domingo, 1 de março de 2026

Estreias da semana – Nos cinemas


Arco
 
Indicado ao Oscar de melhor animação neste ano, “Arco”, primeiro longa dirigido por Ugo Bienvenu, com codireção de Gilles Cazaux, que foi do departamento de arte de “Planeta fantástico” (1973) e da série “As aventuras de Tintim” (1991-1992), acaba de chegar aos cinemas pela Mares Filmes, em parceria com a Mubi. Coprodução França, Reino Unido e EUA, é um dos filmes mais bonitos, coloridos e sensíveis da safra atual. Desde sua estreia mundial no Festival de Cannes, ele tem chamado atenção pela combinação do visual, com elementos gráficos marcantes, e o roteiro delicado, que em muitos aspectos lembra “ET – O extraterrestre” (1982). A animação acompanha a jornada de Arco, um menino de 10 anos que mora com os pais em outro planeta, num futuro distante (perto do ano 3000). As casas do futuro ficam em comunidades suspensas por plataformas de metal, acima das nuvens. Arco tem o sonho de fazer seu primeiro voo; ele bota sua capa de arco-íris, mas uma tentativa inesperada o lança em uma viagem no tempo, transportando-o para o ano de 2075. Ele cai em um mundo desconhecido, não entende para onde foi. Ele está na casa de uma menina de sua idade, chamada Iris, que mora com um robô faz-tudo, Mikki, em uma cidade protegida por uma redoma de vidro. Os três se tornam próximos, embarcando em uma missão para devolver Arco ao seu lar – no entanto serão caçados por um trio de exploradores e cientistas que detêm um objeto importante do menino do futuro, que sem ele não poderá viajar no tempo para voltar para casa. A estética de “Arco” é um espetáculo de encher os olhos: criado inteiramente em animação 2D, reúne cores vibrantes, que evocam a leveza da infância e, ao mesmo tempo, a estranheza de um futuro tecnológico. A paleta cromática funciona como recurso narrativo: tons quentes remetem à esperança e ao vínculo humano, enquanto os frios reforçam a atmosfera futurista e a solidão das cidades protegidas por redomas. A fluidez dos traços e a composição das cenas criam uma sensação de movimento constante, como se o próprio tempo fosse uma personagem. Essa escolha estética confere ao filme identidade visual particular, que faz uma transição entre a tradição da animação artesanal com uma fita contemporânea e imersiva. É uma aventura fantástica, também uma reflexão para jovens e crianças sobre o tempo, a memória e os laços da infância, que celebra a imaginação. Segundo o diretor Ugo Bienvenu, roteirista do filme, ele o escreveu na pandemia da covid, trazendo dois personagens solitários em suas casas (uma referência ao isolamento social provocado pelo vírus) e buscando levar ao público jovem uma mensagem de otimismo em tempos de crise. Além da indicação ao Oscar e ao Globo de Ouro de animação, foi nomeado ao Bafta de melhor filme para crianças, cinco indicações ao César, incluindo melhor animação, cinco indicações no Annie Awards, e o prêmio de melhor filme no maior festival de filmes infanto-juvenis do mundo, o Annecy. A produção é assinada pela atriz Natalie Portman, que comprou e investiu na ideia. Para ver, encartar-se e se emocionar.

 
 
A sapatona galáctica
 
Outra animação que segue nos cinemas, desde o dia 12 de fevereiro, esta para adultos, é a fita australiana “A sapatona galáctica”, premiada em diversos festivais pelo mundo afora, inclusive no Brasil. Dirigido pela dupla Emma Hough Hobbs e Leela Varghese, combina comédia, aventura e elementos do mundo da ficção científica em uma história doidinha de um romance queer intergaláctico, não deixando de levantar a bandeira da representatividade como manifesto público. A protagonista é Saira, uma princesa espacial lésbica, bastante tímida, recém-abandonada pela ex-namorada, Kiki, uma caçadora de recompensas. Quando Kiki é raptada por criaturas perigosas (os “homeliens”, um grupo de homens héteros valentões), Saira decide resgatá-la, seguindo uma longa viagem entre dois mundos com uma nova amiga, uma cantora pop não-binária. As duas, numa nave capenga, cheia de problemas técnicos, cruzará a “gayláxia”, obrigando Saira a enfrentar medos e limitações. O filme é um barato, um caos danado, com diálogos engraçados, alguns apimentados, e forte comentário social do universo queer. Integra a safra das animações contemporâneas ousadas, escapando das convenções e banalidades para levar uma discussão sobre amor gay, respeito, identidade, pertencimento e autoconfiança – a protagonista, em vez de armas, usa o discurso para lutar (algo muito representativo e demolidor). As personagens são divertidas, a aventura é perspicaz, a estética é um desbunde de cores chocantes e formas inusitadas. A irreverente animação percorreu um circuito prestigiado de festivais internacionais, como Berlim, Sydney e Rio, onde conquistou o Prêmio Félix no ano passado, dedicado a produções nacionais e internacionais de temática LGBTQIAPN+. Outro prêmio que recebeu no Brasil foi o de melhor Filme Internacional pelo público, no MixBrasil, festival que existe há mais de 30 anos voltado à diversidade. Ainda nos cinemas pela Synapse Distribution.



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