terça-feira, 9 de junho de 2026

Especial de Cinema


15a edição do Olhar de Cinema reúne milhares de pessoas na capital do Paraná
 
Um dos maiores festivais internacionais de cinema do Brasil, o “Olhar de Cinema – Festival Internacional de Curitiba” chega em sua 15ª edição apresentando 80 filmes em primeira mão no país, tanto nacionais quanto internacionais. O festival ocorre na capital paranaense de 04 a 13 de junho. Estão reunidos curtas e longas-metragens distribuídos em oito mostras - Competitiva Brasileira, Competitiva Internacional, Novos Olhares, Mirada Paranaense Sanepar, Exibições Especiais, Olhares Clássicos Cine Passeio, Olhar Retrospectivo e Pequenos Olhares, além das sessões de abertura e de encerramento. A abertura do festival ocorreu na noite do dia 04/06, com o filme brasileiro “Yellow cake”, de Tiago Melo – exibido na Ópera de Arame; já o encerramento será em 13/06, com o filme “Salvação” (“Kurtulus”), coprodução Turquia, França, Países Baixos, Grécia e Suécia ganhadora do Grande Prêmio do Júri no Festival de Berlim desse ano.


A programação inclui filmes das Competitivas Brasileira e Internacional, além de clássicos restaurados (sendo seis em homenagem ao cineasta polonês Andrzej Wajda, e ainda títulos de Béla Tarr, David Lynch e Frederick Wiseman) e exibições especiais de filmes do mundo todo realizados entre 2025 e 2026,
Criado como um festival de cinema independente em 2012, o Olhar de Cinema já levou mais de 250 mil pessoas para as salas de cinema e exibiu mais de 1200 filmes do mundo inteiro. Consolida-se, assim, como um dos mais importantes festivais internacionais de cinema do Brasil. Além das exibições de filmes, há também o Seminário de Cinema de Curitiba (com debates, palestras e encontros com profissionais do audiovisual), três oficinas e o CuritibaLab (laboratório de pós-produção de filmes, com consultoria de montagem e marketing).
Os ingressos e credencais estão à venda tanto pelo site oficial do evento, https://olhardecinema.com.br quanto pelo aplicativo e nas bilheterias das salas. Há ainda sessões gratuitas, com retirada de ingresso 30 minutos antes da sessão. O festival acontece em cinco locais de exibição: Cine Passeio, Museu Oscar Niemeyer (Auditório Poty Lazzarotto), Cinemateca de Curitiba, Teatro da Vila e Ópera de Arame.




Fotos da sessão de abertura, de salas de exibição e de seminários, feitos por Felipe Brida


O Olhar de Cinema é viabilizado por leis de incentivo e patrocínios, como Ministério da Cultura (via Lei Rouanet) e Governo do Estado do Paraná, via Secretaria da Cultura e Profice (Programa Estadual de Fomento e Incentivo à Cultura do Paraná). Conta com patrocínio do Terminal de Contêineres de Paranaguá, Sanepar, Mili, Fomento Paraná e Solvay Peróxidos, além de apoio do Projeto Paradiso, Uninter, Cine Passeio, Cinemateca de Curitiba, Teatro da Vila e Icac (Instituto Curitiba de Arte e Cultura) e incentivo da Prefeitura de Curitiba e da Fundação Cultural de Curitiba.
Confira abaixo os filmes que integram as Mostras Competitivas Brasileira e Internacional, de longas-metragens:
 
Mostra Competitiva Brasileira – Longas:
 
São 16 filmes nacionais na programação:
 
1.           A noite e os dias de Miguel Burnier (Dir. João Dumans)
2.           Adulto/Homem (Dir. Pedro Diógenes)
3.           Cerimônia (Dir. Fabio Ramalho, André Antônio, Chico Lacerda)
4.           Disciplina (Dir. Affonso Uchôa)
5.           Duwid Tuminkiz – Makunaima é Duwid? (Dir. Gustavo C. Wapichana)
6.           Fiz um foguete imaginando que você vinha (Dir. Janaína Marques)
7.           Marimbã está acontecendo (Dir. Maryn Marynho)
8.           Maxita (Dir. Mariana Machado e Ana Maria Machado)
9.           O segredo sagrado (Dir. Everlane Moraes)
10.        Olhe para mim (Dir. Rafhael Barbosa)
11.        Pinguim de doce de leite (Dir. Ana Vitória Miotto Tahan)
12.        Pirexia (Dir. Nico da Costa)
13.        Quase inverno (Dir. Rodrigo Grota)
14.        Reparação (Dir. Marcus Curvelo)
15.        Telúrica, a íntima utopia (Dir. Mariana Lacerda)
16.        Um filme para lembrar da utopia (Dir. Reinaldo Cardenuto)
 
Mostra Competitiva Internacional – Longas:
 
São 15 filmes de vários países, como França, Irã, Canadá, Turquia, Itália, Marrocos, Albânia, Bolívia e Chile:
 
1.           A noite já está partindo (Dir. Ramiro Sonzini e Ezequiel Salinas)
2.           Bouchra (Dir. Orian Barki e Meriem Bennani)
3.           Cada época sonha com a próxima (Dir. Johannes Gierlinger)
4.           Cartas a meus pais mortos (Dir. Ignacio Agüero)
5.           Desencaixar (Dir. Danielle Kaganov)
6.           Dragão (Dir. Yashira Jordán)
7.           Má sorte (Dir. Jan Eihardt)
8.           Nan Ginen (Dir. Feguenson Hermogène)
9.           Não me deixe morrer (Dir. Andrei Epure)
10.        O inimigo (Dir. Andrej Chinappi)
11.        O profeta (Dir. Ique Langa)
12.        Outra terra (Dir. Ben Russell)
13.        Se pombos virassem ouro (Dir. Pepa Lubojacki)
14.        Sussurros de um perfume ardente (Dir. Mo Harawe)
15.        Um calendário incompleto (Dir. Sanaz Sohrabi)
 
 
Confira títulos que assisti no Festival desse ano e que recomendo:
 
Fiz um foguete imaginando que você vinha (2026)
 
Apresentado na seção Forum da Berlinale 2026, o filme brasileiro não apenas conta uma história de reencontro de mãe com filha, mas reconfigura a própria ideia de memória. A estreia da cineasta Janaína Marques, até então curtametragista, reflete o mundo íntimo de uma forte protagonista, Rosa (Verônica Cavalcanti), que sai em uma viagem de carro pelo interior do sertão revisitando a infância. Em um carro velho, ela leva junto a mãe, Dalva (Luciana Souza), que percorrem centenas de quilômetros entre risadas e lembranças. O tempo parece voar naqueles dias descritos por Rosa como “quase os mais felizes de sua vida”. Dado momento sabemos que as duas não se viam há muito tempo, e que Dalva foi presa acusada de matar o marido de uma vizinha, quando Rosa era pequena, trauma que a filha carrega até hoje. As duas seguem para a cidade da melhor amiga da mãe, Consuelo, numa viagem que será um divisor de águas na relação daquelas duas mulheres. O filme segue uma linearidade comum em filmes desse tipo, até que na metade há uma ruptura: a realidade se distancia, dando espaço para a imaginação/ficção. Memórias de Rosa ecoam vivas, como se fossem atuais, enquanto busca se reconectar com a mãe por meio de toques e olhares. O filme é um percurso também pelo subconsciente da protagonista, vasculhando traços da infância de Rosa. Cada cenário parece existir num limiar entre o concreto e o simbólico, o presente e o passado, como se o mundo externo fosse moldado pela instabilidade das lembranças de Rosa. Uma viagem que se desdobra em ciclos, onde há espaço para discutir violência doméstica, inseguranças e julgamentos transmitidos de geração para geração. A fotografia é belamente construída destacando as figuras femininas no quadro – elas cruzam por territórios distintos, de paredões de pedras a dunas que cintilam, fazem paradas em motéis à beira de estrada e se comunicam com novos indivíduos que aparecem, como uma motorista de caminhão e um rapaz apelidado de “profeta das chuvas”. As atrizes completam uma à outra em performance digna de aplausos – enquanto Veronica é mais contida como a filha em fase de restabelecimento emocional, Luciana traz leveza e alto astral, alternado a momentos de drama. A música “Sangue latino” (cantada por Ney Matogrosso) surge em várias passagens, adaptada na voz da mãe, em passagens de ternura e reaproximação. Espero que o filme tenha uma boa carreira nos festivais brasileiros. Filme integra a Mostra Competitiva Brasileira, com exibição nos dias 12 e 13/06.

 
 
Joy boy: A tribute to Julius Eastman (2026)
 
Documentário de linguagem experimental que é uma coprodução Bélgica, República Democrática do Congo e França, feito por um coletivo de seis cineastas em um tributo ao compositor, pianista, vocalista e dançarino americano Julius Eastman (1940-1990). Assim como sua obra conceitual foi marcada pelo minimalismo e experimentos sensoriais, o filme também o é, resultando em uma espécie de videoarte costurada com diversos modelos de segmentos, áudios e imagens. O filme, que concorreu ao Teddy Bear no Festival de Berlim desse ano, é dividido em quatro capítulos, todos com títulos de suas músicas: “Evil nigger”, “Many many women”, “Gay guerrilla” (em referência a uma de suas canções revolucionárias do fim dos anos 70 que gerou contestação e até um movimento politizado) e “Joy boy”, além de um interlúdio chamado “Inter Ludes”. São peças de videoarte e criações audiovisuais que tratam do corpo gay preto, do racismo, da contracultura e da marginalidade nas artes. No primeiro há uma sequência rítmica de dança com cores neon, no segundo um depoimento de Eastman (só voz num fundo escuro), sobre suas criações vanguardistas e peculiar visão de mundo, no terceiro um canto com imagens de células via microscópio se formando num agrupamento de formas. E na parte final, uma fotomontagem de flores, plantas e pétalas cobrindo um corpo nu, após uma intervenção urbana de dança com homens gays pretos e periféricos (como Eastman era) à beira da calçada de uma rua movimentada à noite (o que diz muito sobre a marginalização que a imagem propõe). Todos os capítulos ficam sob o som de suas diferentes composições, com piano e voz. Um filme para poucos, de linguagem estritamente experimental (e duração mínima, de apenas 64 minutos). Exibido também nesse mês no Festival de Sydney. Não tem mais sessões no Olhar de Cinema – foi exibido nos dias 06 e 07/06 na seção Novos Olhares, dedicado a filmes de linguagem experimental.
 

 
Gato na cabeça (2025)
 
Uma grata surpresa descobrir esse filme experimental (que é um documentário com ficção) no Festival Olhar de Cinema – ele teve duas sessões apenas, nos dias 05 e 06/06, na seção Novos Olhares, dedicada a filmes de linguagem experimental). Parte de uma premissa curiosa: a diretora letã (nascida na Letônia) Laila Pakalnina encontrou no lixo de um condomínio 36 rolos de negativos não-revelados, captados por uma câmera profissional antiga. Ao fazer a revelação, encontrou imagens em preto-e-branco de um vilarejo rural, datadas entre as décadas de 60 e 80, de um fotografo anônimo. A partir de uma pesquisa para encontrar aquele lugar, a cineasta reimaginou uma história como se fosse a dela, já que o vilarejo parado no tempo e as pessoas das fotos remetiam a memórias de sua infância na Letônia, um país no Mar Báltico que integrou a extinta União Soviética (URSS). O filme escrito e dirigido por ela mistura documentário com ficção no seguinte sentido: ela grava uma história ficcionalizada, de uma família humilde do campo em seus afazeres, em que encena pessoas da própria sociedade que lembram as figuras reais daquelas fotos antigas. A fotografia de um gato aparece (a foto real revelada) e em seguida ela monta como seria a história daquele animal naquela família. A diretora grava tudo em preto-e-branco, seguindo o padrão das fotografias, faz uma seleção de cerca de 40 imagens e recria essas cenas rurais. Uma galinha correndo alvoroçada, uma idosa bebendo licor, uma competição de corrida de caminhões num terreno arenoso, soldados olhando para a câmera, a neve rigorosa cobrindo plantações e por aí vai. Desse fotógrafo desconhecido, Laila revê suas reminiscências, de um lugar próximo ao que viveu na infância e juventude. Detalhe: todas as fotos reveladas apresentam uma interferência, provavelmente proposital, como objetos na frente, transição em wipe, desfoque, reflexos de espelhos, luzes que atravessam alguém (o que indicia que aquilo era um processo altamente criativo do fotógrafo sem nome). Diretora veterana, hoje com 64 anos, Laila Pakalnina já teve seus filmes concorrendo em festivais como Berlim, Veneza, Locarno e Cannes, tanto longas quanto curtas (no Brasil, muitos de seus docs foram exibidos no festival “É Tudo Verdade”). Agora ela apresenta um novo filme, misterioso, instigante, uma obra cult a ser conhecida. Sem mais sessões no Olhar de Cinema, o filme pode estrear em breve nos cinemas brasileiros.

 
 
Caça às moscas (1969)
 
Também conhecido por “Moscas caçadoras”, a comédia satírica foi um marco do cinema polonês, no auge do Novo Cinema Polonês, assinada por nada mais nada menos que Andrzej Wajda (foi seu 12º filme, na época com 42 anos). O filme integra a lista de longas do diretor restaurados que o Festival Olhar de Cinema traz com exclusividade no Brasil, uma obra rara de Wajda, que é um dos homenageados no evento pelo seu centenário de nascimento. O filme se distancia muito do tom político habitual do diretor e roteirista (que explorava as tensões de gênero e a vida doméstica na Polônia do pós-guerra), numa fita corriqueira, muito engraçada, com estética marcada pelo humor ácido e crítica social. É a história de Wlodek (Zygmunt Malanowicz), um cidadão tímido e inseguro, sempre colocado pra baixo pela esposa e pela sogra, com quem mora. Ele tem um filho pequeno, e na casa ainda mora o sogro bonachão, que resolve instalar na cozinha e na sala um “pega moscas”, fitas adesivas colantes que ficam penduradas pelo teto, atrapalhando a locomoção entre os cômodos (daí o título das “moscas”, reforçado pelo final super simbólico e ambíguo). A rotina de Wlodek muda ao conhecer Irena (Malgorzata Braunek), moça nova, bem bonita e atraente, que é estudante e passa a dominar sua vida. Ele se enrola com ela, mas tem o casamento que impede uma mudança de prumo, então o acanhado Wlodek tenta se acertar com as duas, a esposa e a jovem amante. A comédia de costumes é uma sátira ao casamento, à infidelidade e às pressões sociais, visíveis nesse filme que é um barato, revelando o medo do homem diante da emancipação feminina e da transformação dos papéis sociais. Também é uma farsa a la Shakespeare, sobre traição e desejos. Diferente das obras engajadas de Wajda (antes desse com “Cinzas e diamantes” e depois com o poderoso díptico “O homem de mármore” e “O homem de ferro”), voltadas para a memória histórica e os dilemas políticos da Polônia (que envolvia agitação estudantil nas ruas, regime comunista com forte controle estatal e depois uma onda de crises econômicas), aqui o diretor opta por uma abordagem leve, dinâmica, mostrando os costumes e as relações íntimas. A fotografia de Zygmunt Samosiuk e a trilha de Andrzej Korzyński contribuem para uma atmosfera de sutilezas, que se afasta do tom sombrio de outros trabalhos do diretor. A cópia restaurada exibida no festival Olhar de Cinema está primorosa (seja som ou imagem). Além de “Caça às moscas”, mais cinco filmes do diretor integram a seção “Olhar retrospectivo” do festival: “Os feiticeiros inocentes” (1960), “Tudo à venda” (1968), “Terra prometida” (1974 – um de meus Wajda preferidos), “As donzelas de Wilko” (1979) e “O maestro” (1979). “Caça às moscas” não tem mais sessões no festival (foram somente duas, nos dias 06 e 07/06).



High School (1968)
 
Mais um filme cult em cópia restaurada integra a programação do Festival Olhar de Cinema desse ano. Trata-se de “High School”, na seção Olhares Clássicos Cine Passeio. O documentário é um dos filmes da primeira fase do diretor três vezes vencedor do Emmy Frederick Wiseman, falecido em fevereiro passado aos 96 anos. Em seu segundo trabalho para o cinema, ele retrata o cotidiano de uma escola pública secundária na Filadélfia e expõe, com olhar crítico, os mecanismos de disciplina, conformismo e controle presentes na educação norte-americana em plena efervescência social da década de 1960. A estética do longa é marcada pelo estilo do Cinéma Vérité, sem narração ou entrevistas, captando sucessão de fatos e acontecimentos (do jeito que a vida é). O diretor se põe como um observador do cotidiano daquela escola, mostrando professores autoritários, alunos rebeldes e até policiais chamados às pressas para reprimendas. O ano de 1968 foi um período tenso, marcado pela contracultura, protestos estudantis, passeatas feministas, tensões da Guerra Fria e a explosão da Guerra do Vietnã. A escola-alvo do filme, a Northeast High School, na Filadélfia, Pensilvânia, vira um microcosmo daquela sociedade em profunda transformação. O filme acompanha choques geracionais, entre adultos tentando preservar valores tradicionais enquanto jovens encarnam a mudança cultural que emergia nos Estados Unidos. E a punição severa, naturalizada na época, é vista como forma de obediência/subserviência. Wiseman é um cronista da cena urbana, utiliza o estilo direto do documentário observacional, sem comentários externos, entrevistas ou trilha sonora, com um preto-e-branco formidável que dramatiza as passagens. O filme tem uma montagem fragmentada, com cortes abruptos, enquadramentos variados (com muitos closes em rostos) e sobreposição de cenas que desafiam o espectador a interpretar os significados. Na época, o filme foi considerado polêmico, e olhando-o depois de quase 60 anos, as imagens continuam poderosas, incômodas. 25 anos depois Wiseman fez uma espécie de sequência, “High School II” (1994), analisando desta vez o cenário escolar da Escola Secundária Central Park East, em Nova York. O documentário conta com mais uma sessão no festival Olhar de Cinema, no dia 09/06. PS: No mês passado a Mubi lançou uma coleção em homenagem ao cineasta, intitulada “Frederick Wiseman: American lives”, com oito documentários dele que são análises íntimas da sociedade americana e suas contradições; no catálogo há “Model” (1980) e “High School”, bem como longas de enorme duração que ele fez e foi exibido e importantes festivais, como “At Berkeley” (2013) e “City Hall” (2020).

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