades, Marijana (Dubravka Kovjanic) quer manter a família unida e para
isto acontecer, organiza a festa de oito anos da filha Minja (Katarina Dimic).
O aniversário, simples e improvisado, ganha cores com fantasias das Tartarugas
Ninja, um bolo feito com margarina barata e refresco em garrafas
reaproveitadas. Enquanto as crianças brincam sem limites, os adultos se reúnem
na cozinha, e ali começam discussões políticas, flertes, bebedeira e “lavação
de roupa suja”, revelando tensões e afetos de uma geração que presenciava em
tempo real o colapso da Iugoslávia (que se desmembraria, entre 1991 e 1995, em
sete países, como Croácia, Macedônia do Norte e Sérvia). A diretora, nascida em
1986 na antiga Iugoslávia, conta que há no filme lembranças de sua infância
(podendo ser ela a garotinha Minja), ou seja, fez uma obra nostálgica, com
críticas sociais e um humor mordaz. Há um paralelo com os estranhos tempos atuais,
de guerras avassaladoras - a região onde a diretora vive, nos Balcãs, está colada
à Ucrânia, atacada pela Rússia desde 2014. Filme de arte bem posto, atual, que
mexe com nossos sentidos.
Embaixo
da luz de neon
Indicado
ao Oscar de melhor documentário na edição deste ano, o profundo e emocionante
filme acompanha a intimidade das poetisas Andrea Gibson e Megan Falley, focando
no diagnóstico de câncer incurável de uma delas. Revela uma jornada marcada por
humor, poesia e amor inabalável em meio ao penoso tratamento oncológico de Andrea
(que era também ativista em prol dos direitos LGBTQIAPN+). A fotografia no
interior da residência do casal, com um brilhante jogo de luzes, reforça as
imagens delicadas do carinho entre as duas mulheres, fazendo do longa uma obra sincera,
que nos toca e faz encher os olhos de lágrimas. É uma poesia visual que
metaforicamente remete ao trabalho delas (que escrevem poemas). O diretor Ryan
White, de “Boa noite Oppy” (2022), constrói uma história difícil, mas que
equilibra leveza e dramaticidade, mostrando como o casal transforma a
mortalidade em celebração da vida. O título faz referência à ideia de encontrar
beleza mesmo em tempos sombrios. Após conquistar prêmios em festivais
internacionais, como Sundance, Seatlle e Cleveland, estreou na Apple TV em
novembro de 2025. É forte candidato para ganhar o Oscar este ano, um filme de
abordagem diferenciada, muito espirituoso, que não se concentra apenas em
mostrar a doença da personagem retratada, e sim como ela ressignifica a dor e a
proximidade da morte em algo que sublima a própria existência.
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