domingo, 24 de maio de 2026

Estreias da semana – Nos cinemas e streamings – Parte 1


A trégua
 
Chegou ontem com exclusividade no streaming Adrenalina Pura+ esse drama de guerra espanhol inspirado em fatos verídicos ocorridos em um campo de prisioneiros soviético na década de 40. Dirigido por Miguel Ángel Vivas (de “Horas do medo” e “Apocalipse”), o longo filme (que tem 151 minutos de duração) aborda as cicatrizes da Guerra Civil Espanhola no cenário brutal da Segunda Guerra Mundial. É a trágica história do Capitão Reyes e Tenente Salgado, dois homens do Exército que lutaram em lados opostos na Guerra Civil, um franquista e outro republicano, e que, por ironia do destino, são presos juntos em um gulag mantido pela URSS. Daquele paradoxo nasce uma relação de sobrevivência entre os dois inimigos; eles são forçados a conviver (e sobreviver) em meio a outros soldados aprisionados naquele inferno, um lugar gelado sob condições desumanas. Estrelado por Miguel Herrán (o Río da série da Netflix “La casa de papel”) e Arón Piper (o Ander da série “Elite”, também da Netflix), os atores vivem personagens tomados pelo peso das ideologias que dividiram a Espanha, ao mesmo tempo que procuram a urgência da sobrevivência diante da fome, do frio, da violência sorrateira dentro da prisão e das torturas físicas e psicológicas cometidas pelos agentes carcereiros (alguns morrem enquanto outros enlouquecem). Com bons diálogos, o drama se segura pela fotografia, marcada por tons gélidos e ambientes sufocantes, com muitas sequências no breu da prisão, aliado à trilha sonora discreta que intensifica os silêncios daquele lugar de desesperança. Exibido no Festival de San Sebastián de 2025 e indicado ao Goya desse ano de melhor maquiagem, o filme está agora disponível no Brasil no streaming Adrenalina Pura+, uma parceria entre a Sofa Dgtl e a California Filmes, que traz no catálogo produções de ação, terror e suspense, para assinatura na Apple TV, no Prime Video e na Claro TV+.

 
 
Louis Theroux: Por dentro da Machosfera
 
Excelente produção da Netflix, o documentário conduzido pelo jornalista britânico Louis Theroux é uma assustadora pesquisa de campo em que ele analisa o universo digital da chamada “manosfera”, apelidada de “machosfera”, uma subcultura da internet formada por comunidades masculinistas, cuja característica é se opor radicalmente aos movimentos feministas utilizando-se de discursos misóginos e odiosos contra as mulheres. Grupos como Red Pills, Incels e MGTOW (Men Going Their Own Way, na tradução “Homens Seguindo Seu Próprio Caminho”) integram essa rede, e nos últimos anos ficaram conhecidos pelo conteúdo agressivo que é disseminado a milhões de seguidores nas redes sociais. O filme é uma investigação particular de Louis Theroux, premiado jornalista britânico de documentários investigativos da BBC e apresentador de TV, que estuda masculinidade tóxica, e no doc ele mapeia influencers da machosfera para uma conversa informal com eles.  Ele entrevista, por exemplo, Andrew Tate, ex-campeão de kickboxing e hoje influenciador, Sneako (Nicolas Balinthazy), criador de conteúdo que mistura debates sobre cultura jovem, política e masculinidade, e Myron Gaines (Amrou Fudl), podcaster red pill, que toparam falar sem censura. É uma visão de mundo desses caras muito particular, com discursos virulentos, o que chega a causar espanto. O jornalista abre um debate sobre como as redes sociais e espaços virtuais moldaram comportamentos abusivos, especialmente entre homens jovens, que expressam sem medo opiniões das mais absurdas e perigosas, sem que eles respondam por aquilo na justiça – nos EUA as leis das redes são afrouxadas, sequer existe controle. Com cautela e distanciamento, Theroux visita casa e estúdio dos entrevistados, sem julgamentos imediatos, mas com perguntas incisivas que revelam contradições e tensões. Para essas personalidades midiáticas, a manosfera propõe a “restauração” da masculinidade tradicional, segundo eles tendo o homem como protagonista da vida em sociedade (por isso a misoginia, que boa parte deles, contaminados por esse ideal de vida, não percebe cometer). O documentário da Netflix é um retrato inquietante de como a internet se tornou terreno fértil para ideologias que misturam ressentimento, frustração e radicalização. Recomendo.


 
Eu não te ouço
 
O novo longa de Caco Ciocler (que há um bom tempo vem se dividindo entre atuação e direção) encerra uma trilogia política que ele construiu sem planejar, que analisa o Brasil contemporâneo e suas tensões no campo da política. A trilogia é formada pelos documentários “Partida” (2019), que traz a atriz Georgette Fadel tentando se candidatar à presidência da República após a eleição de Bolsonaro, e como inspiração viaja de ônibus com um grupo de amigos para visitar o presidente do Uruguai Pepe Mujica, seguida de “O melhor lugar do mundo é agora” (2021), filmado em plena pandemia, que trata de artistas no isolamento social e a invasão das fakes news sobre eles naquele período crítico da política nacional. Agora Ciocler faz uma obra ficcional misturando comédia e drama e, como consta na tagline do pôster, é “baseada em um meme real”: é a história verídica de um caso inusitado que viralizou nas redes e grande mídia no final de 2022, chamado de “O patriota do caminhão”. O apelido foi dado a um indivíduo chamado Marcos Guedes, dito empresário, que virou um dos maiores memes da internet após se agarrar na frente de um caminhão em movimento. O episódio ocorreu em novembro de 2022, na rodovia BR-232, em Caruaru (PE), durante os bloqueios de estradas ilegais realizados por apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro, que contestavam o resultado das eleições presidenciais (em que Lula ganhou). O tal empresário fez isso para impedir que um caminhão furasse o bloqueio. A partir desse meme de segundos de duração que contaminou as redes, Ciocler faz, em “Eu não te ouço”, um estudo de personagens instigante, com o ator Márcio Vito em papel duplo: o do caminhoneiro e o manifestante agarrado no veículo. O filme parte desse acontecimento para propor uma metáfora sobre a divisão do país, que explodiu em conflitos ideológicos. De um lado, o motorista fechado na cabine, seguindo com seu trabalho, e do outro, o manifestante agarrado na frente do caminhão, gritando palavras que o caminhoneiro não consegue ouvir. Entre eles, o vidro, uma barreira física e simbólica que separa mundos e impede o diálogo. A obra é sobre a impossibilidade de escuta em uma sociedade dividida, onde discursos se chocam e nunca há conciliação. Pode ser visto como um road movie de estilo autoral, com pitadas de sarcasmo e ironias da vida real. O trabalho de Vito foi reconhecido em muitos festivais, como o Festival do Rio, onde ganhou o Troféu Redentor de melhor ator. O roteiro foi escrito em três: por Ciocler, Vito e pela atriz Isabel Teixeira (filha do cantor e compositor Renato Teixeira). Exibido em festivais como a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, a obra está nos cinemas brasileiros, com produção e distribuição da Amaia.

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