Festival
“É Tudo Verdade” termina no próximo domingo; confira mais filmes vistos lá
O “É
Tudo Verdade – Festival Internacional de Documentários” segue com 75 de filmes gratuitos
para o público até o dia 19/04, em salas de cinema de São Paulo e Rio de
Janeiro. Festival de cinema importante do Brasil, o É Tudo Verdade está em sua
31ª edição, este ano apresentando longas, médias e curtas-metragens de 25
países. Confira abaixo mais títulos que já conferi no Festival e que recomendo:

Retiro
– A Casa dos Artistas
(Brasil,
2026, de Roberto Berliner e Pedro Bronz)
Documentário
sobre uma instituição única no Rio de Janeiro: o Retiro dos Artistas, local
respeitado que acolhe artistas idosos das mais diversas frentes, localizado em
Jacarepaguá. Fundado em 1918, o Retiro é um patrimônio cultural e afetivo da
cidade, que oferece aos residentes não apenas moradia, mas dignidade. O filme faz
uma visita de casa em casa dos artistas, numa conversa informal sobre a velhice,
a solidão, as memórias, as amizades ali cultivadas. Cada um traz consigo lembranças
dos palcos, telas e concertos, e assim o documentário transforma essas
lembranças em matéria-prima poética, mostrando como a arte permanece viva mesmo
quando os holofotes se apagam. Moradores ilustres falam para a câmera, como as
atrizes Dilze Pragana, Sonia Zagury, Claire Digon e Iris Bruzzi, o ator Jayme
Leibovitch, os músicos Pedro Paulo Castro Neves, Robertinho Silva, Mauro
Continentino e Bida Nascimento (filho e Léa Garcia e Abdias do Nascimento), além
de rápida participação de Stepan Nercessian, presidente do Retiro há mais de 20
anos, e Marieta Severo, doadora constante e que sempre visita o espaço. No
filme vemos rituais íntimos no Retiro, como os almoços, as rodas de conversa, o
momento da fisioterapia, as caminhadas pelas ruas (o Retiro está situado em uma
área verde), a chegada de novos moradores e até os amores despertados na instituição.
Enquanto o filme é desenvolvido, os residentes preparam um recital de músicas e
ensaiam uma peça cômica para fechar a obra. Gostei do filme, apenas senti falta
de arquivos e filmagens sobre o Retiro de antigamente – o foco são os moradores
de agora. A première se deu no festival, e o doc tem mais uma exibição - hoje,
dia 14, em SP.
Entre
irmãos
(Holanda/Bélgica,
2026, de Tom Fassaert)
Exibido
no Festival de Rotterdam desse ano, “Tussen brothers” (aqui traduzido como “Entre
irmãos”) é um documentário holandês-belga feito em família, com uma história
curiosa que se descortina aos poucos. O diretor Tom Fassaert investiga a
relação próxima entre seu pai e seu tio, respectivamente Rob e René, o primeiro
um psicólogo aposentado, e o segundo, um paciente psiquiátrico. René vive
recluso numa casa repleta de materiais acumulados, enquanto o irmão mais novo,
Rob, semanalmente o visita para ajudá-lo a organizar suas coisas (e claro, dar
conselhos). Eles vivem debaixo de atritos, mas não se separam por nada. A
ligação entre os dois é intrínseca naquela dinâmica que oscila entre brigas e
afeto. A filmagem da rotina dos dois irmãos encontrará um momento crucial,
quando puxam da memória uma história triste que sempre os abalou: o avô, pai de
Rob e René, abandonou os filhos ainda pequenos e desapareceu sem deixar pistas (vazio
sentido até hoje). O filme, com momentos tristes, outros de apego e alguns cômicos,
acompanha uma série de dias na relação dos dois irmãos, focando em uma herança
emocional que atravessa gerações, que conecta passado e presente e revela como
traumas não solucionados moldam vínculos familiares. O filme conta com mais uma
exibição no É Tudo Verdade, hoje, dia 14, no RJ.
Crianças
no fogo
(Ucrânia,
2025, de Evgeny Afineevsky)
O documentarista
russo Evgeny Afineevsky encerra aqui uma trilogia sobre a Guerra da Ucrânia,
iniciada com “Winter on fire: Ukraine's fight for freedom” (2015 – indicado ao
Oscar) e seguida por “Freedom on fire: Ukraine's fight for freedom” (2022). Entre
os dois primeiros títulos teve um filme menor de mesmo tema, “Pray for Ukraine”
(2015), realizado na fase inicial do conflito entre Ucrânia e Rússia, em 2014. Em
“Children in the fire”, o diretor resgata imagens fortes de crianças destruídas
pela guerra, feitas entre 2014 e 2017, e as convida para contarem a superação e
os obstáculos enfrentados após 10 anos. Hoje adolescentes, os entrevistados viram
um pouco de tudo no horror da guerra: uma teve a perna amputada, outro ficou
com mais de 80% do corpo queimado, outro presenciou torturas de prisioneiros
pelas mãos dos russos. As crianças presenciaram sequestros, estupros, ataques a
míssil que mataram familiares e amigos. O filme é perturbador, muito
impactante, com cenas de crianças feridas que mexem com nosso íntimo (em dado
momento vi muitas pessoas saírem da sala, já que o diretor não poupa em mostrar
as atrocidades que fizeram com essas crianças). São oito histórias de
sobreviventes separadas em blocos, entrelaçando imagens reais de arquivo e
depoimentos atuais com animação em live-action, que reproduz as lembranças
trágicas de cada uma delas. O documentário teve sessões no festival nos dias
10, 11 e 12, em SP e RJ, acompanhada do curta-metragem chileno “Baisanos”
(2025), que foi exibido no festival de Locarno, sobre os chamados “Baisanos”
(termo coloquial para compatriotas), torcedores do Club Deportivo Palestino,
time de futebol fundado em 1920 por imigrantes palestinos em Santiago,
fortemente ligados à causa palestina. Sem mais sessões no festival, deve
estrear nos cinemas e depois ir para o catálogo da Netflix (já que os dois anteriores
que formam a trilogia estão lá).
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