A
trégua
Chegou
ontem com exclusividade no streaming Adrenalina Pura+ esse drama de guerra
espanhol inspirado em fatos verídicos ocorridos em um campo de prisioneiros
soviético na década de 40. Dirigido por Miguel Ángel Vivas (de “Horas do medo”
e “Apocalipse”), o longo filme (que tem 151 minutos de duração) aborda as cicatrizes
da Guerra Civil Espanhola no cenário brutal da Segunda Guerra Mundial. É a trágica
história do Capitão Reyes e Tenente Salgado, dois homens do Exército que
lutaram em lados opostos na Guerra Civil, um franquista e outro republicano, e
que, por ironia do destino, são presos juntos em um gulag mantido pela URSS. Daquele
paradoxo nasce uma relação de sobrevivência entre os dois inimigos; eles são forçados
a conviver (e sobreviver) em meio a outros soldados aprisionados naquele
inferno, um lugar gelado sob condições desumanas. Estrelado por Miguel Herrán
(o Río da série da Netflix “La casa de papel”) e Arón Piper (o Ander da série
“Elite”, também da Netflix), os atores vivem personagens tomados pelo peso das
ideologias que dividiram a Espanha, ao mesmo tempo que procuram a urgência da
sobrevivência diante da fome, do frio, da violência sorrateira dentro da prisão
e das torturas físicas e psicológicas cometidas pelos agentes carcereiros (alguns
morrem enquanto outros enlouquecem). Com bons diálogos, o drama se segura pela
fotografia, marcada por tons gélidos e ambientes sufocantes, com muitas sequências
no breu da prisão, aliado à trilha sonora discreta que intensifica os silêncios
daquele lugar de desesperança. Exibido no Festival de San Sebastián de 2025 e
indicado ao Goya desse ano de melhor maquiagem, o filme está agora disponível
no Brasil no streaming Adrenalina Pura+, uma parceria entre a Sofa Dgtl e a California
Filmes, que traz no catálogo produções de ação, terror e suspense, para
assinatura na Apple TV, no Prime Video e na Claro TV+.

Louis
Theroux: Por dentro da Machosfera
Excelente
produção da Netflix, o documentário conduzido pelo jornalista britânico Louis
Theroux é uma assustadora pesquisa de campo em que ele analisa o universo
digital da chamada “manosfera”, apelidada de “machosfera”, uma subcultura da
internet formada por comunidades masculinistas, cuja característica é se opor
radicalmente aos movimentos feministas utilizando-se de discursos misóginos e
odiosos contra as mulheres. Grupos como Red Pills, Incels e MGTOW (Men Going
Their Own Way, na tradução “Homens Seguindo Seu Próprio Caminho”) integram essa
rede, e nos últimos anos ficaram conhecidos pelo conteúdo agressivo que é
disseminado a milhões de seguidores nas redes sociais. O filme é uma investigação
particular de Louis Theroux, premiado jornalista britânico de documentários
investigativos da BBC e apresentador de TV, que estuda masculinidade tóxica, e
no doc ele mapeia influencers da machosfera para uma conversa informal com
eles. Ele entrevista, por exemplo, Andrew
Tate, ex-campeão de kickboxing e hoje influenciador, Sneako (Nicolas
Balinthazy), criador de conteúdo que mistura debates sobre cultura jovem,
política e masculinidade, e Myron Gaines (Amrou Fudl), podcaster red pill, que
toparam falar sem censura. É uma visão de mundo desses caras muito particular, com
discursos virulentos, o que chega a causar espanto. O jornalista abre um debate
sobre como as redes sociais e espaços virtuais moldaram comportamentos abusivos,
especialmente entre homens jovens, que expressam sem medo opiniões das mais
absurdas e perigosas, sem que eles respondam por aquilo na justiça – nos EUA as
leis das redes são afrouxadas, sequer existe controle. Com cautela e distanciamento,
Theroux visita casa e estúdio dos entrevistados, sem julgamentos imediatos, mas
com perguntas incisivas que revelam contradições e tensões. Para essas
personalidades midiáticas, a manosfera propõe a “restauração” da masculinidade
tradicional, segundo eles tendo o homem como protagonista da vida em sociedade
(por isso a misoginia, que boa parte deles, contaminados por esse ideal de
vida, não percebe cometer). O documentário da Netflix é um retrato inquietante
de como a internet se tornou terreno fértil para ideologias que misturam
ressentimento, frustração e radicalização. Recomendo.

Eu
não te ouço
O novo
longa de Caco Ciocler (que há um bom tempo vem se dividindo entre atuação e direção)
encerra uma trilogia política que ele construiu sem planejar, que analisa o
Brasil contemporâneo e suas tensões no campo da política. A trilogia é formada
pelos documentários “Partida” (2019), que traz a atriz Georgette Fadel tentando
se candidatar à presidência da República após a eleição de Bolsonaro, e como inspiração
viaja de ônibus com um grupo de amigos para visitar o presidente do Uruguai
Pepe Mujica, seguida de “O melhor lugar do mundo é agora” (2021), filmado em
plena pandemia, que trata de artistas no isolamento social e a invasão das
fakes news sobre eles naquele período crítico da política nacional. Agora Ciocler
faz uma obra ficcional misturando comédia e drama e, como consta na tagline do pôster,
é “baseada em um meme real”: é a história verídica de um caso inusitado que
viralizou nas redes e grande mídia no final de 2022, chamado de “O patriota do
caminhão”. O apelido foi dado a um indivíduo chamado Marcos Guedes, dito empresário,
que virou um dos maiores memes da internet após se agarrar na frente de um
caminhão em movimento. O episódio ocorreu em novembro de 2022, na rodovia
BR-232, em Caruaru (PE), durante os bloqueios de estradas ilegais realizados
por apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro, que contestavam o resultado das
eleições presidenciais (em que Lula ganhou). O tal empresário fez isso para impedir
que um caminhão furasse o bloqueio. A partir desse meme de segundos de duração
que contaminou as redes, Ciocler faz, em “Eu não te ouço”, um estudo de
personagens instigante, com o ator Márcio Vito em papel duplo: o do caminhoneiro
e o manifestante agarrado no veículo. O filme parte desse acontecimento para
propor uma metáfora sobre a divisão do país, que explodiu em conflitos ideológicos.
De um lado, o motorista fechado na cabine, seguindo com seu trabalho, e do
outro, o manifestante agarrado na frente do caminhão, gritando palavras que o
caminhoneiro não consegue ouvir. Entre eles, o vidro, uma barreira física e
simbólica que separa mundos e impede o diálogo. A obra é sobre a
impossibilidade de escuta em uma sociedade dividida, onde discursos se chocam e
nunca há conciliação. Pode ser visto como um road movie de estilo autoral, com
pitadas de sarcasmo e ironias da vida real. O trabalho de Vito foi reconhecido em
muitos festivais, como o Festival do Rio, onde ganhou o Troféu Redentor de melhor
ator. O roteiro foi escrito em três: por Ciocler, Vito e pela atriz Isabel
Teixeira (filha do cantor e compositor Renato Teixeira). Exibido em festivais
como a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, a obra está nos cinemas
brasileiros, com produção e distribuição da Amaia.
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